Festival de Veneza | Dia 7: documentário ‘Narciso em Férias’ sobre Caetano Veloso é exibido

Narciso em Férias, documentário sobre a prisão de Caetano Veloso em 1968, será lançado pela Globoplay.

No sétimo dia de Festival de Veneza, as exibições de filmes centrados no Oriente Médio são destaque na seleção oficial. Enquanto que na mostra não competitiva, o brasileiro Narciso em Férias, documentário sobre Caetano Veloso, é exibido, a diretora homenageada do festival Ann Hui, exibe seu novo longa.

Seção Horizonte 

O iraniano Careless Crime (Jenayat-e Bi Deghat) escrito, dirigido e editado por Shahram Mokri (Peixe e Gato) tem em seu elenco Babak Karimi, Razieh Mansouri, Abolfazl Kahani, Mohammad Sareban, Adel Yaraghi e Mahmoud Behraznia. Baseado em fatos, o longa conta a história de quarenta anos atrás.

Durante o levante para derrubar o regime do Xá no Irã, manifestantes atearam fogo nas salas de cinema como forma de mostrar oposição à cultura ocidental. Muitos cinemas foram incendiados. Em um caso trágico, um teatro foi incendiado com quatrocentas pessoas dentro, a maioria das quais queimadas vivas. Quarenta anos se passaram e, no Irã contemporâneo, quatro indivíduos também decidem incendiar um cinema. O alvo pretendido é um teatro que exibe um filme sobre um míssil descoberto e não explodido. 

Para o  site Asian Movie Pulse, o longa, baseado no ataque de 1978 ao Cinema Rex da cidade de Abadan que causou a morte de 473 pessoas, não é uma recontagem de um evento histórico, mas sim uma meditação sobre o poder da narrativa cinematográfica e como você tem que lidar com tal tragédia, seu contexto mais amplo e como ela reflete o Irã moderno. “O roteiro, que foi escrito por Mokri e o co-autor Nasim Ahamdpour, segue uma abordagem não linear, um conceito narrativo arriscado, mas eventualmente bastante interessante, que segue vários incidentes, personagens e grupos, bem como o que é essencialmente um filme dentro de um filme… Careless Crime é um drama desafiador cuja abordagem episódica, às vezes fragmentada, da narrativa resulta em um filme sobre as pessoas que não cuidam umas das outras e as catástrofes que podem se seguir. Definitivamente, este não é um filme fácil de assistir, mas é bastante impactante e deixará o público confuso e irritado”. 

Listen, o filme de estreia de Ana Rocha de Sousa, coprodução entre Reino Unido e Portugal, se passa nos arredores de Londres, onde um casal de portugueses e pais de três filhos, Bela e Jota, lutam para sobreviver. Quando surge um mal-entendido na escola com sua filha surda, os serviços sociais britânicos ficam preocupados com a segurança de seus filhos. O filme retrata a batalha incansável desses pais imigrantes contra a lei para manter sua família unida. Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia, Maisie Sly, James Felner, Kiran Sonia Sawar, Lola & Kiki Weeks, Brian Bovell compõem o elenco. 

De acordo com o The Hollywood Reporter, “embora o roteiro de Rocha de Sousa, Paula Vaccaro e Aaron Brookner tente ser pelo menos um pouco equilibrado, as autoridades obcecadas por regras não saem bem dele. Em grande parte dito através dos olhos da família infeliz, especialmente aqueles do filho surdo do meio (uma Maisie Sly comovente), isso não vai ganhar o endosso de sindicatos de assistentes sociais e profissionais da área tão cedo. Por outro lado, a habilidosa direção de atores de Rocha de Sousa, a cinematografia confusa de Hatti Beanland e a edição arisca de Tomas Baltazar adicionam um toque colorido que tornará este drama social ao estilo Ken Loach um atrativo para programadores de festivais”. 

Careless Crime (2020)

Seleção Oficial 

A coprodução entre Israel e França, Laifa in Haifa, escrito e dirigido por Amos Gitai (Laços Sagrados) tem em seu elenco Maria Zreik, Hana Laszlo, Khawla Ibraheem, Bahira Ablassi, Naama Preis, Tsahi Halevi, Makram J. Khoury.

O longa se passa em uma noite fatídica em um clube na cidade portuária de Haifa e explora as histórias entrelaçadas de cinco mulheres. O filme tem como objetivo apresentar um instantâneo da vida contemporânea em um dos últimos espaços remanescentes onde israelenses e palestinos se reúnem para se relacionar cara a cara. O longa foi recebido de forma negativa pela crítica. De acordo com o site Variety, Laila in Haifa possui muitas boas intenções e interesses sociais, entretanto está entre os filmes mais apáticos de Gitai, que não se sustenta nem mesmo por seu habitual rigor formal.  

