Crítica | ‘Little Fires Everywhere’ desmistifica a romantização da maternidade de forma novelesca

Com o crescimento do número de plataformas de streaming, Hulu, Starzplay, Amazon Prime Video e Apple TV +, aumentaram também a quantidade de séries e minisséries lançadas no ano, saldo positivo para quem curte acompanhar essas obras no dia a dia. No ano de 2020, grande foi o número de minisséries americanas que encantaram o público, mas é unânime que, entre vários destaques, uma em especial chamou atenção da crítica e dos aficionados por series: Little Fires Everywhere.

Inspirada no livro de mesmo nome escrito por Celeste Ng em 2017, a minissérie dramática indicada em cinco categorias no Emmy 2020 acompanha duas famílias que vivem nos anos 90 em Shaker Heights, e que, apesar de opostas, são reunidas através de seus filhos. 

Durante os oito episódios acompanhamos a artista Mia Warren (Kerry Washington) que vive com sua filha Pearl (Lexi Underwood). Seguindo uma vida nômade, as duas mudam de cidade rotineiramente, até que decidem passar uns tempos em Shaker Heights, Ohio. Sem muito dinheiro no bolso, Mia precisa arrumar um emprego que ajude a manter o sustento da casa, enquanto Pearl termina o ensino médio. A vida das duas, que parece finalmente ter encontrado um lugar no qual não irão sair tão cedo, muda ao cruzar com a família Richardson. Comandada por Elena (Reese Witherspoon), a família de classe média alta é a típica família americana que segue, a rigor, o “american way of life”. Com quatro filhos (Trip, Lexie, Moody e Izzy) e um marido (Bill) ao seu lado, a vida de Elena parece perfeita, entretanto, a fachada não dura muito tempo. 

A trama engata com o encontro de Mia e Elena, ambas mulheres e mães, que são o completo oposto uma da outra. Dona de sua liberdade Mia é uma mulher negra, guiada por sua arte e sua filha. Entretanto, possui em seu passado um segredo que carrega a anos. A mulher que bate de frente lutando pelo que acredita, possui pensamentos a frente do seu tempo para a época e lugar no qual decidiu viver. Enquanto isso, Elena é o seu verdadeiro oposto. Similar aos personagens interpretados por Witherspoon, a mesma pode ser vista como a mulher branca de classe alta que possui pensamentos e princípios liberais até que eles os afetem de forma pessoal. Exigente e calculista, Elena não mede esforços para conseguir aquilo que deseja. Entre o trabalho de jornalista e dona de casa se desdobra para não deixar com que as coisas e pessoas ao seu redor ultrapassem a linha daquilo que a agrada. 

Reese Witherspoon e Kerry Washington em Little Fires Everywhere (2020)

A minissérie exibida por Hulu e Amazon Prime Video apesar de possuir ainda um grande elenco, é de fato guiada pelas duas protagonistas. Enquanto Kerry Washingtonindicada ao Emmy 2020 por sua performance – utiliza sua desenvoltura e trejeitos para conduzir Mia, Witherspoon sustenta Elena no sarcasmo e falso carisma; ambas as personagens  sãodifíceis de gostar durante a série. A identificação com as personagens é quase imaginária, podendo ocorrer somente a partir de momentos específicos, soa impossível se enxergar nas duas. Entretanto ambas são salvas pela empatia que existe nos momentos de sofrimento. Enquanto acompanhar e apoiar a Mia é mais fácil, Elena tem pouco a seu favor. A excelente performance de Reese ajuda a odiá-la ainda mais, entretanto, quando conhecemos a jovem Elena (interpretada por AnnaSophia Robbentendemos que apesar de tudo, ela é um resultado de múltiplos fatores e que nem sempre foi assim. 

O elenco é formado em parte pelos filhos das protagonistas, personagens esses que irão dar vida as histórias adjacentes que tomam a trama. Pearl, filha de Mia, apesar de ser próxima da mãe possui ideias diferentes de futuro e deseja se firmar em algum para que possa criar laços. Em Shaker Heights cria amizade com Moody (Gavin Lewis), filho do meio de Elena. Moody é irmão dos populares da escola, o bobo jogador de futebol americano Trip (Jordan Elssas) e Lexie (Jade Pettyjohn), uma jovem vista como miss perfeita pela mãe, mas que possui um caráter para além de duvidoso. A série, entretanto, dedica maior tempo a Izzy (Megan Stott), filha mais nova de Elena, que possui um conturbado relacionamento com a mãe, já que a menina não cumpre os requisitos estabelecidos pela matriarca, e encontra em Mia um verdadeiro carinho materno. 

Assim, entre várias histórias entrelaçadas que possui as duas famílias como foco, Little Fires Everywhere se desdobra sobre o assunto da maternidade e questiona ao telespectador o que é, de fato, ser mãe. Durante toda a série acompanhamos a troca de afinidades e farpas que há entre os filhos e suas mães, e também nos outros casos de maternidade explorados pela série como o da melhor amiga de Elena, Linda (Rosemarie DeWitt), que sofreu vários abortos espontâneos, e Bebe (Huang Lu), colega de trabalho de Mia que busca por sua filha perdida. A série recorta o tema da maternidade como o seu verdadeiro foco e não mede esforços ao explora-lo através de todos os seus ângulos.  

