Festival de Veneza | Dia 6: Estreia de Regina King na direção em ‘One Night in Miami’ desponta rumo ao Oscar

O sexto dia do Festival de Veneza foi marcado pela exibição dos mais variados documentários, dois deles dirigidos pelo italiano Luca Guadagnino  (Me Chame Pelo Seu Nome), além da grande estreia da atriz Regina King, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Se a Rua Beale Falasse (2018), na direção.

Na competição oficial, as performances dos protagonistas foram o principal destaque. Julia Vysotskaya elogiada em Dear Comrades! se une a Jasna Djuricic (Quo Vadis, Aida?) e Vanessa Kirby (Pieces of a Woman) na disputa pelo prêmio de interpretação feminina, enquanto Alec Utgoff (Never Gonna Snow Again) teve interpretação masculina mais elogiada na seleção oficial do Festival até o momento.


Seção Horizonte 

O filme que abriu a mostra no dia 07/09 foi Night of the Kings (La Nuit des Rois), roteirizado e dirigido por Philippe Lacôte, diretor que teve sua estreia no Festival de Cannes em 2014 com Run na mostra Un Certain Regard. Seu segundo longa é uma coprodução entre Costa do Marfim, França e Canadá é protagonizada por Koné Bakary, Steve Tientcheu, Rasmané Ouédraogo, Issaka Sawadogo, Digbeu Jean Cyrille, Abdoul Karim Konaté, Anzian Marcel, Laetitia Ky, Denis Lavant.  

No longa, um jovem é enviado para “La Maca”, uma prisão no meio da floresta da Costa do Marfim governada por seus internos. Como a tradição segue com o nascer da lua vermelha, ele é designado pelo chefe para ser o novo “romano” e deve contar uma história aos outros prisioneiros. Aprendendo o que o destino o espera, ele começa a narrar a vida mística do lendário fora-da-lei chamado “Rei Zama” e não tem escolha a não ser fazer sua história durar até o amanhecer. 

Para o Screen Daily, “o segundo longa dramático de Philippe Lacote… é rico, estranho, um filme africano no qual a prisão MACA, com suas regras e rituais, é reinventada como um microcosmo da sociedade, política, história e cultura marfinenses, e um filme cujo diretor se torna uma espécie de coreógrafo de energias underground e narrativas enterradas. […] o filme compartilha certos temas e métodos com Atlantique (2019) aclamado pela crítica de Mati Diop, na maneira como aproveita o sobrenatural a serviço de um filme sobre os problemas atuais de uma sociedade africana e suas linhas de fratura”. 

A coprodução entre Itália e Suiça, Guerra e Pace, é dirigido por Martina Parenti e Massimo D’Anolfi, que também assina a fotografia, edição, trilha e som. O documentário analisa a história da relação entre o cinema e a guerra, que dura mais de um século, desde o primeiro encontro, em 1911, por ocasião da invasão italiana da Líbia, até aos nossos dias. 

“Em mais de duas horas de filme, […] a relação entre cinema e conflitos é aprofundada, através de uma reflexão precisa e multifacetada sobre a representação da guerra e a produção de imagens para contá-lo (e mantê-lo afastado), sobre a essência da história e o valor da memória. Uma vez escolhidos os protagonistas, o foco está na multiplicação de pontos de vista e narrativas, independentes entre si, mas intimamente ligados pelo fio vermelho da guerra: estudados, observados, controlados, fotografados, filmados.” (via revista universitária Il Bo Live).


Competição Oficial 

Vencedor do Emmy pela minissérie A Odisseia (1997), premiado em Cannes por Sibririada (1979), e premiado cinco vezes em Veneza, sendo a última por Ray (2016), o veterano do festival retorna com novo drama de guerra focado na vivência de uma mãe militante protagonizada por sua mulher, a atriz Julia Vysotskaya. O russo Dear Comrades! (Dorogie Tovarish!), de Andrei Konchalovsky, é escrito pelo mesmo em parceria com Elena Kiseleva. Durante a conferência de imprensa o diretor afirmou: “Quando escrevo um roteiro é como se estivesse escrevendo uma sinfonia, como se fosse um músico. Cabe então aos atores interpretar minhas palavras“. Os atores Vladislav Komarov, Andrei Gusev, Yulia Burova, Sergei Erlish completam elenco. 

Baseado em fatos reais, o filme se passa em 1962, na cidade Novocherkassk. Lyudmila (Julia Vysotskaya) é membro do Partido Comunista, comunista ferrenha que lutou durante a Segunda Guerra Mundial pela ideologia de Stalin. Certa de que sua contribuição criará uma sociedade comunista, ela detesta qualquer sentimento anti-soviético. Durante uma greve de trabalhadores na fábrica de eletromotrizes local, Lyudmila testemunhou a manifestação sendo baleada por ordem do governo, visando suprimir greves em massa na URSS. Durante o banho de sangue e o pânico que se seguiu, sua filha desaparece, o que muda a visão de mundo de Lyudmila. Apesar do bloqueio da cidade, das prisões em massa e das tentativas das autoridades de encobrir o massacre, Lyudmila procura sua filha. 

O longa foi bem recebido pela crítica, que destacou o forte âmbito político dos filmes presentes no festival esse ano. “Tomando filmes soviéticos do passado como modelo, embora à primeira vista esta dramatização de uma greve de 1962 em uma fábrica nos EUA possa parecer muito distante dos interesses do público contemporâneo, é surpreendente quanta ressonância o filme tem com as lutas políticas de nosso próprio tempo. Embora não tenha a invenção e a pungência para se tornar outro Guerra Fria (2018), certamente desperta emoção suficiente para agitar a cena do festival. E em um ano em que a competição de Veneza parece voltada para assuntos políticos, pode se provar uma das melhores da safra, com muito crédito devido a Julia Vysotskaya e seu desempenho extraordinariamente emocionante no papel principal. Ela ganhou vários prêmios pelo romance ambientado no Holocausto em 2016, de Konchalovsky, Paraíso, e aqui ela evoca as contradições entre maternidade e ideologia com uma dureza com a qual podemos nos identificar.” (via The Hollywood Reporter).

