9º Olhar de Cinema | Karim Aïnouz acompanha os protestos na Argélia em 2019 com ‘Nardjes A.’

Com imagens históricas dos protestos que ocorreram na Argélia em 1962, Nardjes A. nos leva de volta ao passado na intenção de contextualizar a história que iremos acompanhar. Com independência da França após anos, a Argélia finalmente se vê livre. Com o apoio de um novo governo, todos os argelinos acreditavam estar em direção a uma nova fase de liberdade política e democrática. Entretanto, com um golpe de estado, perceberam terem sido traídos por aqueles que confiavam. Em 2019, Abdelaziz Bouteflika iria para a sua quinta reeleição, entretanto, após 20 anos no poder, o povo domina as ruas reivindicando por um país democrático. 

Em 22 de fevereiro de 2019, um protesto é marcado nas ruas de Argélia, sem um autor conhecido, para que juntos, as pessoas possam pedir a proibição da candidatura daquele que governou o país durante tanto tempo. Nardjes A. é a nossa protagonista neste evento. Jovem mulher militante, Nardjes é uma argelina que mora sozinha na cidade e trabalha em um bar local. Enquanto passava por um processo de querer deixar sua terra natal devido as limitações impostas pelo governo, após o início dos protestos, Nardjes vê que não conseguirá deixar o lugar que tanto ama, decidindo lutar.

Dirigido por Karim Aïnouz, o documentário acompanha um dia de protesto na Argélia que após o dia 22 de fevereiro passou a ocorrer todas as sextas até que o objetivo fosse alcançado. Filmado através de um celular, Karim acompanha Nardjes durante todo o processo desde sair de casa à ir para as ruas, vendo de perto o que acontece no país. Se despedindo dos pais no telefone, Nardjes sabe que está sendo filmada, mas a câmera se torna uma amiga. Conversando com Karim, mesmo que não ouçamos sua voz, sentimos que ela não está sozinha, pois a acompanhamos e interagimos com a mesma através dele.  

Ao falar sobre o passado dos pais e avós militantes, conhecemos a história de Argélia pela voz de Nardjes. É a segunda vez que um evento que mobiliza a população em tamanha amplitude ocorre no país, já que o primeiro foram os eventos que levou Argélia a independência entre 1954 e 1962. Ocupando as ruas não é só algo que Nardjes sente como um dever, mas também um prazer ao defender seu país com todos aqueles que lutam para alcançar o mesmo que ela. A alegria de vivenciar esse momento histórico para o país encontra-se em sua voz ao ecoar os gritos de guerra, ao sorrir para aqueles que encontra e mesmo sem dizer nenhuma palavra os olhares passam a clara mensagem de apoio, através do capricho aos detalhes nas cores da bandeira do país. 

As conexões que são traçadas entre o país e o Brasil não se esgotam somente através do diretor do longa. Não há como presenciar o evento sem se recordar dos protestos que marcaram o país nos últimos anos em torno do trâmite presidencial e das lutas reivindicadas pela população brasileira.  

A premissa interessante em acompanhar o evento histórico, entretanto, se torna maçante conforme as imagens se repetem durante os 90 minutos de filme. Por se passar todo em um dia de protesto, Nardjes vive os mesmos momentos repetidamente, o que não cansa quando estamos lutando pelo nosso país, mas cansa quando assistimos a um filme disso. Os hinos se repetem, os cartazes se repetem e até alguns encontros também. O filme possui um início e um fim que se destacam, diferentemente do resto. 

É possível ressaltar, entretanto, a precisão dos sentimentos que acometem Nardjes durante esse trajeto. Assim como a alegria coletiva consegue ser representada pelas imagens, o desconforto ao ser abordada por um homem, também. Nardjes se encontra cercada de pessoas, homens em sua grande maioria, e nem o fato de o evento ser uma mobilização política coletiva, ela não está livre de um assédio. Nem mesmo a presença do diretor em cena filmando o que ocorria impede a aproximação do rapaz. 

Dedicado ao avô de Karim Aïnouz, Nardjes A. é um documentário pulsante e enérgico que nos imerge aos urgentes eventos que ocorreram no país em 2019. Entretanto, perde sua força ao se prolongar demais, tornando-se repetitivo. Nardjes representa o povo argelino no filme, acompanha-la em seus momentos pessoais é reconfortante após um movimentado dia, mas ao mesmo tempo nos tira da noção de coletividade que foi trabalhada durante o meio do filme. O filme tem o material ideal, para que fosse um curta-metragem. 

Acompanhe aqui a cobertura do 9º Olhar de Cinema

NARDJES A
2.5

RESUMO

Dedicado ao avô de Karim AïnouzNardjes A. é um documentário pulsante e enérgico que nos mostra eventos que ocorreram na Argélia em 2019.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.