VIFF 2020 | Noémie Merlant vive romance com brinquedo em parque de diversões no surrealista ‘Jumbo’ – Crítica

Anunciando ser baseado em fatos reais, o drama coming of age Jumbo acompanha Jeanne (Noémie Merlant) uma tímida mulher que trabalha em um parque de diversões limpando as atrações do parque durante a noite. Lá, Jeanne conhece e se apaixona por Jumbo, um dos novos brinquedos do parque. O peculiar filme de estreia de Zoé Wittock é escrito e dirigido pela cineasta que aborda de forma delicada e divertida um tema tabu e ainda pouco discutido na sociedade. O filme fez parte da mostra no Festival Internacional de Cinema de Vancouver.

Em 2007, Paris se tornou palco de um dos eventos mais curiosos do ano. A arqueira competitiva e advogada Erika LaBrie se casou com a famosa Torre Eiffel, sendo hoje em dia conhecida como Erika Eiffel. A mulher de 48 anos atualmente atua na área de defesa da sexualidade e atração por objetos. Instigada pela história de Erika e outras pessoas que possuem a objectofilia (atração sexual e afetiva por objetos), a diretora belga escreveu Jumbo, um conto surrealístico de afeto. 

Jeanne vive com sua mãe Margarette (excelente Emmanuelle Bercot), com quem possui uma próxima relação. Ambas trabalham no turno da noite, enquanto Margarette trabalha de garçonete em um bar, Jeanne trabalha como auxiliar de limpeza em um parque de diversões da cidade. Sendo uma pessoa de poucas palavras, a introspectiva Jeanne vive em um mundo onde poucos conseguem entrar. Além de sofrer bullying por parte de outros jovens trabalhadores do parque, ainda precisa lidar com a tentativa de aproximação do seu novo chefe, por quem não possui nenhum interesse. 

A moça dedica o seu tempo livre às maquetes que recria em casa com base nos brinquedos do trabalho. Com luzes coloridas e neon, seu quarto é uma miniatura de tudo aquilo que gosta no parque. Com sua vida dividida entre esses dois universos, Jeanne possui no parque e nos brinquedos o seu momento particular. Apesar de não possuir muitos amigos, durante todo o dia o parque fica rodeado pelo público, somente pela noite, enquanto exerce seu trabalho, ela se encontra completamente à vontade. Em uma dessas noites Jeanne, após limpar o novo brinquedo do parque, sente algo diferente com relação a ele. Nomeando-o de Jumbo, e ajudando a construir certa humanidade no brinquedo, Jumbo e suas luminosas cores azuis despertaram o sentimento da moça. 

Acreditando inicialmente ser alucinação, Jeanne percebe que Jumbo se comunica com a moça. Através de códigos de cores, barulhos e movimentos realizados pelo maquinário, ambos passam a interagir todas as noites. Mexendo por conta própria, sem que alguém regule o brinquedo, Jumbo responde às perguntas feitas por Jeanne, mas para além disso, a conexão dos dois não é realizada somente através da simbologia. Com movimentos, ações e reações, Jeanne se sente conectada a Jumbo como nunca se sentiu a nenhuma pessoa. 

A premissa do filme, ambiciosa e até esquisita, apesar de causar espanto a priori, é apresentada de forma tão cuidadosa, delicada que encanta aos olhos e conquista conforme se passa. O que parecia ser algo fantasioso e mágico, se transforma em uma narrativa surreal conforme o afeto entre Jeanne e Jumbo aumenta. Durante a noite, imersos em um mundo unicamente deles, Jeanne alcança o prazer que nunca conseguiu antes, e o filme apresenta isso de uma forma visual e pungente com o sentimento da moça. 

A diretora que utilizou casos reais para dar vida ao seu filme, tomou um extremo cuidado ao não deixar com que o filme se tornasse místico, grotesco e desrespeitoso. A objectofilia, apesar de ainda ser pouco estudada, é algo que acomete seres humanos ao redor do mundo e Jeanne é em si, a representação dessa gente. Diferente do caminho que o longa poderia tomar, Zoé utilizou da imersão surrealista nas cores, na representação do desejo vivido entre Jeanne e Jumbo. 

Entretanto o verdadeiro item que integra a veracidade ao que é apresentado é a dor carregada por Jeanne (aqui uma sensível e fragilizada Noémie Merlant ). A jovem, que não esconde o que sente, relata aos mais próximos o sentimento que nutre por Jumbo, apresenta-o inclusive a sua mãe que acredita que a filha está doida. Ao adentrar a casa de Jeanne e o âmbito familiar o filme dá vida ao seu segundo foco, o lugar onde Jeanne se sente emocionalmente abalada ao tentar travar qualquer tipo de diálogo com sua mãe, que não consegue entender o que se passa entre a filha e Jumbo. 

O aspecto mais palpável e desconcertante do filme é de fato a relação mãe e filha. Sendo uma pessoa introspectiva e com dificuldade de ligação pessoal, a única pessoa com quem Jeanne se abre acerca de sua vida e sentimentos é sua mãe, que por sua vez acredita que há algo de errado com a filha. Somente a chegada do novo parceiro de Margarette consegue estabelecer um diálogo ameno e apaziguador entre ambas as mulheres que somente sofrem. 

Tornando uma premissa de ficção cientifica, em um drama sensivelmente humano, Zoe entrega um trabalho promissor explorando as feridas e amores de uma jovem incompreendida pela sociedade que só deseja ser feliz e amar livremente aquilo que menos esperam. Sustentada pela carga dramática de Noémie Merlant, aqui mais frágil que em Retrato de Uma Jovem em Chamas (2019), é através de Jeanne que podemos conhecer e se sensibilizar pelo que existe entre ela e Jumbo. Diferente, mas belo, o final do longa é um grito de liberdade e paz semelhante ao glorioso final de Mommy (2014), de Xavier Dolan.    

JUMBO
3.5

RESUMO

Dirigido pela estreante Zoé Wittock, Jumbo aborda um tema surreal e esquisito sem se tornar místico, grotesco e desrespeitoso.

Confira a cobertura completa do Festival de Vancouver aqui.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.