9º Olhar de Cinema | ‘Los Lobos’ e a solidão dos imigrantes ilegais – Crítica

O que você vê? Uma pergunta carregada de ponto de vista. O que eu enxergo diferente do que você enxerga. Podemos olhar para o mesmo cenário e o relatem de formas distintas. Esta é a simples, mas intensa premissa de Los Lobos (Samuel Kishi), longa mexicano que aborda o isolamento e a solidão de imigrantes ilegais nos Estados Unidos afastados pelo espaço, idioma e origem. O “sonho americano” não é, para muitos, um parque encantado e divertido como a Disney. 

Para a família que acompanhamos nesta obra, não chega nem perto. Uma mãe (Martha Reyes Arias) com seus dois filhos pequenos, Leo (Leonardo Nájar Márquez) e Max (Maximiliano Nájar Márquez), muda-se para terras estadunidenses e não sabemos bem o motivo. À procura de um sonho, uma vida melhor talvez. Na verdade, nada do passado destas pessoas é revelado explicitamente. Suas memórias são introduzidas sutilmente e aos poucos, o que contribui para acrescentar uma sensibilidade tocante à história. 

A trama lembra muito o ótimo Projeto Flórida (2018), mas muito menos colorido. Los Lobos é tingido de cores frias para sinalizar uma existência escondida. Exceto por alguns momentos em que o sol entra pela janela no pequeno apartamento ocupado pela família. Nestas cenas, os dois meninos, de uma doçura cativante, estão sozinhos à espera da volta da mãe, que passa o dia trabalhando. O dia arrasta-se lentamente enquanto eles se ocupam desenhando, jogando futebol e ouvindo lições de inglês em um velho gravador. 

A presença deste objeto inclui uma poética encantadora ao filme. Pois ali grava-se a vida. Havia a gravação do avô das crianças, há a gravação da mãe e a gravação dos próprios meninos. É uma ausência que se faz presente. Quando a mãe não está, os filhos a ouvem e a mãe ouve seus filhos enquanto ela não estava. O gravador é quase um quarto membro desta família que não tem nada senão o amor uns pelos outros. 

Nada de muito tenso acontece durante sua uma hora e meia de duração, mas é um tempo que passa facilmente à medida que somos conquistados por esses indivíduos. Vemos recortes destas pessoas esquecidas e ignoradas cujo o mundo foi encurtado à uma sala ou no máximo ao saguão do prédio. São como fantasmas à espreita de uma mudança. Também é interessante notar que o filme não se utilizou de cenas explícitas de sofrimento para ganhar a empatia do público, como Cafarnaum (2019). Trata-se aqui de contar uma história, não é a melhor ou a mais triste, apenas a vida.

Um maior aprofundamento ao tema poderia ser bem-vindo em Los Lobos, mas isto não o desvaloriza. Somos meros observadores e, talvez, saiamos desta experiência mais reflexivos e humanos. 

Filme assistido no Festival Internacional de Curitiba Olhar de Cinema em Outubro de 2020. Acompanhe aqui a nossa cobertura.

LOS LOBOS
3.5

RESUMO

Los Lobos fala sobre o isolamento de imigrantes de forma simples e cativante.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"