Sendo personagens antipáticas, mas ainda assim as mais interessantes da trama, os episódios que se debruçam sobre a juventude de Mia e Elena são os melhores da série. O drama não linear que se passa entre o presente dos anos 90 e volta no tempo a partir da metade da série, leva o público a uma jornada subversiva ao passado das protagonistas para nos mostrar o processo que cada uma passou para se tornar a mãe que é. Viajar no passado de Mia e Elena é, sem dúvidas, um dos destaques da série. AnnaSophia Robb interpreta Elena durante a juventude enquanto Tiffany Boone dá vida a uma jovem Mia. Ambas as atrizes incorporam as manias e trejeitos de suas personagens adultas e oferecem uma interpretação para além de convincente. Ainda novas e fragilizadas pelo que o destino as oferece, essa é de fato a primeira vez que podemos acompanhar as personagens livres de amarras e desnudas pelo que a vida fará com cada uma. 

Tiffany Boone em Little Fires Everywhere (2020)

A sensibilidade e um olhar ainda ingênuo nos mostra o quanto a maternidade é romantizada pela sociedade. As jovens mães são sugadas e levadas ao extremo pela experiência, mesmo que no futuro o amor por seus filhos se sobressaia, não é só de amor que um relacionamento é constituído. A série explora de forma vívida o aspecto do aborto, adoção, e o altruísmo ao abrir mão de criar o seu filho por falta de recursos. De forma delicada e cuidadosa, a série desemboca em seu principal espectro: o que de fato torna uma pessoa mãe de seu filho? Respostas não serão dadas no final da minissérie, mas o turbulento dia a dia familiar e um sério arco no tribunal mostra a quem assiste que o objetivo da série não é somente apresentar o que ocorre entre as duas famílias, mas sim a forma como a maternidade é lida pela sociedade e seus desdobramentos. 

O destaque do elenco de Little Fires Everywhere fica, para além de suas protagonistas em suas versões jovens e adultas, para as atrizes mirins que interpretam respectivamente Izzy (Megan Stott) e Pearl (Lexi Underwood). Ambas, que além de protagonizarem âmbitos delicados da série como orientação sexual e racismo, são as que sofrem as principais consequências diante da maternidade de suas mães, essencial para retratar que a maternidade, além de poder ser um processo muito doloroso para uma mãe, pode ser igualmente doloroso para um filho.  

O grande problema da série é que as suas protagonistas são detestáveis – mesmo que possuam momentos de trégua. É bem difícil continuar a série por elas, tendo em vista que ambas são autoritárias e donas da razão. A série tenta aliviar isso seguindo outros enredos, incluindo os arcos desenvolvidos pelos seus filhos. Entretanto, nenhum é interessante o bastante para guiar o telespectador, e os atores – no geral – não são tão bons quanto suas mães. Assim, o que nos leva a terminar a minissérie é a curiosidade movida pelos mistérios que ela apresenta, principalmente aqueles que envolvem o passado da Mia. 

Tendo em vista que a obra se passa nos anos 90, o seu objetivo é emergir o seu universo para o que ocorria na época. Assim, apesar de se desdobrar de diversas formas sobre a maternidade, a série também inclui em seus arcos outros sérios assuntos que ainda não eram tão evidenciados como atualmente. O racismo vivido em uma cidade pequena do centro-oeste dos Estados Unidos, onde os atos e conquistas de jovens negros são sempre questionados ou apropriados por pessoas brancas; a desconfiança em cima do dinheiro contabilizado por uma mulher que além de ser artista negra é também mãe solteira; a xenofobia no discurso de falsos progressistas que formam majoritariamente a grande população da cidade; e a corrupção por pessoas que se dizem cidadãos de bem. 

Lexi Underwood e Gavin Lewis em Little Fires Everywhere (2020)

Entretanto, com a intenção abordar tanta coisa, a série acaba não se aprofundando em nada. Apesar de ter o destaque na realidade da maternidade, ao tentar abordar inúmeros temas e ainda dar conta dos mistérios apresentados, a série se torna um amontoado de clichês. Little Fires Everywhere é uma minissérie clássica que não se arrisca em seus moldes, mas se sustenta ao apresentar uma trama cheia de mistérios e segredos. Não há personagens perfeitos, muito pelo contrário, apesar da boa performance de suas protagonistas. Os oito episódios limitam a série e não deixam que ela se torne cansativa ou repetitiva. Apesar do grande número de farpas trocadas entre as protagonistas cansar a partir de um momento é a partir deste ponto que a série trilha um caminho de respostas fazendo com o que público se interesse em acompanhar o grande desfecho. 

O final agridoce é o ideal para uma minissérie que em nenhum momento poupa o público da realidade de sua época. No último episódio, Reese Witherspoon dá um show de interpretação, e sua falta no Emmy não tem como passar despercebida. O texto final, que parece ter sido tirado do livro que deu origem a série, casa de forma perfeita com aquilo que a obra se propôs a todo o momento. Não há um respiro de alívio, nem pelas personagens e nem por quem assiste, mas há a esperança de que talvez as coisas possam, após a passagem do caos, ter um recomeço menos doloroso. 

LITTLE FIRES EVERYWHERE
3.5

RESUMO

Com protagonistas detestáveis, Little Fires Everywhere, protagonizado por Reese Witherspoon e Kerri Washington, se apoia em clichês e mistérios para desenvolver uma intrigante história.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.