Crítica | A Maldição da Mansão Bly (sem spoilers)

O que são fantasmas? À primeira vista, a aclamada A Maldição da Residência Hill apresentou-nos a criaturas sobrenaturais que pareciam vagar sem propósito pelo espaço e tempo. Um olhar mais demorado, no entanto, posiciona a série em um patamar mais elevado dentro do gênero ao trabalhar metáforas para suas entidades. A natureza humana é mais assustadora que qualquer monstro.  A Maldição da Mansão Bly

Grandes expectativas foram criadas acerca de sua sucessora, A Maldição da Mansão Bly, principalmente por se tratar de mais uma adaptação do clássico “A Volta do Parafuso”, de Henry James (1898). De fato, há algo de diferente entre as duas temporadas, mas a nova leva de episódios não decepciona jamais e, talvez até, eleve o nível de complexidade de seus subtextos. Nesta nova trama, Mike Flanagan coloca o terror em segundo plano, porém o resultado não deixa de ser aterrorizante. 

Dani Clayton (Victoria Pedretti) é uma jovem americana que se muda para Londres e é contratada como babá em uma mansão situada em Bly, interior do país, para cuidar das crianças Flora (Amelie Smith) e Miles (Benjamin Ainsworth). O que, à princípio, parece uma história inofensiva, mostra-se, aos poucos, angustiante. Não há sustos ou seres assustadores, apenas desespero. 

De fato, seu início é lento à medida que somos introduzidos a este novo universo, com novos personagens (apesar de rostos conhecidos) e novas narrativas. É a partir do quarto episódio que há uma mudança significativa em seu ritmo e finalmente entendemos sobre o que é esta história. Com uma estética gótica, A Maldição da Mansão Bly fala do tempo e sua finitude inevitável. Embalada em uma melodia já conhecida por nós que traz uma sensação gritante de melancolia e nostalgia.

Amelie Smith e Victoria Pedretti em “A Maldição da Mansão Bly” – Netflix (2020)

É muito fácil categorizar tudo entre bem e mal quando, na verdade, tal dicotomia não existe. Somos mais complexos que isso, mais profundos que isso. A obra nos traz personagens obscuros e intensos, convidando-nos a refletir sobre nossas vidas pessoais. O tom da série lembra muito, inclusive, a incrível e genial The Leftovers (HBO). O que nos amedronta não são simples espíritos vagando pela Terra e sim o motivo de estarem vagando pela Terra. Suas memórias e seus amores perdidos. 

A Maldição da Mansão Bly não é uma história de fantasma. É uma história de amor. É sobre perda, culpa, saudade e aquele sentimento de desperdiçar os momentos enquanto eles ainda estavam aqui. Não assista a comparando com sua primeira parte, porque passa longe. É assombrosa, mas de um jeito diferente. 

* A Netflix nos cedeu gentilmente os episódios de A Maldição da Mansão Bly para esse texto

A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY
4.5

RESUMO

A Maldição da Mansão Bly não foca no terror, mas é complexa e genial e assusta de uma forma diferente.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"