Festival de Veneza | Dia 9: ‘New Order’ impressiona crítica norte-americana e ‘Run Hide Fight’ estreia com 0% no Rotten Tomatoes

Chegando ao final do festival, os últimos filmes começam a ser exibidos, incluindo, entre eles, os filmes que contemplam a Seção Horizonte voltada para curta-metragem. O destaque do nono dia do Festival de Veneza ficou para o segundo longa exibido na competição, se tornando um dos favoritos da crítica e forte concorrente ao Leão de Ouro: New Order (Nuevo Orden), de Michel Franco. Além dele, também tivemos o maior destaque negativo do festival Run Hide Fight, de Kyle Rankin exibido fora de competição.

Seção Horizonte 

A coprodução entre Cazaquistão e França, Yellow Cat (Zheltaya Koshka), dirigida, editada e escrita por Adilkhan Yerzhanov (A Doce Indiferença do Mundo) em parceria com sua companheira Inna Smailova, tem em seu elenco Azamat Nigmanov, Kamila Nugmanova, Sanjar Madi, Yerzhan Zhamankulov, Yerken Gubashev e Nurbek Mukushev. No filme, o ex-condenado Kermek e sua amada Eva querem deixar para trás suas vidas infestadas de crimes nas estepes do Cazaquistão. Ele tem um sonho: construir um cinema nas montanhas. Entretanto, não se sabe se o amor de Kermek por Alain Delon será forte o suficiente para mantê-los fora das garras violentas da máfia. 

Daniel Gorman do In Review Online afirmou que “Ao longo de Yellow Cat, há uma tensão interessante entre os personagens bobos e breves momentos de extrema violência, mas mesmo isso é minado pela constante subestimação dos atores… É tudo esporadicamente divertido, mas não há muito o que pensar quando o filme se torna repetitivo e previsível. Yerzhanov tem um senso apurado de enquadramento, utilizando totalmente o formato widescreen, e o diretor de fotografia Yerkinbek Ptyraliyev tem um ótimo olho para paisagens lindas e ensolaradas. Mas Yellow Cat é o tipo de filme que não ensina nada sobre a cultura de onde veio – ou realmente nada sobre o comportamento humano real – e tudo sobre os tipos de filmes que seu diretor gosta”.

Nowhere Special, escrito, dirigido e produzido por Uberto Pasolini (Uma Vida Comum) é uma coprodução entre Itália, Romênia e Reino Unido. James Norton, Daniel Lamont, Eileen O’Higgins compõem o elenco. John, um limpador de janelas de 35 anos, dedica sua vida a criar seu filho Michael de 4 anos, já que a mãe da criança os deixou imediatamente após seu nascimento. A vida deles é simples, feita de rituais diários universais, uma vida de total dedicação e amor inocente que revela a força de seu relacionamento. Mas John tem apenas alguns meses de vida. Como não tem família a quem recorrer, vai passar os dias que lhe restam à procura de uma nova e perfeita para adotar Michael, tentando proteger seu filho da terrível realidade. 

De acordo com o Screen Daily: “O filme de Uberto Pasolini toma uma história da vida real como ponto de partida e transforma este minúsculo conto ambientado na Irlanda do Norte em uma experiência quase sensorial. A chave para isso é uma atuação extremamente simpática de James Norton…”. Entretanto, “o principal problema de Nowhere Special surge quando John encontra a combinação perfeita: é claro para o público, para John, Michael, os assistentes sociais e, provavelmente, do espaço sideral, que esta é a casa de Michael. No entanto, Pasolini continua a narrativa sem reconhecimento. O espectador sabe que o jogo acabou, então todos pisam na água até que John ponha sua casa em ordem, aceite o inevitável e Pasolini avance para aquele final agradável que está planejando. É um crédito para todos os envolvidos que, na verdade, é somente OK”.


Seção Horizonte de Curta-metragem

A mostra competitiva de curtas do festival teve início no dia 10 de setembro, com os seguintes filmes:

• O sueco The Night Train (Nattaget), de Jerry Carlsson. Oskar está no trem noturno, voltando para casa após uma entrevista em Estocolmo. Com uma longa noite pela frente, ele faz contato visual com Ahmad. Pela primeira vez ele encontra o olhar de alguém que sente o mesmo desejo que ele.

