Crítica | ‘Cobra Kai’ vai além de Karatê Kid e mostra a força dos opostos que se atraem

Contém spoilers das duas primeiras temporadas de Cobra Kai

Fogo contra Fogo: contextualizando Cobra Kai

Cobra Kai (2018) se situa mais de 30 anos após a final do campeonato de karatê de 1984 (epílogo do filme Karatê Kid: a hora da verdade). Johnny Lawrence (William Zabka) ainda não superou aquele dia, sua derrota frente ao seu maior rival do colégio, Daniel LaRusso (Ralph Macchio), pode ser o símbolo de seu fracasso diante da vida. Johnny se tornou um homem atormentado, sem uma carreira profissional estável e vive de bicos. Além disso, abandou seu filho Roby (Tanner Buchanan) e se tornou alcoolista. A série enfatiza a sua dificuldade com a bebida, anoite costuma estar rodeado de garrafas de cerveja, principalmente quando se frustra.

Já Daniel é um empresário no ramo automobilístico bem sucedido e a sua publicidade é embasada diretamente no karatê, com slogans como “chutar a concorrência” e oferecer um bonsai aos seus clientes no ato da compra do carro. Daniel é casado e pai de dois filhos, com uma vida organizada e uma família dos sonhos, sua esposa lhe ajuda nos negócios também. Além disso, é dedicado à família e o maior vendedor de carros da região. Há alguns anos se afastou do karatê, principalmente depois da morte de mestre Miyagi (Pat Morita).

Em compensação, Johnny, em sua vida errante, permaneceu fixado nos anos de 1980. O personagem assiste na televisão somente aos clássicos dessa década, seu contanto com a tecnologia é nulo. Até mesmo o seu carro pertence ao mesmo período e está em péssimo estado, assim como o seu dono. Um dia, após mais uma frustração no trabalho, percebeu que o seu vizinho Miguel (Xolo Maridueña) estava em apuros. Uma turma de valentões do colégio batia covardemente no rapaz. Sem recuar, Johnny salva Miguel e os coloca para correr.

A noite de Johnny não podia ser mais agitada, enquanto bebia no meio fio, um grupo de garotas bateu em seu carro, que estava estacionado, e fugiram. No dia seguinte, precisou ir na concessionária de Daniel para avaliar o estrago. Ao se deparar com o seu antigo rival e com o excesso de bom mocismo dele, uma chama se reascendeu. No passado, não foi apenas o campeonato que Johnny perdeu para Daniel, mas sua namorada também, talvez o grande amor de sua vida, ou alguém que representou os seus dias de glória.

Depois dos últimos acontecimentos, Johnny então decidiu ressuscitar o antigo centro de treinamento que lhe formou no karatê: o Cobra Kai. Ele finalmente percebe que a luta é talvez uma das poucas coisas que fazem sentido em sua vida. Para isso, decide treinar Miguel e o torna o seu primeiro aprendiz. Daniel ao saber disso, tenta sabotar a iniciativa com atitudes nada éticas, entretanto Johnny consegue se sustentar. Alguns episódios depois, Daniel abre o próprio dojo, o Miyagi-dô, pois acredita que é necessário combater a violência da academia rival e oferecer uma doutrina mais pacífica do Karatê. Ao reabrir o dojo, Daniel adota Roby como seu primeiro aluno, o filho de Johnny. Pouco depois, sua filha, a graciosa Samantha (Mary Mouser), junta-se a dupla.

Daniel LaRusso e Jonny Lawrence: dois opostos no início de Cobra Kai (Netflix)

A dialética do bullying em Cobra Kai

Cobra Kai estreou no final do mês passado na Netfilx com duas temporadas, mas foi produzida inicialmente pelo YouTube há 2 anos. Enquanto esteve por lá, permaneceu em um certo anonimato, mas ao chegar à gigante do streaming, se tornou a série mais vista nas primeiras semanas e ainda hoje permanece dentro do Top 10. A terceira temporada deve estrear no primeiro semestre do ano que vem. Os criadores possuem projetos de realizar ao menos cinco temporadas, com a possibilidade de derivados e spin-offs.

