VIFF 2020 | ‘Time’ explora as consequências do encarceramento em massa pelo olhar de quem espera do lado de fora – Crítica

“Pessoas desesperadas fazem coisas desesperadas. Simples assim” diz Sybil Fox em Time, documentário da cineasta Garrett Bradley. O filme que foca na luta de uma mulher negra nos Estados Unidos por sua família, marido e pela abolição do sistema penal venceu o prêmio de Melhor Direção de Documentário no Festival de Sundance e fez parte da programação do Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Atualmente, é considerado um forte candidato na categoria de Melhor Documentário no Oscar. 

Durante o colégio, Fox conheceu Rob Richardson, ambos se apaixonaram, se envolveram em um romance e terminaram se casando. Após o casamento, o casal Fox-Richardson decidiu começar um negócio de roupas de hip-hop que não deu certo e entrou em declínio. Tentando salvar o negócio a qualquer custo Rob e um primo roubam um banco enquanto Sybil dirige a condução de fuga, entretanto os três são pegos e levados a prisão. Sybil, grávida de três meses, permanece em liberdade até o nascimento dos seus filhos gêmeos. Após isso, é presa durante três anos, entretanto, quando é solta, passa a lutar dia após dia para a liberdade de seu marido, Rob, que pegou pena de 60 anos de prisão sem chance de condicional na época.

Documentando o seu dia a dia durante todos esses anos, Sybil possui em suas mãos o arquivo documental da família que cresceu com o vão paterno em sua casa. Mãe de seis filhos, ao entender a realidade do sistema carcerário americano, se debruça entre casa, família e sistema judicial, na tentativa de conseguir a soltura do seu marido. Narrado através dos vídeos caseiros de Sybil, em paralelo com cenas documentais recentes, o documentário em preto e branco utiliza seus 81 minutos de duração para contar essa emocionante história. 

Sybil Richardson passou 20 anos de sua vida criando os seus filhos e esperando o dia que seu marido finalmente seria solto. Com o passar dos anos, conseguiu abrir uma concessionária em uma cidade que ficava mais próxima da penitenciaria, mas apesar de conseguir desenvolver um bom negócio e criar seus filhos, as preocupações da mulher sempre foram os relacionamentos familiares. Com os filhos crescendo e os dias passando, Sybil tinha medo que seus filhos virassem pais antes mesmo de ter um pai em casa. “Eles não têm a menor ideia do que é crescer com um pai presente”, desabafa.  

Enquanto os adolescentes possuem pôsteres dos seus ídolos em casa, a família Rich possui um pôster em tamanho real do pai. Ligações em aniversários e visitas na cadeia, foi dessa forma que a relação entre eles se configurou durante esses anos. Com os seus filhos crescendo e se formando, o documentário também dedica parte a mostrar os homens que os pequenos meninos dos vídeos caseiros antigos haviam se tornado. Homens esses que além de terem tido sucesso na vida escolar e acadêmica, possuem consciência política e noção da situação na qual vivem, já que veem a mãe se tornar cada vez mais ativa na militância judicial. 

Abolicionista penal, Sybil se tornou uma voz ativa no meio e grande militante nas políticas encarcerarias. Lutando por seu marido, a moça escreveu o livro The One that Got Away: A True Story of Personal Transformation (2009) contanto sua história de vida e superação após enfrentar o sistema carcerário. Na defesa do seu marido, Sybil se tornou também uma voz que luta pelo não encarceramento em massa dos homens negros.

O funcionamento da área do sistema judicial e penal para pessoas negras que já havia sido abordada em A 13ª Emenda e I Am Not Your Negro no ano de 2016, agora possui uma obra que explora outra vertente desse âmbito, a da família que sofre as consequências com a prisão de um pai, um marido e um amigo. Conseguindo ampla visibilidade na comunidade, Sybil possui uma rede de afeto que se torna essencial para o momento que ela enfrenta. O culto da igreja, os amigos da comunidade e principalmente sua mãe. Ela não esconde que não desejava isso para a filha, mas mesmo com suas observações, foi com o grande apoio de sua mãe que Sybil conseguiu criar seus seis filhos, ter uma fonte de renda e ainda lutar pela liberdade do seu grande amor. 

Fotografado em preto e branco, Time nos leva de volta ao passado e nos traz para o presente, mas sempre na tentativa de alcançar o futuro, tudo sem uma ordem cronológica exata. Os vídeos caseiros da Sybil mais nova é o grande apoio para que possamos ver a Sybil de agora e enxergar o amadurecimento que a vida lhe exigiu. Com tom nostálgico, somos levados as suas memórias mais alegres, quando Rob ainda estava presente no dia a dia. Time brinca com o seu próprio nome. O filme que vai e volta no tempo, gostaria de ter em cena somente o futuro, o futuro no qual Rob se encontrará presente em casa. O tempo não existe, existe somente o vazio e a falta desse pai. Entretanto, também existem 20 anos de que se passaram sem que os filhos tivessem um pai em casa e sem que Sybil tivesse seu parceiro ao seu lado.  E, há ainda, o tempo que irá chegar, o  momento no qual Rob estará finalmente livre.

O tempo que Sybil perdeu de seu marido não pertencendo a sua família, mas sim ao seu governo, o tempo que Rob passou sendo escravo como diz sua mulher, “escravo do estado”. De forma comovente, e ainda brincando com o seu próprio propósito, Time volta no tempo rebobina as fitas do passado, voltando para a última fita dos dois juntos, a fita do beijo que gerou o pôster do filme.

O final não poderia ser diferente. O boneco real de papelão do pai que há em casa é queimado no final, exorcizando maus tempos e memórias que agora, poderão ser guardadas, dando espaço para o novo tempo que o futuro promete para a família Rich, não é mais necessário um boneco se o pai em carne e osso voltar para casa. Em um tom de esperança e com base na fé da família que passou por 20 dolorosos anos, o tempo só está começando para eles agora. 

TIME
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RESUMO

Documentário Time acompanha uma mulher que busca entender a realidade do sistema carcerário americano, e se debruça entre casa, família e sistema judicial, na tentativa de conseguir a soltura do seu marido.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.