O último de Gitai é um caso obscuro, em grande parte impassível […] um pântano de descontentamento… Nenhum desses fragmentos de história se cruzam tanto quanto eles distraidamente roçam uns aos outros em seu caminho para pedir bebidas, enquanto sua ressonância sociopolítica coletiva é mínima… O discurso dos atores parece deliberadamente sem efeito, enquanto até mesmo o ambiente do bar em si é evocado de forma inconsistente: a música vem e vai ao acaso, enquanto a iluminação de Gautier alterna entre um brilho noturno oxidado e esquemas mais planos. Pode-se ver o fascínio do Club Fattoush, mas é difícil não sentir que um documentário, agitado com a humanidade real em vez de estupidamente alegorizada, teria servido melhor ao fascínio de Gitai“. 

Na conferência de imprensa, o diretor declarou: “Não acho que as artes visuais possam mudar a realidade, mas certamente podem ajudar a refletir. Por meio deste filme, queremos transmitir a ideia de que mesmo pequenos gestos podem corroer as hostilidades.”. A atriz Hana Laszlo complementou, “No Haifa pessoas de diferentes contextos vivem em paz há muitos anos. Vivemos juntos sem ódio: é possível”.

Notturno, coprodução entre Itália, França e Alemanha, é falado em árabe e curdo, e tem como responsável pela direção, fotografia e som Gianfranco Rosi (Fogo no Mar). O documentário, filmado durante rês anos no Oriente Médio, nas fronteiras entre Iraque, Curdistão, Síria e Líbano, relata a vida cotidiana que está por trás da contínua tragédia de guerras civis, ditaduras ferozes, invasões e interferências estrangeiras, até o apocalipse assassino do ISIS. Diferentes histórias às quais a narração confere uma unidade que vai além das divisões geográficas. Ao redor e na consciência das pessoas, sinais de violência e destruição; mas em primeiro plano está a humanidade que desperta a cada dia após um “noturno” que parece infinito. Notturno é um filme de luz feito do material sombrio da história. 

O documentário foi recebido de forma positiva pela crítica, que destacou o estilo único de fazer documentários do diretor. De acordo com o Slant Magazine, que concedeu ao filme 3/4, “em vez de nos dar um “mapa” claramente delineado de eventos de uma perspectiva de cima para baixo, Notturno convida os espectadores a montar seu próprio entendimento a partir da filmagem”. Indicado ao Oscar de Melhor Documentário por Fogo no Mar (2016), estando em Veneza, o novo documentário de Rosi começa seu percurso nos grandes festivais de cinema, podendo chegar inclusive à temporada de premiações em 2021. 

Durante a conferência de imprensa o diretor afirmou que sempre baseou seus filmes na transformação da realidade. “Procuro contar minhas histórias através do documentário e do uso rigoroso da linguagem cinematográfica.”. Além disso falou sobre a tentativa de anular as barreiras físicas: “No filme eu quis cancelar geografia, separações, fronteiras e dar importância às histórias universais dos personagens. Eu estava procurando a dimensão humana”.

Laila in Haifa (2020)

Fora de competição 

Os grandes diretores JR (Faces Places) e Alice Rohrwacher (Feliz Como Lázaro) se unem em uma coprodução entre Itália e França para fazer Omelia Contadina. Ales Jusifovski assina o roteiro enquanto Luciano Vergaro, Dario Sforza, Iris Pulvano, Emanuele La Barbera, Elisa Cortese, e os fazendeiros de Altopiano dell’Alfina compõem o elenco. O documentário acompanha uma comunidade agrícola que se reúne em um planalto na fronteira de três regiões para o funeral da agricultura tradicional. De acordo aos diretores, esse é um filme para evitar o desaparecimento de uma cultura milenar. 

Filha de apicultor, a diretora de As Maravilhas (2014) afirmou que no outono passado, contou ao amigo artista JR como estava preocupada com a destruição da paisagem agrícola, que está sendo violada pela proliferação de monoculturas intensivas que cobrem regiões inteiras e como isso cria um grande número de mortes de insetos, desencadeando a luta dos pequenos agricultores para conter essa onda de especulação, subsídios e pesticidas.

“Enquanto olhávamos a paisagem com suas fileiras intermináveis de avelãs, dissemos que parecia um cemitério. Na volta tomamos uma decisão: se parece um cemitério, temos que fazer um funeral. Mas tem que ser um funeral cheio de vida! Assim se originou o projeto de Omelia contadina: um filme com o qual, por meio do nosso trabalho, pudemos apoiar a luta dos pequenos agricultores e moradores do planalto de Alfina. Não apenas um funeral, mas também um hino de esperança dedicado a todos aqueles que nos mantêm vivos dia após dia, produzindo os alimentos que comemos”, declarou Rohrwacher.

