VIFF 2020 | Willem Dafoe imerge em um mundo entre sonhos e realidade em ‘Siberia’ – Crítica

No cinema, várias parcerias entre atores e cineastas se mostraram de grande valia para a sétima arte. Alfred Hitchcock e Cary Grant, Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, Paul Thomas Anderson e Daniel Da- Lewis entre tantos outros. Entre esses, entretanto, uma parceria antiga que vem se tornando cada vez mais frequente é a existente entre o diretor homenageado no último Festival de Veneza, Abel Ferrara e Willem Dafoe. Juntos, os artistas já fizeram Enigma do Poder (1998), Go Go Tales (2007), 4:44 – O Fim do Mundo (2011), Pasolini (2014), Piazza Vittorio (2017), Tommaso (2019), Sportin Life (2020) e Siberia (2020), filme que esteve no Festival de Berlim no início do ano e que o Quarta Parede POP pôde conferir no Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF). 

No longa, escrito por Ferrara em parceria com Christ Zois (Bem-Vindo a Nova York), Clint (Willem Dafoe) vive e trabalha em uma cabana no meio do nada. De forma confusa, o homem começa a atravessar a linha entre sonho e realidade neste lugar peculiar. Ao ser provocado pelo seu psicológico e subconsciente, ele viaja por mundo de sonhos e pesadelos a fim de se encontrar. Em um mundo mutável, Dafoe viaja em uma onda que parece ser tão estranha para ele quanto para quem o acompanha. Em uma viagem sincronizadamente desordenada, Clint perpassa por entre lugares fechados, ambientes abertos, encontra pessoas do seu passado e se depara com sua própria imagem. Navegando em um mar de imagens criadas a partir de sua memória, que tanto falam dele quanto as próprias palavras podem dizer.  

A cabana na qual vive,  Clint se encontra sozinho, somente com os cães que alimenta. A neve cobre tudo ao redor, e o local é a única fonte de calor que o homem possui. Entretanto, mesmo que as bebidas que sirva ali o aqueçam, é a barriga de uma grávida que ele abraça após a moça entrar na cabana, a fonte mais próxima de conforto que ele pôde encontrar. A partir disso, os  próximos momentos que Clint vive dentro da imensa cabana, que por fora não passa de uma pequena casa, mas enquanto o homem caminha por seus quartos e portas se depara com um universo só seu. Em um caminho sinuoso, soando como uma rua com várias ladeiras, os momentos que Clint vive no filme, não possui nem início nem fim, somente o durante. 

Assim como em Cidade dos Sonhos (2001), não sabemos quando estamos acompanhando algo real ou não. Entretanto, mesmo sem essa resposta, o mundo vivido nos sonhos acaba se tornando também a nossa realidade no filme. As coisas que ouve, aquilo que vê, e as pessoas que encontra ganham significado através do que o homem responde, que, incomodado pelo seu inconsciente, precisa enfrentar fantasmas do passado. Em diversas configurações visuais, o rapaz se confronta com seu pai, ex-mulher, mãe e filho, pessoas essas que conhecemos a partir das recordações de Clint. Ainda há aqueles que aparecem falando em outros idiomas, aparece em cena sem uma localização precisa de quem são, assim como ocorre de fato nos sonhos, podendo ser criação ou não da mente do homem.

Willem Dafoe em ‘Siberia’ (Abel Ferrara, 2020)

Navegando em um mundo orquestrado pelo metal, o filme é uma onda de reconexão de Clint com ele mesmo, em uma performance emersamente profunda de Willem Dafoe. A montagem de Leonardo Daniel Bianchi e Fabio Nunziata flui enquanto Dafoe dança pelas cenas ocupando um por um dos sonhos, pequenos recortes que compõem uma grande vasão de tempo quando estamos imersos com ele. 

Ferrara não busca sentido, busca sensações e sentimentos. Sonhos não fazem sentido quando os temos, mas sentimos a dor, o frio e o amor que emerge daquilo que vivemos enquanto sonhamos. Enquanto Robert Eggers em O Farol (2018) nos leva em uma estrada no qual o sonho e a realidade se confundem a ponto de deixar seus personagens cada vez mais histéricos, em Siberia Ferrara parece fazer o oposto. As cenas confusas são os “finalmentes” para Clint que precisa confrontar os fantasmas que carrega a tanto tempo consigo. E mesmo que não saibamos o que de fato ocorreu com o personagem, já que o objetivo de fato não é este, é prazeroso acompanhar o homem nessa tortuosa e assustadora viagem em si mesmo. 

SIBERIA
3.5

RESUMO

Drama fantasioso dirigido por Abel Ferrara, Siberia, com WIllem Dafoe, se destaca pelo caráter onírico que possui.

Acompanhe aqui a nossa cobertura completa do Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF) 2020

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.