Crítica | A estranha origem da enfermeira de ‘Um Estranho no Ninho’ em ‘Ratched’

Quando a Netflix anunciou o lançamento da série Ratched, que tinha como premissa contar a história de origem da misteriosa enfermeira do clássico Um Estranho no Ninho, de 1976, muitos se perguntaram se essa história realmente precisava ser contada, afinal, a personagem, que já é considerada um ícone do Cinema, tem sua figura baseada no mistério que se esconde por trás de sua persona.

Sob a coordenação de Ryan Murphy, também responsável pela icônica série American Horror Story, Ratched apresenta uma jovem Mildred Ratched (Sarah Paulson), que se apresenta para trabalhar como enfermeira no hospital Lucia State Hospital. O que as pessoas não sabem é que ela apenas começou a trabalhar ali para se aproximar de seu irmão, Edmund Tolleson (Finn Wittrock), um assassino responsável pela morte de vários padres.

A partir daí, se inicia uma série de eventos extremamente sanguinolentos, com mortes e torturas sendo realizadas no hospital. E no centro de tudo isso, está a enfermeira, que age de forma manipuladora e com fortes indícios de psicopatia. Talvez seja aí onde moram os problemas da série. O filme dirigido por Milos Forman, que mesmo sendo considerado por muitos, uma obra datada e que não causa os mesmos efeitos nos dias de hoje, apresentava a enfermeira sob uma atuação extremamente minimalista e que funcionava por causa da aura de mistério, o que potencializava as ações mais impactantes quando essas eram aconteciam.

Já em Ratched, a protagonista já é manipuladora desde o primeiro momento, isso sem falar na questão da lobotomia, que no filme foi utilizado como último recurso e dessa forma, atingindo o clímax da obra. Aqui, logo no segundo episódio, ela tem contato com a técnica e já começa a aplicá-la levianamente.

Sarah Paulson em “Ratched” (Netflix)

Com um enredo que mais se assemelha à uma temporada de American Horror Story, Murphy demonstra mais uma vez suas inclinações à histórias que não respeitam a linearidade, o que pode confundir parte da audiência. Com uma paleta de cores bastante saturada e cenas perturbadoras, a obra se afasta muito de sua referência, tornando-se mais carnavalesca, que apesar de agradar os públicos amantes de terror, talvez desagrade os fãs da obra original.

A caracterização funciona perfeitamente, com uma direção de arte impecável. Quanto ao elenco, Sarah Paulson não consegue atingir seu potencial máximo, mas isso se deve aos tropeços do roteiro, uma vez que não há coerência nas atitudes da personagem. Ao invés de mostrar uma evolução, a história nos apresenta uma Ratched que se transforma a cada momento. Se em um momento, ela é manipuladora e fria, sem traços de empatia, no momento seguinte, surge a enfermeira que simpatiza por seus pacientes e se arrisca para ajudá-los.  Se em um momento, ela trata de maneira cruel sua pretendente, no outro, ela morre de amores por ela. Inclusive na interação com a milionária interpretada por Sharon Stone (que mais parece uma caricatura), é completamente controversa, pois em um momento, elas se amam, no outro elas se odeiam e logo mais, estão se amando e odiando novamente.

Ratched tem sim, muitos elementos divertidos e funcionais em sua narrativa, mas é inegável o fato de que está longe de ser perfeita e uma vez que ela tem pouquíssima ligação com a obra original, mais parece um pretexto para os realizadores criarem uma vertente inspirada em Horror Story, com seus acertos, mas principalmente com seus erros.

RATCHED – 1ª TEMPORADA
2.5

RESUMO

Ratched surge como um suspense para explicar a história de origem da enfermeira de Um Estranho no Ninho, mas não atinge todo o seu potencial.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...