Artigo | Maldição da Mansão Bly é belíssima e profunda

Com spoilers de A Maldição da Mansão Bly – confira a crítica desta temporada aqui

O que são fantasmas senão o retorno do passado? Memórias vêm e vão, em forma de alegria ou angústia. São cicatrizes que nos marcam tão profundamente que podem continuar a influenciar o presente e o futuro. Somos guiados por nossas histórias e cada indivíduo tem uma chave. Os afetos, os sentimentos, são o código que direciona o tom das nossas vidas. A Maldição da Mansão Bly explora, de maneira perspicaz e intensa, a inevitabilidade do tempo. Ao contrário de sua predecessora (A Maldição da Residência Hill), esta antologia transporta o terror a um nível sofisticado e íntimo. 

Dani aceita um trabalho como babá de dois irmãos, Flora e Miles, no interior de Londres, em Bly. À princípio, a tarefa parece inofensiva, mas aos poucos, a casa torna-se estranha e seus moradores, sinistros. Desde o início, percebemos que a au pair possui seu próprio fantasma, fruto de um trauma do passado. 

Nesta temporada, o foco está totalmente nos personagens e suas narrativas. Mike Flanagan deixa o clássico terror, com sustos e criaturas assustadoras, em segundo plano. O que assusta aqui é a passagem do tempo e sua finitude inabalável. Apesar de um início lento, ouso dizer que esta é uma das séries mais poderosas do ano ao falar sobre perda, saudade, culpa e luto. 

A Maldição da Mansão Bly – 2020 (Netflix)

O já batido clássico “A Volta do Parafuso”, de Henry James, assume uma roupagem diferente e bem mais atrativa. Trata-se de um terror poético, com visual gótica, que nos inspira uma introspecção nostálgica e bonita. É interessante perceber como o tempo não é retratado como linear na obra, um traço também trabalhado em Hill House. A história da governanta Hannah Grose nos lembra muito à da Moça do Pescoço Torto. 

A representação do tempo é o forte em Bly Manor, assim como seus habitantes o percebem. Esta melancolia e inquietude do espírito lembra muito a trama do maravilhoso filme Sombras da Vida (2017). O vagar de almas pela dimensão terrestre, assombrados por seus próprios devaneios, e incapazes de descansar. Mais além, quando é o esquecimento que os apavoram e só sobra uma sensação que será vivenciada de novo e de novo, em um ciclo sem fim. Não tem nada mais assustador do que Viola Willoughby percorrendo repetidamente o mesmo caminho à procura de um sentimento que um dia a confortou mas que, ao longo dos anos, transformou-se em um poço gravitacional de sofrimento e tragédia. 

A estética vista na primeira antologia permanece nesta segunda. Cores frias para um ambiente desolador e sombrio e mais quentes e coloridas para um ambiente afetuoso e alegre. Os famosos easter eggs presentes em Hill House continuam em Bly Manor com figuras arrepiantes no fundo das cenas. Destaque para o fantasma de um médico da época da peste negra. 

A Maldição de Bly Manor tem os nomes dos episódios revelados.
A Maldição da Mansão Bly – 2020 (Netflix)

O elenco está maravilhoso e no ponto certo, dado que são os personagens que carregam o enredo. Os atores mirins que vivem Flora e Miles estão incríveis, conseguindo passar uma doçura e, ao mesmo tempo, uma estranheza e maturidade de alguém que guarda um pesado segredo. A Maldição da Mansão Bly é bastante diferente de sua antecessora, mas belíssima. Com certeza, elevou o nível desta produção e aumentou ainda mais as expectativas para uma próxima possível temporada. 

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"