• A coprodução entre Reino Unido e Portugal The Shift, da montadora que estréia na direção, Laura Carreira. Anna, uma trabalhadora de agência, leva seu cachorro para uma caminhada matinal antes de fazer suas compras. Procurando entre os itens com desconto, Anna vagueia pelo supermercado tentando encontrar o que precisa mais barato. Enquanto suas compras chegam ao caixa, sua agência liga – ela perdeu o turno.

• O suíço The Game (Das Spiel), de Roman Hodel. Um apito. As arquibancadas do estádio ficam barulhentas. Os jogadores protestam com raiva. Os apresentadores acompanham a ação em campo. No meio disso, o árbitro. Todo o estádio o observa, agora ele tem que decidir.

• O colombiano Entre Tú y Milagros, de Mariana Saffon. Aos quinze anos, o mundo de Milagros ainda gira em torno do afeto de sua mãe. Neste verão, um encontro inesperado com a morte a fará questionar o relacionamento deles e sua própria existência.

• O italiano Being My Mom, de Jasmine Trinca protagonizado por Alba Rohrwacher (presente em The Ties, exibido no primeiro dia do festival). É um dia escaldante em uma Roma deserta: mãe e filha estão caminhando sem parar, arrastando uma grande mala. A dupla parece estar se procurando, fugindo uma da outra, invertendo seus papéis naturais. Até que, com um só gesto, a inesperada epifania de seu amor se revela diante delas.

Live in Cloud Cuckoo Land (Mây Nhu’ng Không Mu’a) a coprodução vietnamita e sul coreana de Nghia Vu Minh e Thy Pham Hoàng Minh. Um conto moderno de Kafka no Vietnã – um país no meio de uma transformação. O filme parece uma notícia cultural com acontecimentos diários: um casamento, um congestionamento de trânsito, um assalto, uma metamorfose mística e uma história de amor.

• A produção francesa The Return Tragedy, de Bertrand Mandico. Dois policiais interrompem uma cerimônia secreta: uma mulher é estripada em um jardim dos fundos para liberar sua beleza interior. Uma variedade de situações é oferecida e todas as possibilidades exploradas.


Seleção Oficial e Conferência de Imprensa

And Tomorrow the Entire World (Und Morgen Die Ganze Welt), dirigido e escrito por Julia von Heinz (Então Vou Nessa) juntamente com John Quester. A coprodução da Alemanha e França é protagonizada por Mala Emde, Noah Saavedra, Tonio Schneider, Luisa-Céline Gaffron, Andreas Lust. No longa, a Alemanha é atingida por uma violenta série de ataques terroristas racistas. Luisa, de 20 anos, junta-se a uma subdivisão da Antifa para se opor ao movimento neonazista. Com suas ações imprudentes, ela não só luta contra a extrema direita, mas também tenta impressionar Alfa, uma ativista da Antifa pela qual ela está secretamente apaixonada. Logo, a situação piora e Luisa e seus amigos entram em conflito sobre a questão de se a violência poderia ser uma resposta política legítima ao fascismo e ao ódio. 

“Os espectadores deste título de competição de Veneza provavelmente acharão a confusão ideológica contagiosa e o romance bastante banal. Mas o trabalho de câmera e as escolhas musicais são animados e podem permitir que uma geração mais jovem se relacione e discuta… Um ponto de interesse imediato é o cenário da história em meio a um grupo de ativistas da Antifa, que foram frequentemente chamados pela violência por Donald Trump e palestrantes na convenção republicana.” (via The Hollywood Reporter).

Deborah Young (The Hollywood Reporter) completa: “O filme, no entanto, permanece ambíguo em seu apoio ao grupo, ou partes do grupo, pois os ativistas retratados têm ideias conflitantes sobre o que estão fazendo. Por um lado, estão os pacíficos pintores de bandeiras, que parecem ser a maioria na comuna; por outro lado, há o carismático líder Alfa, levando o grupo a ações cada vez mais violentas: derrotar os policiais, enfrentar uma gangue de neonazistas e assistir bombas explodirem em gloriosa câmera lenta… Embora o filme tenha sido indicado para o Leão Queer de Veneza, há muita reticência em retratar a homossexualidade diretamente…”.

