9º Olhar de Cinema | O caos que transforma em ‘Para Onde Voam As Feiticeiras’ – Crítica

Centro de São Paulo, Brasil. A maior cidade da América Latina, palco de grandes construções democráticas e representação do macro de experimentos artísticos, composições criativas e vivência social com o que é estranho e diferente aos olhos do padrão da sociedade. Em Para Onde Voam As Feiticeiras, novo filme de Eliane Caffé, Carla Caffé, Beto Amaral acompanhamos o centro de São Paulo sendo ocupada por performers de minorias em contato com a coletividade. Expandido os seus horizontes artísticos e ideais, o grupo se fixa diante de uma porta cinza grafitada de loja, utilizando aquele espaço como palco para a criatividade em transformação.

Conforme o mundo avança em debates políticos e sociais, a diversidade e pluralidade dos corpos vão se tornando mais evidente na sociedade, bem como possuem os seus âmbitos ganhando espaços que antes não tinham direito. Enquanto o discurso lgbtqi+, pretitude, feminismo, luta indígena ganha mais protagonismo na sociedade devido a séria  militância, seus resultados reverberam no debate político, nas artes, no cinema, nos livros, nas novelas e principalmente no dia a dia. Entendendo a necessidade de ampliar os espaços e as pessoas que discutem esses temas, outro lugar não poderia ser escolhido além das ruas. 

Abrindo a 9º edição do Olhar de Cinema, o documentário de Eliane Caffé, Carla Caffé, Beto Amaral segue um grupo de artistas que ocupam múltiplas áreas das minorias sociais e decidem, através dos seus próprios corpos, levarem o seu debate para as ruas, alcançando um público que outros meios não alcançam. Com uma proposta estética diferente e uma abordagem múltipla, ‘Para Onde Voam As Feiticeiras‘ possui um debate político urgente, fruto do século no qual se passa e resultado de contrastes corporais e fílmicos. 

Ao sermos inseridos em Para Onde Voam As Feiticeiras, não sabemos a proposta do grupo de artistas formados por pessoas pretas, lgbtqi+, mulheres e outros grupos minoritários que precisam reivindicar seus espaços para poderem existir na sociedade. Artistas, o grupo propõe surpreender aqueles que o acompanham, tendo em vista que o que será feito adiante não é revelado. Com roupas coloridas, brilhos, enfeites e elementos cênicos artísticos o grupo se instala na rua para, em conjunto com aqueles que passam por ali durante o dia, construir uma narrativa de aprendizados e criação. 

Assim como em Era o Hotel Cambridge (2016), Eliane acompanha o grupo com a câmera na mão por onde eles passam, bem como aqueles que se achegam aos artistas atraídos pelo que eles fazem no meio da rua. Causando espanto e interesse de quem passa, é impossível não olhar o grupo que chama atenção, não só pela equipe de filmagem, mas principalmente pela excentricidade do grupo que faz questão de não passar despercebido. Conquistando a atenção de quem passa, e chocando o público mais conservador, é através dos múltiplos corpos, cores e formas presentes que o grupo consegue alcançar o seu objetivo: trocar ideias. 

Para Onde Voam As Feiticeiras (2020)

O que é necessário para que as pessoas falem sobre sexualidade, gênero, etnia, lutas sociais e debates políticos importantes sem que isso se venha de um meio elitista ou academicista? O grupo que faz parte do cenário militante de São Paulo, discute os temas que os cercam, nos bastidores, enquanto formam rodas de conversa apontando as possíveis saídas de interlocução desses temas tão importantes, porém ainda recentes no cenário macrossocial, com a população no geral. Senhores de idade que não tiveram acesso a isso no seu passado, trabalhadores que possuem outras preocupações no seu dia a dia e pessoas que estão se inserindo no debate da multiplicidade social. 

Para Onde Voam As Feiticeiras, assim como seus protagonistas, não segue somente uma linha estética, o documentário se forma a partir de várias formas, a câmera na mão que os segue na rua, os grupos de debate que possuem os maiores confrontos existente entre eles no filme, depoimentos pessoais dos artistas, e cenas documentais de outros eventos históricos que são a materialização concreta de sua mensagem. Líderes indígenas no parlamento lutando por suas terras, cenas de paradas lgbt e o racismo que mata pretos e pretas todos os dias. 

A fusão das mais diversas formas documentais se une aos inúmeros elementos e apresentações do grupo na rua criando o completo caos na sociedade. Sendo o caos a confusão geral dos elementos da matéria, os protagonistas chamam atenção, causam espanto, atraem olhadas tortas e comentários ofensivos por aqueles que não entendem e não aceitam que existe alguém diferente dele. Com o objetivo de causar, para que assim a mudança possa ser feita, é necessário chamar a atenção de quem passe em cena para conseguir  discutir com a população o que eles entendem por cisgênero, a diferença entre trans e travesti, o que é identidade de gênero e orientação sexual, dentre outros relevantes temas.

Os depoimentos que eles colhem durante o percurso daqueles que passam é o que faz o filme ser muito além de um documentário. Intrigante para quem assiste, Para Onde Voam As Feiticeiras é transformador para quem vive. Utilizando seu conhecimento e vivência para discutir de forma divertida e interativa termos, discursos que está ganhando mais notoriedade na sociedade, os artistas usam seu pulsante poder para modificar possíveis discursos no futuro.

Com os conhecimentos, as estéticas, histórias e intenções, Para Onde Voam As Feiticeiras é um coletivo filme que além de possuir sua forma única ao unir as mais diferentes formas documentais, também é protagonizada por um grupo múltiplo na frente e atrás das câmeras. Com talentosos artistas e sábios personagens, o filme se encerra após 89min de duração, mas com certeza suas reverberações continuam após os créditos.

Acompanhe aqui a cobertura completa do 9º Olhar de Cinema. 

PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS
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RESUMO

O novo filme de Eliane Caffé, Carla Caffé, Beto Amaral, Para Onde Voam As Feiticeiras, explora as mais diversas formas de existir, através da versatilidade estética.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.