Mostra de SP 2020 | ‘Suor’ questiona as relações (e falta delas) na era das redes sociais – Crítica

No mundo da contemporaneidade, enquanto a tecnologia avança rumo ao topo na tentativa de descobertas de novas vidas em outros planetas, na vida terrestre o mesmo é feito, sendo as redes sociais um dos aparatos utilizados para isso. Já não é possível marcar reuniões, encontros ou visitas sem o uso do Instagram, Whatsapp ou Facebook. Nessa nova conjuntura o mundo que exige uma readaptação social, também conforta novas categorias sociais e profissões que nascem no lar do século XXI, propício a sua demanda. As celebridades agora são os influenciadores que utilizam as redes para falar sobre seu estilo de vida e que, em troca, recebem um grande número de likes, views e carinho do público, bem como dinheiro das grandes marcas que encontra nas celebridades do mundo atual, sua nova porta-voz. Suor Sweat

Ser influente em um mundo que exige reinvenção e criatividade a todo o momento não é algo fácil, bem como se destacar em meio a tantas outras personalidades da mídia que fazem o mesmo trabalho que o seu, exigindo um diferencial que o faça brilhar diante de toda a gente. Em Suor (Sweat), filme que será exibido na Mostra de SP 2020 entre os dias 22 de outubro a 04 de novembro na seção competitiva de Novos Diretores, o diferencial de uma Sylvia (Aleksandra Konieczna) é seu carisma e atenção com os fãs. Uma jovem mulher loira, com o corpo magro, tipo ideal estabelecido por algumas mídias e musa do mundo fitness é uma inspiração para milhares de mulheres que desejam ser como ela. Dando aulas e dicas de atividades físicas e um modo de vida mais saudável, a moça utiliza suas redes e imagem pública para agregar cada vez mais seguidores, patrocinadores, fãs. Entretanto, tudo muda na vida da moça quando ela expõe nas redes parte de seu lado mais pessoal de vida. 

O longa foi selecionado para a última edição do Festival de Cannes na seção The Newcomers, dedicada aos diretores estreantes. Dirigido por Magnus von Horn, o drama sueco-polonês se estabelece apresentando qual o mundo vivido pela influencer fitness. Em um shopping repleto de garotas que repetem os seus passos, Sylvia não só ensina o que elas devem fazer, mas também apresenta um discurso motivador com sorrisos reconfortantes que agradam aqueles que a admiram. Quando termina a apresentação e é levada aos bastidores, Sylvia, que já não é tão sorrisos, náufraga no mundo que vive nas redes sociais em busca das migalhas de felicidade. 

A dualidade das cenas nas quais a protagonista se encontra rodeada de gente em grandes ambientes transpõe para o mundo material a felicidade que encontra nas redes. Entretanto não é sempre que Sylvia se satisfaz ao estar com pessoas. Mesmo sendo querida virtualmente, não possui muitos amigos ou pessoas próximas a quem possa recorrer. Quando se dirige a pequena casa da mãe, faz questão de levar os melhores e mais caros presentes, tentando suprir o vão afetivo que existe entre elas. Deslocada em meio a sua família, Sylvia sente muito mais do que aquilo que transparece. Com as emoções dosadas a todo o momento, a jovem está sempre em busca de algo que preencha sua carência e solidão. 

Sem pessoas próximas, Sylvia recorre as redes quando precisa desabafar e colocar sua fragilidade para fora. Entretanto, isso causa grande repercussão negativa em sua vida, tomando proporções inimagináveis. O filme brinca com a relação que a influencer possui com a internet quando ela deixa de resolver os seus problemas e passa a criá-los. Quando um de seus fãs tenta suprir a solidão que a garota apresenta ter, a jovem percebe que o seu desabafo nas redes não saiu como planejado. 

Aleksandra Konieczna em ‘Suor’ (Sweat, 2020)

Suor caminha de forma limítrofe entre o mundo alegre e despojado que Sylvia vive nas redes sociais ao completo vazio e triste universo que vive fora da tela do celular. Com esse caminho traçado, o longa ainda adiciona à trama o suspense vivido durante a noite após uma festa. Soando como um novo filme, Suor leva Sylvia a uma tensa experiência na madrugada antes da estreia do seu programa na televisão, mudando o seu tom conforme o dia vai terminando se tornando mais sombrio e delicado quando chega a noite. As pessoas que cercavam a moça somem conforme o perigo avança e os minutos próximos ao final do longa são reservados para outro filme, destoando de tudo o que Suor havia apresentado até então. 

Assim como a comédia dramática Ingrid Vai Para o Oeste (2017) acompanha a vida de uma jovem stalker nas redes sociais, Suor aborda o que ocorre do outro lado. A vida de glamour, riqueza e afeição é desmontada quando vemos a protagonista em seu enorme apartamento, sozinha, sem ter com quem estabelecer o mínimo de conexão pessoal. A pressão existente na vida da garota para que ela seja perfeita em tudo o que faz, influencia o seu afastamento de seus familiares e aproxima pessoas que não necessariamente se preocupam com ela de fato. O filme leva ao extremo as implicações do que a exposição sincera e triste de Sylvia nas redes resultou para aqueles que a acompanham, adicionando a trama uma violenta cena de agressão. 

No final do dia, a jovem ainda precisa permanecer imaculável como uma barbie. O filme pontua a extrema calamidade que pode chegar uma pessoa ao ter que se portar de forma perfeita para as redes enquanto vive um profundo vazio fora delas. Ponderando a dualidade existente entre a superexposição que as pessoas possuem nas redes sociais atualmente, camuflando vidas vazias e sem motivação. Suor é um drama que cresce com decorrer do próprio filme, apresentando pouco a pouco as camadas que ambiciona alcançar e as provocações em volta da vida da influencer, chegando a patamares extremos que, por fim, tornam-na ainda mais solitária. 

Acompanhe aqui a nossa cobertura da 44ª Mostra de São Paulo, que ocorrerá entre os dias 22 de outubro a 4 de novembro

SUOR | SWEAT
3.5

RESUMO

A dualidade das redes sociais é colocada no centro de Suor (Sweat), filme do diretor estreante Magnus von Horn.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.