VIFF 2020 | ‘Caught in the Net’: experimento social explora o contato de predadores sexuais com menores de idade – Crítica

Dirigido por David Schwimmer (Friends), Confiar (2010) é o primeiro filme do querido Ross da famosa série de comédia. No longa acompanhamos uma jovem de 14 anos (Liana Liberato) que após ganhar um computador de presente de aniversário inicia uma amizade com um jovem rapaz numa sala de bate-papo. Entretanto, conforme o contato entre os dois fica mais intenso, a adolescente descobre que o moço não é tão jovem quanto diz e não está interessado em ser somente um amigo. Explorando o que há do outro lado, Caught in the Net é o documentário que estuda, de forma mais aguçada, a forma como homens mais velhos utilizam as redes sociais para se aproveitar de crianças. O documentário foi visto na seção Impacto do Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF).

Caught in the Net é escrito e dirigido por Barbora Chalupová e Vít Klusák. A dupla de diretores escolheu três atrizes maiores de idade (Tereza Těžká, Anežka Pithartová, Sabina Dlouhá) para fingirem ser adolescentes de 12 anos na internet. Através de perfis online criados pela produção do filme em diversos sites como Facebook e Omegle, acompanhamos aqueles que entram em contato com elas: predadores sexuais que tentam seduzi-las, utilizando inclusive, fotos de seus órgãos genitais. 

Caught in the Net tem início com a escalação das atrizes que irão protagonizar o filme. Já durante as audições, ao serem informadas o objetivo do trabalho que poderão participar, as atrizes compartilham histórias que viveram na internet sendo assediadas por homens mais velhos; 19 das 23 entrevistadas relataram esses casos. Assim, tendo uma amostra do submundo que estamos prestes a mergulhar, os próprios diretores afirmam que até então, não sabiam o tamanho do universo que iriam explorar. 

Após a escolha das atrizes, a produção trabalha para criar um cenário extremamente convincente em três quartos de jovens. Um mundo lúdico criado através de fotos de infância, pôsteres de artistas, bonecas, troféus, piano, ursos de pelúcia, livros voltados para o público jovem, esses são alguns dos ornamentos utilizados nas decorações. Enquanto as meninas vestem camisas de pôneis, bonecas, frases românticas, roupas coloridas, penteados como tranças e maria-chiquinha. Com o visual infantil pronto a parte da ficção que cruza com o real no documentário, que também pode ser visto como experimento social, é colocado em prática. Com o objetivo inicial de entender como ocorre a relação do predador com as jovens vítimas nas redes sociais, os diretores contaram ainda com a presença de uma grande equipe profissional como criminalistas, psicólogos, especialistas em segurança online, advogados e investigadores para saber como trabalhar com aquilo que possivelmente iriam se deparar. 

Após o primeiro perfil criado, não somente já havia um grande número de homens mais velhos abrindo conversa no chat, como um deles até ligou para uma das jovens que só tinha em seu perfil poucas fotos e interesses pessoais. Os homens que conversavam com as meninas possuíam sempre o mesmo perfil: homens com mais de 30 anos, sem exceções. Todos chegavam no mesmo ponto, mas através de diferentes armadilhas. Alguns iniciam a conversa tentando ganhar a confiança das meninas, introduzem o assunto do romance, para então partir para a conotação sexual. Ou, já ligam a webcam direcionando à menina o seu próprio órgão genital. Pedir por nudes, implorar para que exiba partes do corpo, oferecer interesse em seu quarto para que ela o mostre e assim poder ver o corpo da menina, soprar que talvez sejam almas gêmeas, dizer que é “muito madura para sua idade”, oferecer pagamento para strip-tease e fotos sensuais, essas são só algumas das grotescas formas que os predadores atacam suas vítimas na tentativa de conseguir qualquer coisa que possa. 

Mas você não se importa se eu tenho somente 12 anos?”, é a pergunta que as garotas fazem sempre que são levadas ao caminho maldoso, entretanto, nenhum deles parece se importar. Muito pelo contrário, é exatamente aquilo que buscam. Enquanto conversam em seus quartos fictícios com os homens pela webcam, a grande produção acompanha tudo do outro lado do set, ouvindo e observando através de grandes telas tudo o que está ocorrendo, indicando perguntas para que as meninas façam e assim consigam explorar  o seu objetivo. 

O documentário que é guiado em uma ascensão de eventos, dos menos surpreendentes aos mais chocantes, apresenta dados horripilantes conforme os temas são adentrados. As informações mostram, de forma ampla, o que as imagens nos apresentam de forma recortada, já que acompanhamos somente três das milhares de meninas que utilizam as redes sociais para se comunicarem e conhecer novas pessoas. Com o objetivo de ser um guia informativo, o documentário segue um roteiro de regras para que a pesquisa feita não sofra grandes alterações apesar da flexibilidade das conversas, como por exemplo as meninas não devem tocar no âmbito sexual e sempre questionar os porquês das propostas dos caras. Dessa forma percebemos que os questionamentos são infinitos, mas que ainda não temos tantas respostas quanto temos tantas vítimas. 

As coisas ficam ainda piores quando Caught in the Net nos questiona o quão distante estamos desses predadores, após um evento no set interferir o processo do experimento e se tornar um caso de denúncia próxima a um dos integrantes da produção. Todos aqueles homens que interagem com as meninas são também, alguém fora do mundo virtual, com famílias, trabalhos e rotinas. Será que eles não colocam outras pessoas em risco além das crianças com quem mantem um contato virtual? 

O filme, que possui fases de procedimentos, ainda utiliza falsos nudes das garotas para ver o que aqueles que receberiam poderia fazer. Ameaças, rebaixamento, agressões virtuais, o abuso psicológico foi o caminho desenvolvido por quem possuía as fotos em mão. Assim como a fragilidade e inocência das jovens foi utilizado, em primeira instância, como forma de aproximação, é utilizada também como forma de exposição da vítima. Quebrando a barreira do virtual e físico, o documentário ainda vai além ao promover encontros públicos – em locais criados pela produção – entre alguns dos predadores e as garotas.  

É interessante observar ainda como, apesar de serem diferentes homens, todos se comportam da mesma maneira com as três atrizes. Falam baixo, olham para os lados durante todo o momento, fazem falsas promessas, ofertas de compras de lingerie, chocolate e tudo mais o que a menina quiser. E é ainda mais interessante pensar em como essas mulheres que já foram crianças um dia, conseguiram manter a performance durante todo o tempo. 

Caught in the Net é um filme audacioso, que possui uma proposta diferente para abordar um tema sério e necessário. Apesar disso não perde a linha entre a ficção e o real, contando com as risadas, choro e caras de nojo quando as atrizes poderem respirar aliviadas após desligarem a ligação. Um experimento social interessante de se ver, mas muito cruel ao pensarmos em grande amplitude quantas  jovens não estão passando por isso nesse exato momento. A internet é uma arma perigosa e facilitadora de muitos males, mas também necessária para que mais trabalhos como esse possam ser feitos e circulados. Interessante saber que o material do documentário foi tanto que, após sua finalização, além de queixas serem prestadas, cópias do filme também foram entregues à polícia para investigação. É dito que alguns dos criminosos já foram reconhecidos. 

CAUGHT IN THE NET
4.5

RESUMO

Atrizes interpretam menores de idade assediadas por homens mais velhos, misturando ficção com realidade, temos contato com o pior da internet em Caught in the Net.

Acompanhe aqui a cobertura completa do VIFF feita pelo Quarta Parede POP

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.