Crítica | Pesado, ‘O Diabo de Cada Dia’ une violência, fé e legado

A Netflix divulgou o trailer de O Diabo de Cada Dia, estrelado por Tom Holland e Robert Pattinson.

Em um lugar tomado por corrupção e violência, um jovem (Tom Holland) enfrenta figuras sinistras, incluindo um casal de serial killers e um xerife corrupto,  para proteger quem mais ama. Esta é a sinopse de O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time), novo longa da Netflix que chega ao streaming em 16 de setembro.

O longa é baseado na obra homônima de Donald Ray Pollock. Criado em Knockemstiff, Ohio, o autor utilizou suas experiências pessoais para criar seus contos, até lançar seu primeiro romance, justamente “The Devil All The Time”, aclamado pela crítica em 2011. O tom imersivo do longa é complementado com a narração do próprio autor, que ao invés de se tornar expositiva, complementa a narrativa, unindo a experiência audiovisual e literária.

Dirigido por Antonio Campos (Christine), o filme se beneficia de uma bucólica ambientação para criar uma união sinistra entre fé e violência. Situado na zona rural do sul dos Estados Unidos, o filme elenca uma série de  personagens sombrios, porém envolventes e bem interpretados, indo do pós-Segunda Guerra Mundial até a década de 1960, quando os EUA lutavam no Vietnã. De forma cronológica, com apenas algumas idas e vindas no tempo, o longa se beneficia do que tem de melhor: seu elenco.

O atormentado veterano Willard Russell, vivido pelo brilhante Bill Skarsgard (It: A Coisa), é o primeiro personagem apresentado. Um homem capaz de tudo para salvar sua esposa de uma doença terminal, em nome de Deus e de seu amor. No entanto, é Tom Holland quem protagoniza de maneira competente o longa. E tudo o que Arvin Russell aprende, ainda criança (Michael Banks Repeta) durante os primeiros trinta minutos de projeção, vão influenciar os conflitos morais que envolvem e confrontam fé e as ações violentas, não apenas de Arvin, que se torna uma espécie de vigilante punitivista sem querer, mas de todos os personagens. No entanto, ao ir um pouco mais fundo nas camadas do filme, legado, sensação de pertencimento a um local e a humanização dos personagens conferem ao longa um ingrediente a mais para as duas horas de filme não se tornarem enfadonhas.

O Diabo de Cada Dia (2020) – Netflix

Os personagens possuem uma história de fundo, com erros e acertos – nem todos evidentemente – e a partir de uma humanização interessante, conseguem nos situar através da apresentação de cada um deles em O Diabo de Cada Dia. Diversas são as figuras sinistras: Carl (Jason Clarke) e Sandy Henderson (Riley Keough), um casal de assassinos em série, marido e mulher que nutrem o fetiche bizarro; Roy (Harry Melling), um pregador fanático e seu companheiro deficiente físico, Theodore (Pokey LaFarge); e o xerife corrupto Lee Bodecker (Sebastian Stan, ótimo aqui), que faz tudo para preservar as aparências na cidade.

No âmbito da fé, além dos personagens de Skarsgard e Holland, estão figuras completamente distintas. Robert Pattinson (em mais um interessante papel) dá vida a um novo pastor que chega na cidade e provoca um rebuliço no núcleo familiar de Arvin, enquanto Eliza Scanlen (brilhante no papel) representa o elo mais frágil da fé. Porém, estamos falando de uma fé de aparências, que se utiliza de um genuíno desejo de conexão com Deus das pessoas para benefícios pessoais. O que não deixa de ser uma clara crítica não apenas ao fanatismo, mas ao sistema religioso, mas alerto: o filme não é apenas isso. Muito pelo contrário, a religião é um adereço com vários simbolismos para uma crítica muito maior, que parece envolver até mesmo uma cultura prevalente daquela região, dada a conexão íntima do autor com esses personagens.

No entanto, se a apresentação dos personagens e o tempo de tela dão aos personagens a possibilidade de serem vistos em doses adequadas, algumas situações que o roteiro propõe soam como repetitivas para os mesmos. Seja no âmbito das ações violentas ou que justificam seu status quo, o roteiro de Paulo Campos, irmão do diretor, parece querer reforçar demais que a violência é algo intrínseco a essas pessoas. Portanto, é um filme pesado, mas que depois de um certo tempo, o espectador atento consegue não sentir tanto o peso por causa de algumas ações previsíveis e até mesmo artificiais.

O Diabo de Cada Dia (2020) – Netflix

A trilha sonora de O Diabo de Cada Dia também é um acerto, investindo em canções de época, e como não poderia deixar de ser, no gospel. A produção ainda se beneficia de uma direção de arte que se une com uma fotografia fria e sem esperança, mas que poderia ser auxiliada por movimentos de câmera mais ousadas. A direção parece um pouco estática e burocrática em alguns momentos, mas não desabona o longa, que ganha força justamente nas competentes atuações de seu talentoso elenco e nas temáticas desencontradas, porém relevantes.

O Diabo de Cada Dia em 16 de setembro. A Netflix nos cedeu gentilmente o filme para essa crítica antes de seu lançamento.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...