9º Olhar de Cinema | O Nordeste volta à cena em ‘Sertânia’, de Geraldo Sarno – Crítica

Leia a nossa crítica de "Sertânia", de Geraldo Sarno, exibido no 9º Olhar de Cinema.

Antão (Vertin Moura) foi muito cedo para São Paulo com sua mãe na busca por uma melhor condição de vida. Anos depois, ele retorna ao Nordeste em busca do paradeiro de seu pai. Mas, no meio dessa jornada, ele conhece o temido Coronel Jesuíno Mourão (Julião Adrião) e passa a fazer parte de seu grupo. Sertânia foi visto na 9ª Edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.

O filme, dirigido e escrito por Geraldo Sarno, é um trabalho único na atualidade. Após muitos anos de experiência e conhecimento, o cineasta resgata temas com os quais já trabalhou em outras oportunidades, mas sempre de modo criativo. Nesse novo filme, é possível encontrar referências a outras produções do próprio Geraldo. Alguns exemplos que logo vêm a cabeça são Viramundo (1965) e Coronel Delmiro Gouveia (1977). Além disso, o cineasta não se prende a uma linguagem cinematográfica usual — ou comercial como muitas figuras do cinema das antigas diriam. Essa linguagem inovadora elabora uma atmosfera onírica e alucinante, que percorre o longa. E, quando se une a questões como o cangaço, o messianismo, o subdesenvolvimento, a miséria, a migração, a cultura nordestina entre outros, gera um resultado impressionante.

Mas que nova linguagem cinematográfica é essa? Geraldo Sarno faz muito uso de uma câmera bastante movimentada. Ela está sempre acompanhando a movimentação dos personagens. Os enquadramentos nas cenas não são previsíveis. A câmera, em alguns momentos, ela assume a primeira pessoa, que acaba se rastejando pelo chão, como se o personagem não tivesse forças para caminhar. Também reforçam essa linguagem a montagem, que trabalha bastante com a sobreposição das imagens, e o uso da luz natural, que chega a ficar superexposta em algumas cenas. Mas tudo isso muito bem trabalhado. A trilha sonora, composta por Lindenbergue Cardoso, se faz bastante presente em momentos pontuais do longa.

Ainda é necessário citar dois importantes recursos. O narrador-personagem (no caso, o Antão), que fala dos seus sentimentos, das suas vontades, e o rompimento com uma linha cronológica. As cenas avançam e voltam no tempo constantemente, muitas, inclusive, se repetem ao longo do filme. No entanto, esse recurso temporal influencia a narrativa de maneira positiva. Os eventos dessa história não precisam ser contados de maneira ordenada. Porém, é preciso reforçar que só alguém com muita experiência na área é capaz de utilizar tais elementos de modo tão preciso. E, como se não fosse mais possível, Geraldo decide continuar inovando com o recurso da quebra da quarta parede. Parece ser o próprio cineasta desejando pensar a sua obra e/ou o cinema.

 

Nesse sentido mais técnico e da busca por uma nova linguagem, o filme lembra muito os trabalhos marcantes do Cinema Novo, do qual Geraldo Sarno é contemporâneo. Alguns exemplos: Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), Os Fuzis (Ruy Guerra, 1964). Mas no que diz respeito ao conteúdo, observa-se muitas ligações com obras clássicas da literatura, como Os Sertões, de Euclides da Cunha; Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa; e Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó. Com isso, Sertânia se enriquece, ganhando mais uma camada a ser analisada.

É possível pensar Sertânia a partir de dois aspectos. Analisando o filme de modo mais superficial, é possível chegar a conclusão de que esse se trata de Antão, um homem reflexivo e, até mesmo poético e que vive numa contradição interna acerca do que aconteceu com seu pai, e sua relação com o Coronel Jesuíno Mourão, um líder, uma figura de imposição. “Eu só chego quando não estão me esperando. Quando estão me esperando, é aí que eu não chego mesmo.”, se apresenta Jesuíno numa determinada cena. A dupla é muito bem desenvolvida pelo roteiro a partir do momento em que Jesuíno passa a ocupar uma figura quase que paterna.

Dessa forma, talvez a melhor cena na qual a relação entre os dois se evidencia seja a que apresenta um diálogo sobre a crença em Deus. É tudo na base dos detalhes. Ao lado de Jesuíno, Antão é nomeado como “Jararaca”, aquele que dá o bote, o que demonstra uma certa desconfiança do líder cangaceiro no jovem inicialmente. No entanto, logo depois, Antão passa a ser chamado de “Gavião”, o matador de cobra. Vale ressaltar que essa cena é uma referência a uma das memoráveis cenas de Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964), em que Corisco (Othon Bastos) nomeia Manoel (Geraldo Del Rey) como “Satanás”. Também vale a pena destacar que Vertin Moura e Julião Adrião são dois excelentes atores.

Por outro lado, ao pensar em Sertânia de maneira mais profunda, é possível perceber alguns elementos, que dialogam com uma série de questões sobretudo no que diz respeito ao personagem Antão. O jovem, ao voltar para o Nordeste, tem a intenção de entender o que aconteceu com o pai, uma situação que continua o atormentando, tendo em vista o constante questionamento: “E o pai? O pai morreu?”. Mas logo Antão, aquele que “não tinha um passado”, começa a encontrar a sua identidade no meio do povo. Antão também é fruto do contexto político, social e histórico nordestino.

Assim, o protagonista passa a refletir uma série de temáticas fundamentais e que a maior parte do cinema brasileiro não discute mais em suas produções. Antão representa o nordestino que migra para São Paulo em busca de melhores oportunidades de emprego, um tema abordado por Sarno no documentário Viramundo. Em SP, desenvolve uma carreira militar, atuando em conflitos históricos no estado. Ao retornar à região Nordeste, se confronta com a forte desigualdade, a miséria, a violência, o cangaço e o coronelismo. É marcante o diálogo entre Antão e o Coronel Delmiro Gouveia na Terra dos Mortos sobre a industrialização e o desenvolvimento. Aliás, essa é uma passagem muito bem construída. A partir disso, Antão se reconhece no povo, ou seja, naquelas pessoas que mais sofriam as consequências. “Não atire, capitão. O povo não tem culpa de passar fome. O povo é inocente.”. Toda esse nível de complexidade interna do personagem principal lembra bastante o jornalista Paulo Martins (Jardel Filho) de Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) mesmo que em contextos completamente diferentes. Há ainda de se ressaltar toda a representação do messianismo e de Canudos em Sertânia.

Tendo em vista os argumentos apresentados, é possível perceber que o novo filme de Geraldo Sarno coloca o Nordeste de volta à cena. O diretor inova na linguagem e encontra em seu personagem principal a possibilidade de representar questões político-sociais importantes. Além disso, o filme reúne as maiores referências às grandes obras cinematográficas do Brasil e à literatura nordestina. Sertânia é uma grande manifestação do atual cinema brasileiro.

Acompanhe aqui a cobertura do 9º Olhar de Cinema

5

RESUMO

Sertânia, novo filme de Geraldo Sarno, apresenta uma linguagem cinematográfica inovadora.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.