A rivalidade de Johnny e Daniel é o grande motor da série, influenciando diretamente a vida de seus familiares e alunos. Os roteiristas conseguiram dosar o toque de nostalgia da antiga trilogia do Karatê Kid com o desenvolvimento de novos personagens e narrativas. Apesar da ausência do saudoso Senhor Miyagi, ele se faz presente, principalmente na tentativa de Daniel em se inspirar nele, desta vez como sensei.

Um dos grandes méritos de Cobra Kai, foi o de retirar o maniqueísmo da antiga trilogia, pode-se notar os personagens lutando pelas suas verdades a partir de motivações válidas. Assim como Johnny acredita ter o direito de recuperar o legado de seu antigo centro de treinamento, pois foi esse estilo de karatê que trouxe algum significado para a sua vida, Daniel, por outro lado, pensa que deve se opor, pois para ele representa o dojo que contribuiu para o bullying que sofreu na escola, durante o ensino médio.

O Cobra Kai já não é mais formado pela turma dos valentões como Johnny foi em outrora. Assim como Miguel, seus amigos e colegas também sofreram perseguições e viram no Karatê uma forma de se defender. A temática do bullying continua em destaque, entretanto explorou-se a inversão de papéis entre agressor e vítima. No início da série, a turma de Miguel era perseguida pelos populares, mas no desenrolar da história, tornaram-se agressivos e dominadores, como os seus agressores. Se o Cobra Kai fornece confiança e poder, um de seus efeitos colaterais é a agressividade excessiva.

Parte da crítica se preocupou em defender Johnny, afirmando que ele na verdade sempre foi a vítima de Daniel. Entretanto, talvez ambos foram vítimas e algozes um do outro. Como diria Sartre: “Tu és metade vítima, metade cúmplice, como qualquer outro”. Ollivier Pourriol em seu livro “Filosofando no Cinema”, faz uma ótima análise do filme Fogo contra Fogo (1995), dirigido por Michael Mann, a partir da dialética hegeliana.

William Zabka e Ralph Macchio em Cobra Kai (Netflix)

Nesse filme, há um constante jogo de gato e rato entre um policial (Al Pacino) e um bandido (Robert De Niro). Apesar de ambos se respeitarem até certo ponto e reconhecerem o valor um do outro, eles sabem que ambos não podem coexistir no mesmo mundo, um precisará aniquilar o outro. Justamente é essa a beleza do filme, a do paradoxo entre os dois adversários. Pois um produz sentido a existência do outro, entretanto só um dos dois pode sobreviver. No fundo, eles são iguais contraditórios, são dois absolutos que não poderiam coexistir por muito tempo, pois um é o avesso do outro.

Ainda que Fogo Contra Fogo retrate uma disputa mortal, a rivalidade de Johnny e Daniel é semelhante com essa dialética, pois um pretende destruir a reputação do outro. Enquanto absolutos, tenderão a lutar incessantemente, a defesa versus o ataque; a doutrina zen contra a agressividade implacável. No decorrer da série, sem se darem conta, um influenciará na filosofia do outro. Johnny passará a questionar mais os valores do Cobra Kai, assim como Daniel não ensinará apenas a autodefesa do Sr. Miyagi.

O que os protagonistas de Cobra Kai não percebem é o mutualismo que os enreda e a contradição de seu complexo relacionamento. No período em que a rivalidade se manteve apagada, ambos estavam distantes do Karatê. Além do reconhecimento recíproco, lutam pelo orgulho, e nessa batalha não existem vítimas.

COBRA KAI – TEMPORADAS 1 E 2
3.5

RESUMO

Passados mais 30 anos, Johnny Lawrence ainda não superou a sua derrota para Daniel LaRusso. Em Cobra Kai, é fogo contra fogo em uma briga sem vilão e herói.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.