VIFF 2020 | Famílias disfuncionais no subúrbio de Roma protagonizam desastres em ‘Bad Tales’ – Crítica

Em 2018 o drama Dogman, de Matteo Garrone, foi um sucesso nos festivais e na temporada de premiações. O longa que acompanha um funcionário de petshop usando a raiva para torturar um ex-morador de sua rua venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e foi indicado a Melhor Filme de Língua Não Inglesa no BAFTA. Colaboradores no roteiro do longa de Garrone, Damiano D’Innocenzo e Fabio D’Innocenzo também lançaram o seu primeiro filme neste mesmo ano, Garotos Choram (2018), também escrito por eles. Exibido na seção Panorama do 68º Festival de Berlim. O longa premiado pela associação de críticos de cinema italianos segue dois adolescentes moradores dos subúrbios de Roma tendo ascensão social após envolvimento com a máfia local.  Bad Tales

No ano de 2020 os diretores retornam com um drama mais experiente e sagaz que também teve sua estreia no Festival de Berlim deste ano. Bad Tales (Favolacce), coprodução entre Itália e Suíça, acompanha um grupo de famílias que mora no subúrbio de Roma. Com o dia a dia conturbado, um mundo aparentemente normal apodrece silenciosamente com o sadismo dos pais e a raiva de crianças diligentes e desesperadas. O filme foi visto pelo Quarta Parede POP durante o Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF) que vai até o dia 09 de outubro.

O filme, que tem em sua cena inicial um jantar veranil com os moradores do bairro, é marcado pela tensão e cinismo em torno dos adultos da mesa, principalmente o anfitrião (Elio Germano). De forma exacerbadamente petulante, nem as crianças fogem do ego do homem, sendo obrigadas a lerem em voz alta seus gloriosos boletins recheados de 10 com apenas um 9 da filha. A cena inicial é um saboroso aperitivo de tudo o que Bad Tales será capaz de fazer com seus protagonistas. Com os personagens introduzidos, acompanhamos agora a rotina de cada família e seus membros que possui uma vida disfuncional, mas aparentemente perfeita. 

Os pais rígidos e sem escrúpulos são mostrados a partir de uma câmera que desfalca os lados. A comunidade na qual vivem não precisa saber o que ocorre dentro de cada uma das casas. Seguindo suas reações absurdas às ações que ocorrem no seu dia a dia, não há um personagem que se salve do purgatório que o filme reserva para o final. Os filhos, entretanto, que devem aprender a lidar com as situações quando seus pais não se agradam com algo que ocorreu. Disputas de ego, avaria, machismo e covardia são comuns na vida dessas pessoas que dia após dia pensam estar fazendo a coisa certa, mesmo após terem agido de forma errada. 

O longa que venceu o prêmio de Urso de Prata de Melhor Roteiro no Festival de Berlim se assemelha ao excêntrico cinema de Yorgos Lanthimos. Com seus estranhos personagens que, quando não estão apáticos, se encontram a flor da pele, traçando caminhos duvidosos no subúrbio romano através de pensamentos e atitudes que nos leva a pensar que deve haver pessoas do tipo em todos os países, estados e cidades. As crianças, que não possuem bons exemplos, fazem o que podem para fugir de suas casas e rotinas torturantes, mesmo que a fuga seja um tanto extrema.  

Bad Tales (Favolacce, 2020)

Mesmo que o recorte seja feito em Roma, Bad Tales é um ótimo exemplo de como parte da classe média age e pensa a partir de questões simples da vida. O filme não propõe nenhuma situação exacerbada para que eles a confrontem e sim o contrário, situações mínimas que fazem parte do nosso dia. A paisagem suave e tranquila formadas pelas ambientações e fotografia é um grande contraste para o que apresenta. A própria imagem se torna satírica ao inibir o tom sombrio que o roteiro do filme sugere. A náusea pós filme é criada assim, a partir dessa sucessão de fatores que gera não somente o mal estar mas também o claro efeito da falsa segurança, já que protagoniza os piores males ocorrendo em cada uma das casas.

Narrado por Max TortoraBad Tales leva o seu título ao pé da letra. Histórias de famílias ditas “tradicionais”, mas totalmente disfuncionais que acreditam no poder da violência e na coerção através do abuso psicológico. Com crianças suicidas, pais violentos, mães subalternas e vizinhos perigosos, o filme retrata uma série de histórias que as famílias de bem possuem nos interiores de suas casas quando ninguém está olhando. Escrito de uma boa forma trágica, o longa dos irmãos D’Innocenzo possui uma série de arcos que se encaixam e se desenvolvem de forma intrigante, ainda que não surpreendente, devido aos personagens que estamos acompanhando serem capazes de tudo. 

RESUMO
2.5

RESUMO

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Roteiro no Festival de Berlim 2020, Bad Tales, dos irmãos D’Innocenzo, é desconfortável e curioso.

Acompanhe aqui a nossa cobertura completa do Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF) 2020

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.