VIFF 2020 | Vencedor em Berlim, drama iraniano ‘There Is No Evil’ critica o serviço militar obrigatório do país e suas consequências – Crítica

Em 2010 o diretor iraniano Mohammad Rasoulof foi detido juntamente com seu colega, o cineasta Jafar Panahi (Isto Não é Um Filme), enquanto trabalhavam em um projeto sobre as eleições presidenciais de 2009 no país. Condenados a seis anos de prisão, essa foi somente uma das vezes que o regime iraniano apareceu na vida de ambos os artistas, não sendo nem a primeira e muito menos a última delas. As sentenças foram reduzidas a um ano, ainda não cumpridas, e enquanto isso ambos os artistas foram proibidos de fazerem filmes. There Is No Evil

Com a política presente em sua vida desde muito cedo, o diretor formado em sociologia pela Shiraz University utiliza o cinema como movimento de resistência e denúncia, abalando assim o país onde mora. O cinema de Rasoulof nunca teve algum de seus filmes exibidos em seu país de origem, as formas que o diretor utiliza para que eles circulem são as janelas como festivais e mostras de cinema. Figurinha conhecida de Cannes, o diretor acumula dois prêmios do festival na mostra Um Certo Olhar com Adeus (Bé omid é didar, 2011), filme que acompanha o tramite de uma jovem advogada iraniana para tirar um visto que a permita deixar o país e A man of integrity (Lerd, 2017), filme sobre corrupção e a injustiça sistêmicas do Irã. 

Fazendo jus ao seu nome e ao que o seu cinema se propõe, com There Is No Evil (Sheytan vojud nadarad) o âmbito político e social não poderia ficar de fora. No longa acompanhamos quatro histórias protagonizadas por homens que precisam cumprir o serviço militar obrigatório, entretanto, em algumas das histórias narradas, os homens são obrigados a praticar ações não condizentes com sua índole. Questionando a moral, os ideais políticos e a lógica de um serviço obrigatório, Rasoulof não mede esforços ao dar vida a histórias que cruzam com a sua, entregando um filme tão intrigante quanto sufocante, que levou para casa o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2020. Desde 2017, o diretor está proibido de deixar o país, portanto não pôde estar no evento, mas foi representado por seu elenco que buscou o troféu para casa. 

Exibido no Festival de Vancouver 2020 (VIFF), a primeira história do longa acompanha um pai de família, que leva uma vida normal com sua mulher e filha, e durante a madrugada executa seu serviço com tranquilidade; na segunda acompanhamos um homem que durante o serviço militar terá que executar prisioneiros, entretanto fará de tudo para escapar do fardo de se tornar um assassino; no terceiro um homem encontra sua amada após dois anos de serviço, entretanto sua chegada ocorre em paralelo ao assassinato de um amigo da família da moça; e na quarta parábola seguimos um médico que vive no campo e precisa contar algo importante a sua sobrinha que chega para visita-lo. 

Mohammad Seddighimehr e Baran Rasoulof em “There is no evil” (Sheytan vojud nadarad, 2020)

Através dessas quatro histórias, Rasoulof tece um fio de enredos ligados pela obrigatoriedade do serviço militar, o que ele exige dos homens no país bem como as consequências carregadas por suas famílias. Um dos deveres de quem enfrenta o serviço é a execução de prisioneiros, prisioneiros esses que são compostos, inclusive, por presos políticos. O não cumprimento do serviço exige a pessoa mais dois anos de tarefa no Irã. Buscando através do seu próprio passado, do qual conseguiu escapar do serviço, Rasoulof reflete os ideais, a moral, e o discernimento ético colocado em questão em cada uma das tramas. Em cada uma das histórias, os personagens possuem uma série de opções a serem seguidas, entretanto, qual será a consequência de cada uma delas? Será que todos se importam de fato com o que fazem? 

Os protagonistas, que se diferem completamente um do outro, possuem idades e princípios diferentes, condizente com aquilo que o mesmo enfrentou em sua trajetória. Enquanto Heshmat (Ehsan Mirhosseini) vive sua rotina tranquilamente para poder dar uma vida digna a sua família, não se preocupando muito com o que faz, somente em sanar as necessidades da casa, Pouya (Kaveh Ahangar) não reflete acerca do seu futuro longínquo, dando atenção ao que terá que fazer logo que é executar o seu primeiro prisioneiro. As duas últimas histórias se coincidem ao relatar um drama familiar, também causados pelo serviço obrigatório. Enquanto na terceira história o drama predomina, a última é guiada pelo suspense. Entretanto, apesar do grande potencial, a história se estende a ponto de transformar o filme em algo cansativo. Podendo ter uns minutos a menos, quando sabemos qual é o grande mistério, a informação já não é tão misteriosa assim tendo em vista que devido ao prolongamento dispensável, a chave é levada como a mais óbvia saída. 

O tom do filme é construído em cena a partir da primeira história. Um enredo a priori sem maiores dramas que cerca a família de Heshmat seria comum até mesmo no cinema de Panahi, mas não no de Rasoulof que tende a ir mais fundo nos quesitos políticos. Aguardar os próximos passos do filme para entender em qual momento o conflito irá imergir é um desafio que nos prende a acompanhar passo a passo dos personagens, entretanto, quando o conflito – moral – é posto em xeque, a história termina. Assim, após a grandiosa introdução, navegamos em histórias que nunca possuem altos e baixos, seguindo uma grande linha reta. Apresentado através de uma fotografia em ambientes usualmente fechados, personagens simplórios, o filme não é um abraço aconchegante, é uma apresentação distante de um grande mundo paralelo que nos questiona a todo o momento qual a melhor saída. 

Com personagens que enfrentam conflitos após a primeira história, o filme acaba traçando uma via de mão dupla. Enquanto sua crítica se torna cada vez mais explícita, apresentando personagens que precisam confrontar suas ações e decidir o que devem fazer conforme sua moral manda, os personagens não se tornam tão importantes quanto aquilo que carregam. O filme tem pouco tempo para se dedicar a cada personagem, o que dificulta ainda mais a relação personagem-público, no final das contas a experiência é guiada pela curiosidade de qual será o desfecho de cada história, e não pelo interesse nos personagens.  

Ehsan Mirhosseini em “There Is No Evil” (Sheytan vojud nadarad (2020)

There Is No Evil pode não ser um filme fácil, porém não é tão marcante quanto as histórias reais que o inspiraram. O diretor transmite tudo de forma séria sem deixar espaço para respiro ou contemplação, mesmo com as mais belas imagens das ambientações do filme, os momentos que temos paisagem sem personagens é somente um minuto a mais de tensão à espera do desfecho, o que funciona melhor com as primeiras histórias do que com a última propriamente dita. Os dramas apresentados pelo diretor é um retrato fiel de sua visão sobre o Irã e como o país se volta contra aqueles que não seguem a sua imposição. Isolam seu povo, torna-os fugitivos a espera de que com as penas, eles cedam, mesmo quando artistas como Rasoulof já provaram o contrário. 

THERE IS NO EVIL | SHEYTAN VOJUD NADARAD
4

RESUMO

Mohammad Rasoulof usa seu arcabouço político para criar um drama em torno de quatro parábolas em There Is No Evil (Sheytan vojud nadarad).

Acompanhe aqui a nossa cobertura completa do Festival Internacional de Vancouver (VIFF) 2020

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.