VIFF 2020 | O intimista drama ‘Uncle’ questiona até que ponto há livre arbítrio em nossas escolhas – Crítica

Em uma fazenda no interior da Dinamarca, Kris vive uma vida pacata com seu tio já idoso. Juntos, ambos tocam a fazenda em uma rotina que exige os cuidados dos animais e também do maquinário utilizado no local. O mesmo se repete todos os dias até que Kris se vê despertada novamente por uma antiga paixão, a medicina veterinária. Ao se deparar com novos desafios em sua vida, a jovem precisa refletir acerca do que deseja para o seu futuro. Uncle (Onkel) foi exibido no Festival Internacional de Vancouver 2020.

Dirigido por René Frelle Petersen, o segundo longa do diretor dinamarquês é uma viagem silenciosa nos desejos e frustrações de uma jovem que se encontra sem muitas opções em sua vida. De um lado, apaixonada pela medicina veterinária, além de ter jeito na área, possui o desejo por aquilo que o mundo para além de sua fazenda a propõe. Entretanto, por outro lado, não imagina deixar seu já velho e adoentado tio (Peter Hansen Tygesen) tocando a fazenda sozinho. 

Apresentando o dia a dia da jovem Kris (Jette Søndergaard), o filme se posiciona como um retrato da vida interiorana que a moça leva seguindo a rotina repetitiva e exigente que a fazenda requer. Religiosamente, seus passos são os mesmos todos os dias da semana, com rotativamente somente da atividade que será feita naquele dia. Responsável pelos cuidados do tio, da fazenda e da casa, Kris é rigorosa não só com relação aquilo que faz de atividade prática, mas também na forma como rege sua vida, seja nos âmbitos emocionais ou racionais. 

Com os mínimos detalhes sendo antecipados, Kris não sabe lidar com a imprevisibilidade de uma vida já que isso não faz parte de sua realidade. Com horário para acordar e dormir, o mais inesperado que ocorre é definido pelas regras da própria fazenda, como por exemplo o nascimento de um novo animal. Seu contato com a vocação que havia escolhido para seguir no passado é limitada pelas experiências práticas que a moça possui no lugar que vive com seu tio. Mas os estudos teóricos não é algo que a moça pensa na conjuntura que se encontra. 

Quando se depara novamente com uma oportunidade de seguir a carreira, que a muito tempo abandonou em seu pensamento, Kris se vê desnorteada ao ter o poder de escolha pela primeira vez na vida. Sem estar acostumada a escolher, somente a seguir, a vida da moça é ainda abarcada por uma série de novas experiências que a colocam na curva após uma série de caminhos retos. 

A construção de Uncle é intimamente ligada ao que se passa com Kris. Lúcido de si, porém tranquilo e sem movimentos bruscos, o filme é a representação macro do que se passa dentro da personagem. Lentamente, quase arrastando, aprendemos que a vida de Kris caminha assim como o filme. Quando nos acostumamos com a forma como o filme funciona e com o jeito quieto e passivo de Kris, o longa se torna claro e objetivo em sua proposta, e é devido a isso que as novas experiências que acometem a jovem se tornam tão palpáveis e interessantes. 

Por menores que sejam os novos acontecimentos, os eventos ganham uma grande proporção devido a antiga vida que ela levava no marasmo da rotina. A personagem que antes possuía um mundo certo mesmo que não trouxesse felicidade o suficiente, te trazia conforto, e arrebatada com as decisões que precisa tomar, cada passo de Kris se torna um grande respiro em busca de fôlego. Dividida entre a culpa de deixar o tio e a incerteza de embarcar num curso de medicina veterinária em uma faculdade em Compenhage, a vida de Kris nunca foi antes tão movimentada. 

Com um dos finais mais curiosos porém satisfatórios do VIFF, Uncle termina assim como começa. Não sabemos qual a decisão a moça poderá tomar, mas sentimos as mudanças que já ocorreram em sua vida e não podem ser revogadas. As experiências que ela teve, bem como o novo rapaz que conheceu já não podem ser apagados de sua trajetória. Uncle (Onkel) é um empático drama, sensível e delicado com os personagens que possui e que mesmo não fugindo do convencional, ainda é uma bela obra. 

UNCLE | ONKEL
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Summary

Ao se deparar com novos desafios em sua vida, uma jovem precisa refletir acerca do que deseja para o seu futuro em Uncle (Onkel).

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.