VIFF 2020 | ‘Here We Are’ explora de forma sensível a relação de pai e filho autista – Crítica

Em pleno século XXI, o cinema ainda possui grande dificuldade em abordar personagens de pessoas com deficiência. São poucos os filmes que conseguiram uma grande visibilidade internacional ao explorar esses personagens, sem resumi-los somente a sua deficiência. Here We Are é uma das poucas exceções dos últimos anos. Com estreia prevista para o Festival de Cannes 2020, evento que foi cancelado devido a pandemia do coronavírus, o filme israelense acompanha um jovem autista e seu pai que enfrenta todos os obstáculos para que eles possam ficar juntos. Confira abaixo o que achamos do filme exibido no Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF).

Indicado a oito prêmios no Ophir Awards (Oscar da Academia de Israel), incluindo Melhor Filme, o longa é dirigido por Nig Bergman e escrito por Dana Idisis. Antes antes do longa, Dana já havia explorado o tema na série On the Spectrum (2018), que acompanha três jovens autistas morando juntos em um flat. Dana, que possui além de interesse, conhecimento e vivência no assunto, tem um irmão com autismo. 

Here We Are nos apresenta Aharon, um artista que, após o nascimento de seu filho autista, dedicou toda sua vida para cuidar dele. Aharon e Uri vivem juntos, seguindo uma rotina estabelecida pelos dois com base nas atividades que podem fazer juntos, longe de tudo e todos. Entretanto, preocupada em um futuro para Uri no qual seu pai possa estar ausente, a mãe do jovem trava uma batalha com Aharon ao decidir encontrar uma casa especializada para que seu filho possa morar. O que deveria ser a separação entre pai e filho, se torna o início de uma grande aventura. 

Interpretado por Shai Avivi (Shivá – Uma Semana e Um Dia), Aharon é um orgulhoso senhor que conduz seu dia a dia com base no conforto e na sinceridade. Em uma casa humilde, faz tudo aquilo que está a seu alcance para que seu filho tenha uma vida digna, mesmo que, as idas e vindas no metrô proporcione olhares tortos daqueles que se espantam com Uri por ele ser diferente. Em nenhuma hipótese o pai mente ou faz promessas a seu filho que não poderá cumprir. Os pequenos passos de Aharon, possuem a companhia de Uri, e é somente aquilo que o senhor visualiza para o futuro de ambos. 

Assim como a conduta de AharonHere We Are é um filme delicado e sensível, traz o conforto, mas também é verdadeiro ao fazer com que o público pense no futuro de Uri. A problemática posta em questão pela mãe do rapaz, que decide procurar um lugar para o filho morar, é algo que atormenta os pensamentos do nosso protagonista, mas também é uma ideia palpável que apesar de não ser concreta no momento, pode vir a ser futuramente. Dessa forma, acompanhamos Aharon e Uri em uma última tentativa de ficarem juntos sem que possam morar separadamente. Um pai super protetor e desesperado, vê na fuga a última possibilidade de livrar seu filho de um mundo que o mesmo julga não estar pronto para ele. A paz e tranquilidade desenvolvida no início do filme, é ainda reforçada pela música calma e alegre que dá ritmo à rotina da dupla.

Here We Are (2020)

A calmaria presente durante toda a primeira parte do longa termina quando o problema é instaurado. Por mais que Aharon e Uri se vejam em um novo contexto, desestabilizados quando retirados do seu habitat natural, o filme demora a perder sua suavidade, isso só ocorre, conforme a dupla se encontra em situações mais difíceis de serem resolvidas. Neste momento, cenas noturnas se tornam frequentes, unindo-se ao desespero e instabilidade dos personagens, abraçando o mistério e o clímax que se aproxima cada vez mais, pois, os problemas do protagonista aumentam. Certo de que Uri deve morar com ele para sempre, Aharon se depara com facetas do filho que até então não conhecia, e que fazem com que o mesmo se questione se sua decisão é a certa a ser tomada.

É durante a viagem que Aharon vê, pela primeira vez, Uri fazendo coisas sem ele, se comunicando e se virando como pode. O filme exploras características de Uri que não tinham encontrado espaço para serem abordadas até então, dando enfoque aos seus sentimentos como alegria, amor, desejo. Here We Are recorta bem o fato de Uri ser, além de uma pessoa autista, um jovem, que como todos os outros, possui suas emoções e vontades. Encorajado pelo seu interior, Uri vai para pista de dança sozinho, se comunica com outro jovem rapaz e ainda tenta contato com um grupo de moças. Os conflitos familiares que já haviam sido iniciados entre pai e filho, ainda se alastram quando Aharon encontra pessoas de seu passado.

A relação de pai e filho no filme, é de fato, o maior destaque. Uri (interpretado por Noah Imber) é um jovem adulto com transtorno do espectro do autismo e devido a algumas características do transtorno, possui dificuldade em entender piadas, em controlar a raiva quando contrariado, e medo de coisas e situações que pessoas sem o autismo dificilmente teria. Aharon se encaixa de forma perfeita ao filho. Após anos de dedicação e cuidado, o pai sabe exatamente o que fazer para acalma-lo e remediar a situação. Entretanto, assim como o problema inicial é instaurado, as personalidades dos dois parecem se encaixar tanto, que ambos quase formam um só. 

Uri não tem noção clara do que gosta e não gosta, sendo necessário perguntar ao seu pai todas as vezes que se encontra na dúvida. Aharon não precisa perguntar ao seu filho o que ele prefere, porque, de forma clara e objetiva, já sabe a resposta. Logo, o drama também explora as questões que envolvem um pai superprotetor e a dificuldade que um filho com deficiência encontra ao não desenvolver o seu eu, não por dificuldade própria, mas por limitações dos outros, que na tentativa de proteger, acaba sufocando. 

Here We Are (2020)

A narrativa que acompanha Aharon e Uri é palpável e levada cada vez mais ao extremo, assim como se torna difícil para Aharon saber qual próximo passo seguir, também fica difícil para o próprio espectador se perguntar qual seria a melhor opção para a situação na qual eles se encontram. Shai Avivi e Noam Imber possuem, além de performances sólidas e extremamente sensíveis, uma conexão genuína, essencial para que todo o resto funcione, principalmente o final do longa que apesar de melancólico, é a saída mais satisfatória para essa delicada jornada.

Acompanhe aqui a cobertura do Festival Internacional de Cinema de Vancouver (VIFF) feita pelo Quarta Parede POP 

HERE WE ARE
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RESUMO

Filme exibido no Festival Internacional de Cinema de Vancouver, Here We Are é um drama israelense delicado e sensível com sólidas interpretações.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.