Crítica | Nas duas temporadas de ‘Succession’, HBO exibe sua mais excitante guerra fria pelo trono

Terminar Succession não foi uma tarefa fácil, pelo menos enquanto não exista uma terceira temporada no catálogo da HBO para que se possa, novamente, submergir no universo da família Roy que, por falta de terapia, excesso de ganancia e sede por poder, nos ofereceram um verdadeiro show de caos em família.  

Criada por Jesse Armstrong e produzida pelos criadores de Vice (2018), a famosa série da HBO vem conquistando o público e a crítica desde 2018, quando foi lançada a sua primeira temporada. Grande vencedora do Globo de Ouro de Melhor Série de Drama e Melhor Ator (Brian Cox), ao longo de dez episódios, com uma hora de duração cada, acompanhamos o poderoso Logan Roy (Brian Cox), dono de um dos maiores impérios americanos, a Waystar Royco, grande empresa que a 50 anos se ocupa dos maiores canais de televisão e entretenimento do mundo. Entretanto todo reinado tem seu fim, e Logan precisa decidir quem será o sucessor do seu grande negócio familiar. Ricos discutindo a todo momento, família em declínio que se escondem atrás de segredos, intrigas e muito sarcasmo: temos aí o entretenimento de qualidade! 

A série que tomou o posto de Game of Thrones no carro chefe da emissora, possui semelhanças com a sua conterrânea que nos traz novamente a uma verdadeira disputa pelo trono, entretanto a atmosfera fria e pálida que Succession carrega não vem da neve como na série medieval. A produção se passa em Nova York, a selva de concreto, cidade cercada por prédios e mais prédios. Se desenvolvendo no edifício da empresa Waystar, que, através dos seus compridos andares e salas divididas com paredes de vidro, permite que os personagens se vejam a todo o momento, só não se enxerguem. 

Fria, ambiciosa e frenética, Succession acompanha os filhos de Logan Roy, o ambicioso Kendall (Jeremy Strong), o irreverente Roman (Kieran Culkin) e a sagaz Shioban (Sarah Snook) na busca pelo concorrido posto. A série traça um jogo político e afetivo em torno dos personagens que, tão diferentes um do outro, precisam mostrar qual deles seria de fato o páreo ao cargo tão sonhado por todos. Criados a base de regras e da rigidez de seu pai, os irmãos se desventuram através do mundo buscando o que for imprescindível para o patriarca, nem que seja necessário sujar as mãos da pior maneira possível. 

O jogo é orquestrado pela trilha sonora do grandioso Nicholas Brittell (Moonlight, Vice), que através de sua melodia marcantemente vigorosa, nos guia pelo requintado e delicado tabuleiro que é Succession. Não há possibilidade de se deparar com a abertura da série sem pensar em qual daqueles pequenos jovens que aparecem em cena (representando os já adultos Roy) será o escolhido no final, não só pela mente inquietante de quem assiste, mas porque a canção nos força isso implicitamente. Não à toa, a música possui diversas roupagens durante a série, em momentos pontuais, que estalam em nossa mente: é hora de jogar. 

Succession (HBO)

Se de fato a música serve de aparato para que a proposta inicial funcione, o jogo em si não existiria sem suas peças. Succession não possui excessos. Se algum personagem entra em cena, é porque se faz necessário alguém como ele. Os protagonistas que apesar de serem da mesma família possuem aspectos que os separam são protagonizados por um cabisbaixo Jeremy Strong – que merecia uma indicação ao Emmy pela primeira temporada e merece vencer pela segunda -, um cínico e engraçado Kieran Culkin e pela elegante Sarah Snook. A inteligência e passividade de Kendall, a veia cômica ácida de Roman juntamente com o jeito sexy e estratégias políticas de Shiv formam a combinação perfeita para uma sucessão de desastres, vexames, tensão, e muita risada frouxa.  

Os três possuem ainda um grande elenco que acrescentam à série os elementos necessários para dosar a pressão que existe entre os quatro protagonistas. O quarto filho bobo que se leva a sério, primogênito Connor (Alan Ruck), a esposa misteriosa Márcia (Hiam Abbass), o jovem primo distante Greg (Nicholas Braun) que juntamente com o desengonçado noivo de Shiv, Tom (Matthew Macfadyen) protagonizam os momentos mais engraçados da série. E a grande equipe de Logan Roy que, de forma esquemática, assim como sua família, está ali a seu serviço, mas desenvolvendo cada um, seu próprio jogo. 