Durante a conferência de imprensa, o elenco e equipe do filme que esteve presente, usou máscaras pretas com nomes escritos. De acordo com a diretora Julia von Heinz, as máscaras traziam nomes de pessoas que, pela cor de sua pele, por suas idéias, foram vítimas da violência neonazista na Alemanha. Na máscara da diretora estava escrito “Silvio Meier, 1992″, Meier foi um ativista da cena alternativa de esquerda em Berlim e em 1992, foi morto por neonazistas na estação de metrô Samariterstraße em Berlin-Friedrichshain. “O filme conta como é querer fazer parte de um grupo e as emoções que você sente quando descobre que não é o que você esperava. Usei minha experiência de ativismo político”, finalizou von Heinz.

Escrito e dirigido por Michel Franco (Depois de Lúcia), New Order (Nuevo Orden), coprodução entre México e França tem em seu elenco Naián González Norvind, Diego Boneta, Mónica Del Carmen, Fernando Cuautle, Darío Yazbek, Eligio Meléndez. Neste drama distópico fascinante e cheio de suspense, um casamento luxuoso da classe alta dá errado em uma revolta inesperada da guerra de classes que dá lugar a um violento golpe de Estado. Visto pelos olhos da simpática jovem noiva e dos servos que trabalham a favor e contra sua rica família, New Order, sem fôlego, traça o colapso de um sistema político enquanto uma substituição mais angustiante surge em seu rastro. 

Para Fionnuala Halligan (Screen Daily), “Franco, exige a atenção do público, lançando um ataque total à nossa zona de conforto coletiva, ao mesmo tempo que reduz o que torna seus filmes inacessíveis para tantos. Assistir ao cinema é, por natureza, um ato de empatia, pois investimos na vida de estranhos fictícios, confiando na narrativa para retribuir nosso compromisso emocional – e ainda, filme após filme, Franco desafia essa suposição. Perversamente, para aqueles que agora esperam isso dele, New Order não decepciona… Muitos não sobreviverão ao filme, rodado por manifestantes nos atos de violência contundentes e muitas vezes sem sentido que se seguem. Como público, normalmente esperamos que as mortes no cinema sejam significativas, ou pelo menos um tanto dignas, mas Franco (que modela muitas de suas escolhas estilísticas no mais austero dos autores, Michael Haneke) nos nega essa satisfação”. 

Naian González Norvind em Nuevo Orden (New Order)

 

Na conferência de imprensa, o diretor Michel Franco, falou sobre como o seu filme se assemelha com a atual realidade: “Comecei a pensar neste filme há 5 anos e terminei de escrevê-lo há 3 anos. Não previa que, na época de seu lançamento nos cinemas, o mundo estaria tão perto da distopia em que se passa”. O ator mexicano Diego Boneta, mais conhecido pela novela mexicana Rebelde, compartilhou sua experiência ao ter o primeiro contato com o roteiro do longa: “Eu imediatamente pensei que New Order foi uma obra-prima. É fácil para nós, atores, mas também para o público, nos identificarmos com os personagens. Eu me perguntei várias vezes se eu agiria como meu personagem: muitas vezes a resposta era positiva”.

In Between Dying (Səpələnmiş Ölümlər Arasinda) escrito, dirigido e editado por Hilal Baydarov (When The Persimmons Grew), tem em seu elenco Orkhan Iskandarli, Rana Asgarova, Huseyn Nasirov, Maryam Naghiyeva, Kamran Huseynov, Samir Abbasov. A coprodução entre Azerbaijão, México e EUA conta a história de amor de Davud, um jovem que tenta encontrar sua família “real”, que completa seu ciclo de vida em um único dia. Quando ele encontra o Amor, é no lugar em que sempre viveu. Mas é tarde demais. 

De acordo com o The Upcoming: “O surrealismo é auxiliado pelo diálogo e pelas dublagens (quase) exageradas. Os anúncios poeticamente dramáticos provavelmente perdem alguma coisa na tradução, e a poesia se aproxima perigosamente da pretensão. É quase sem sentido, mas funciona, assumindo uma qualidade hipnótica que acentua o clima geral do filme… Às vezes desafiador, embora em última análise gratificante, o filme sinuoso do diretor Hilal Baydarov se desenrola quase exclusivamente em planos amplos lânguidos e inertes. As raras ocasiões em que a câmera se aproxima são a única oportunidade de observar as características do protagonista em todos os detalhes”.