O italiano Fuoco Sacro, de Antonio Castaldo tem em seu elenco Nicola Colangelo, Gioacchino Giomi, Cosimo Pulito, Alfio Pini, Natale Inzaghi, Luigi Abate, Sergio Basti, Giuseppe Romano, Ennio Aquilino, Silvano Barberi. O longa foi produzido pela Direção de Prevenção e Segurança Técnica do Corpo de Bombeiros, Istituto Luce CinecittàRai TecheCoEM. O documentário conta a história do Vigili del Fuoco, o corpo de bombeiros italiano, que ao longo meio século de história, enfrentou as maiores calamidades que a Itália tragicamente teve que experimentar em primeira mão. 

Love After Love (Di Yi Lu Xiang) da diretora Ann Hui é baseado no conto Aloeswood Incense: The First Brazier de Eileen Chang (Zhang Ailing). Wang Anyi assina o roteiro e Sandra Ma, Faye Yu, Eddie Peng, Ning Chang, Wei Fan, Isabella Leong compõem o elenco. No filme, Ge Weilong, uma jovem de Xangai, viaja para Hong Kong em busca de seus estudos. Para pagar os estudos, ela pede ajuda à tia, Sra. Liang. A Sra. Liang está levando uma vida sombria e Weilong gradualmente se torna a marionete de sua tia no jogo de atrair os homens ricos e poderosos. Acontece que Weilong fica genuinamente atraída pelo playboy George Qiao, cujo objetivo é se casar com uma garota rica para manter seu próprio estilo de vida de classe alta. 

Love After Love é o terceiro filme da diretora adaptado de um conto de Eileen Chang. De acordo com o Variety, após Love in a Fallen City (1984) e Eighteen Springs (1997), apesar de toda a promessa, a terceira vez representa tristemente uma queda acentuada no charme: “Love After Love segue os movimentos do melodrama clássico e estimulante, mas não as emoções. Esta história de amor não tão envolvente entre dois personagens para os quais é difícil dar atenção, se desenrola em um curioso pano de fundo sem textura, dado o ambiente fascinante de Hong Kong dos anos 1930. É possível, como somos lembrados pelo proeminente “Selo do Dragão” de aprovação da censura chinesa afixado aos títulos do filme, que sensibilidades em torno do status de Hong Kong necessitassem de alguma edição seletiva, mas o tempo de execução arrastado de 140 minutos, sugere que muito foi deixado, ao invés de retirado.” 


Leão de Ouro Honorário

A diretora chinesa Ann Hui, que foi homenageada juntamente com a atriz Tilda Swinton com o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra no 77º Festival Internacional de Cinema de Veneza, não esteva presente no primeiro dia do festival, entretanto,  marcou o evento com sua presença na premiere de seu longa.  A escolha dos prêmios foi feita pelo Conselho de Administração da Bienal de Veneza por recomendação do Diretor do Festival de Cinema de Veneza, Alberto Barbera.

No dia 08 de setembro recebeu o seu prêmio, e ao entregá-lo, Barbera declarou que “a linguagem e a impressão visual de Ann Hui não só foram capazes de compreender os aspectos mais específicos da cidade e a imaginação de Hong Kong , mas eles também foram capazes de traduzi-los em uma perspectiva universal”.

Ao receber o prêmio, Ann Hui destacou a importância do encorajamento que este prêmio dá aos realizadores de Hong Kong, e emocionada o dedicou à sua cidade. “Acima de tudo, gostaria de dedicar esta honra para Hong Kong , a cidade onde cresci e vivi toda a minha vida. Ela me deu uma educação, minhas experiências de vida e minhas chances de encontrar realização… E agora irei para casa e tentarei ajudar os cineastas mais jovens para que eles também recebam prêmios por conquistas da vida no futuro. Vida longa ao cinema!”, finalizou a atriz.

A diretora chinesa Ann Hui recebe o Leão de Ouro Honorário em Veneza

Brasil em Veneza

Exibido para a crítica na terça-feira (07/09), dia que ocorreu a coletiva de imprensa com a equipe do longa, Narciso em Férias – exibido fora de competição – somente foi exibido ao público na quarta (08).

Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, Narciso em Férias é um documentário sobre a prisão de Caetano Veloso, pela Ditadura Militar, em 1968. No dia 27 de dezembro, o músico foi levado de sua casa, em São Paulo, para uma prisão no Rio de Janeiro. No total, Caetano ficou 54 dias em cárcere. Produzido por Paula Lavigne, o documentário teve estreia simultânea no Brasil pela Globoplay. 

Confira a nossa crítica de Narciso em Férias

O Festival de Veneza vai até o dia 12 de setembro, continue acompanhando a cobertura do Quarta Parede POP.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.