Logan Roy sempre priorizou os negócios na frente da família, mesmo que essa seja também um próprio negócio, somente menos interessante que o seu império. Assim, de forma ambiciosa e cínica, Succession é um conglomerado do que há de pior no mundo: pessoas com sede de poder, que acham que podem comprar tudo, pessoas que usam as outras como marionetes para conseguirem o que querem. Mas não há escapatória, durante anos acompanhamos filmes e séries que utilizam o que há de pior no mundo como inspiração. O que não é de todo ruim, principalmente quando feita da melhor forma possível, uma ácida comédia mesclada a um requintado drama.  

Os seus familiares desenvolvem formas e trajetos de tentarem conseguir a atenção do patriarca, sem nunca também deixar de pensar nos negócios, que é o que de fato importa nessa empreitada. Entretanto, quando há intervenção de terceiros – sejam pessoas, sentimentos, obstáculos – as coisas saem do controle, aqui a série transforma o jogo em circo para que aplaudamos. Os eventos que ocorrem são catástrofes umas piores que as outras, conforme os ânimos se agravam, a direção não nos poupa de nada, sempre dando closes na cara do personagem que se encontra em uma difícil situação.  De fato, nunca participamos propriamente da família, mas somos observadores que sabem e acompanham tudo, e é aqui que a graça se estabelece. Se os sujeitos não discutem ou externam seus pensamentos com alguém, também não sabemos o que ocorre e nos tornamos somente mais um fofoqueiro – entre os milhares da série – que especula o que virá em seguida. Forma essa majestosa de nos deixar tão tensos quanto os personagens.  

Succession (HBO)

A primeira temporada que apresenta os personagens e o que se passa em suas vidas é montada em grandes casas, escritórios, hospital, empresa, eventos, mas todos servindo como um só arquétipo, a sala de negócios. Não há nenhuma locação que não ocorra um negócio. Principalmente, tendo em vista que desde acordos a relação pai e filho são todos negócios que visam lucro, seja ele monetário, status ou informativo. O negócio que é o grande protagonista guiado pela tensão e cinismo. Entretanto, a ácida comédia entra como cereja do bolo, essa sempre destacada pelo personagem de Roman Roy (Kiren Culkin). Roman é de fato um dos trunfos da série que não perde a oportunidade de falar ou fazer algo muito inapropriado que deixa todos tão desconfortáveis que é impossível – para quem está de fora – não rir.

Mas, mesmo que Roman, juntamente com Greg e Tom – que possuem uma parceria improvável, mas divertida de seguir – se esforcem para tirar boas gargalhadas do telespectador, é a ocasião que faz as maiores gafes da série. Escrita de forma lúcida, que soa propositalmente bêbada, Succession é uma cadeia de eventos que nos leva a dizer – enquanto os personagens somente pensam – : “não acredito que isso está acontecendo”. Cruzando narrativas e nos servindo mais momentos de tensão do que constrangimento na segunda temporada, é incrivelmente difícil não pensar como é bom não estar vivenciando o momento no qual o personagem se encontra. 

A segunda temporada coloca nossos protagonistas em eventos ainda maiores, e o cinismo e a veia cômica tão presente na primeira temporada, apesar de ainda existir, demora mais a aparecer, deixando com que a tensão se sobressaia, apertando os personagens em rumos que em algum momento trará terríveis consequências. Não há forma de amar totalmente nenhum daqueles que acompanhamos, todos possuem terríveis defeitos que cobrem qualquer uma de suas qualidades. Mas como estamos acompanhando um jogo a todo momento, esses defeitos são os trunfos que eles utilizam para guia-los até o seu xeque-mate. 

Succession (HBO)

Toda a construção da série é feita de forma única, mesmo que não tenha sido na prática, visualmente os elementos se complementam. Os personagens não poderiam estar em outro lugar se não fossem a grande caixa de vidro que ocupam, as vestimentas formais que utilizam – mesmo quando em ambientes casuais – são o seu uniforme de guerra. A personalidade de cada um é a arma que eles usam para chegar em seu objetivo. 

Succession é excelência em todos os quesitos, entretanto, em algum momento um sucessor será escolhido, e apesar de ainda não sabermos quem será o favorito, a possibilidade de um fim que se aproxima para a caminhada dos Roy é um gosto tão amargo quanto vê-los em seus piores momentos. Enquanto acompanhamos os personagens que se veem em situação deploráveis, que possuem diversas questões não resolvidas e que deveriam – todos, sem exceção – fazer terapia, quem precisará de uma será o público quando o jogo terminar. 

SUCCESSION – TEMPORADAS 1 E 2
4.5

RESUMO

Série indicada nas principais categorias da 72ª edição do Emmy Awards, Succession, da HBO, merece todos os prêmios que levar.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.