O diretor Hilal Baydarov fez emocionante declaração durante a conferência de imprensa: “Comecei a me perguntar quem eu era quando tinha 7 anos. Aos 23 anos, senti uma emoção que nunca havia sentido antes quando assisti meu primeiro filme no cinema. Nesses sentimentos, podemos encontrar nossas raízes”. Seu protagonista Oskan disse: “Trabalhar com Baydarov é uma experiência única. Tem um ritmo próprio e é fundamental, como atores, nos deixarmos levar e construir um diálogo”.


Fora de Competição

Escrito – em parceria com Giorgio Serafini -, dirigido e editado por Giuseppe Pedersoli (A Volta de Trinity), o italiano La Verità su La dolce vita, possui em seu elenco Luigi Petrucci, Mario Sesti. Em 20 de outubro de 1959, o produtor Giuseppe Amato está sozinho em uma sala de exibição, assistindo ao filme mais famoso de Federico Fellini. A impressão de trabalho tem mais de quatro horas de duração. Fellini não permitiu nenhum corte e o distribuidor Angelo Rizzoli quer desistir do filme. É o momento mais difícil da longa carreira de Giuseppe Amato.

“O foco de toda a obra não está em Federico Fellini, cuja obra já se dedicaram infinitas páginas de história do cinema, mas em Giuseppe Amato e na figura do produtor que é um dos poucos a acreditar plenamente no projeto, ainda que com ressalvas, desde a primeira leitura do roteiro. Amato é interpretado pelo brilhante ator napolitano Luigi Petrucci… Sem dúvida, o valor informativo deste docufilm prevalece sobre a estética do produto, apesar da sua forma essencial e funcional…a obra é composta principalmente por material de arquivo. As contribuições para o filme incluem testemunhos de Marcello Mastroianni, Sandra Milo, Bernardo Bertolucci, Giovanna Ralli, Vittorio De Sica e Dino De Laurentiis, para citar alguns. Mas, é definitivamente um título a recomendar aos cinéfilos apaixonados pelo mestre e que, ainda hoje, sessenta anos depois de seu lançamento inicial, estão ansiosos para aprender algo novo sobre um dos filmes italianos mais famosos do mundo.” (via Cineuropa).

Run Hide Fight, escrito e dirigido por Kyle Rankin (Night of the Living Deb) tem em seu elenco Thomas Jane, Radha Mitchell, Isabel May. Zoe Hull, de 17 anos, usa sua inteligência, habilidades de sobrevivência e compaixão para lutar por sua vida, e a de seus colegas de classe, contra um grupo de atiradores de escola ao vivo. O longa, até o momento, possui 0% de aprovação no Rotten Tomatoes – com cinco críticas – e o The Telegraph destaca como o filme é um cópia mal executada de O Cavaleiro das Trevas (2008). 

“O problema com o filme de Kyle Rankin não é que ele trata seu assunto incendiário como forragem de pipoca em si: é que, seja por acidente ou por intuito, ele é escravo de um clássico multiplex moderno extremamente conhecido em particular, que é O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan. Um punhado de fotos foi copiado de outro lugar – Jurassic Park, principalmente – mas no geral, Run Hide Fight está bem e verdadeiramente na escravidão fanboys do filme Batman de 2008 de Nolan, a tal ponto que muitas vezes parece um experimento insanamente de mau gosto”, diz o site.

Isabel May em Run Hide Fight (2020)

“O filme não faz nenhuma tentativa de lidar com o tiroteio na escola americana como um fenômeno cultural niilista, como fez Precisamos Falar Sobre o Kevin de Lynne Ramsay, Elefante de Gus Van Sant e Vox Lux de Brady Corbet. Em vez disso, o objetivo é travessura com equilíbrio… À luz de tudo isso, o desempenho de May parece tão heroico quanto o personagem que ela está interpretando. A atriz de 19 anos tem coragem de mulher de ação resoluta e olhos ardentes de sobra – os filmes de Lawrence nos Jogos Vorazes são uma pedra de toque óbvia, assim como Sigourney Weaver em seus dias de caça ao Alien. Aqui está, sem dúvida, uma jovem cujo futuro parece brilhante. O presente imediato, entretanto?” (via The Telegraph).

Continue acompanhando a cobertura do Festival de Veneza 2020 aqui no Quarta Parede POP.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.