A coprodução entre Polônia e Alemanha, Never Gonna Snow Again (Śniegu już nigdy nie będzie), escrita e dirigida por Małgorzata Szumowska e Michał Englert (Body), é protagonizada por Alec Utgoff, Maja Ostaszewska, Agata Kulesza, Weronika Rosati, Katarzyna Figura, Andrzej Chyra. No filme, um migrante ucraniano (Alec Utgoff) que trabalha como massagista na Polônia se torna uma figura semelhante a um guru no condomínio fechado onde seus clientes vivem. O filme foi o selecionado pela Polônia para representar o país no Oscar, disputando uma das cinco vagas na premiação de 2021. 

De acordo com Victor Fraga que está cobrindo o Festival de Veneza para o Dirty Movies, “Never Gonna Snow Again é um filme altamente elíptico. É uma coleção de alegorias, algumas perfeitamente inteligíveis, algumas profundamente pessoais e discutíveis para interpretação… A cinematografia também é memorável. Paisagens urbanas misteriosas são misturadas com florestas escuras. O bairro de classe alta onde vivem os clientes de Zenya é saído de um filme de terror ou ficção científica: um bairro inteiro feito de mansões áridas, sem alma, quase idênticas, enormes em estilo colonial americano. No geral, uma experiência hipnótica e fascinante. Sexy e assustador em igual medida. Assim como seu protagonista”. 

Em um ano com fortes performances femininas, favoritas para a prêmio de Melhor Atriz, poucas performances masculinas da seleção principal foram comentadas até o momento. Alec Utgoff, entretanto, se tornou um dos mais comentados até o momento como possível vencedor do prêmio de Melhor Ator no festival. Durante a conferência de imprensa o diretor disse que com o filme queria colocar seu foco no estrangeiro, para assim, obter o objetivo contrário: “Queríamos falar de uma comunidade fechada que se incomoda com a chegada de um estrangeiro. A sua presença leva as pessoas a olharem para dentro de si mesmas, a fazerem um balanço da sua vida”.


Fora de Competição 

Luca Guadagnino, diretor de Me Chame Pelo Seu Nome (2017)Suspiria (2018), retorna ao festival fora da competição principal com duas produções italianas: Salvatore – Shoemaker of Dreams e Fiori! Fiori! Fiori!. O primeiro filme de Guadagnino é um documentário narrado por Michael Stuhlbarg (Me Chame Pelo Seu Nome) que conta a história do sapateiro italiano Salvatore Ferragamo, que após navegar de Nápoles para a América em busca de uma vida melhor, se estabeleceu no sul da Califórnia, tornando-se o sapateiro preferido de Hollywood durante a era do cinema mudo.  

O site The Hollywood Reporter, afirma que apesar de ser uma bela homenagem ao estilista de sapatos, o documentário se torna cansativo e repetitivo conforme o número de depoimentos aumenta. “Com duas horas completas, o filme é longo demais e às vezes repetitivo; um aperto adicional antes do lançamento pode melhorar a estrutura um tanto instável do editor Walter Fasano. O interesse de Guadagnino está diretamente nas áreas de estética do design e biografia pessoal, não nos negócios… Felizmente, há material fascinante mais do que suficiente – bem como imagens e fotografias de arquivo – para construir uma narrativa robusta. O filme foi escrito pela jornalista de moda e autora Dana Thomas, mais conhecida por seu livro sobre Alexander McQueen e John Galliano, Gods and Kings“. 

Fiori, Fiori, Fiori!, foi filmado do dia 4 a 10 de maio, durante o bloqueio pandêmico. Luca Guadagnino foi de Milão à Sicília com uma pequena equipe e apenas seu smartphone e tablet, para bater nas portas de seus amigos de infância. Ele queria entender como eles experimentaram este momento único que uniu o mundo inteiro. O documentário é falado em italiano e em inglês. 

Para o Cinecitta News, “Não é uma visão estética em estado de excelência, aquela que se reconhece como própria na obra de Guadagnino, […] mas a beleza está na essência da explosão da natureza primaveril e nos ânimos das pessoas, amigos, que ele escolhe encontrar para tentar investigar como funciona o bloqueio sanitário, o aprisionamento, e para “se acostumar com o caos” da biodiversidade, para desfrutar da explosão espontânea do mundo natural que, por outro lado, nunca deixou de viver… Fiori, Fiori, Fiori!, vem como uma afirmação que multiplica o entusiasmo pela Criação, bem expressa o quanto a Natureza, assim como efeito do bloqueio, tem gozado da ausência humana que não a sufocou e a fez explodir ao máximo, metáfora que para Guadagnino pertence também à busca do presente”. 

O francês Princesse Europe, dirigido e editado por Camille Lotteau é um documentário que se passa durante a campanha para as eleições europeias de 2019. Bernard-Henri Levy se propõe a salvar a Europa viajando pelo continente com uma peça escrita e encenada por ele. O filme segue o implacável defensor da UE pelas estradas de cerca de 20 países interligados. A autoconfiança a preto e branco da personagem BHL sublinha, em contraste, o vestido colorido da Princesa Europa, cujo frágil tecido é tecido de riquezas desigualmente distribuídas, memórias de guerra e promessas de luta.  


One Night in Miami: a estreia de Regina King na direção

Distribuído pela Amazon, um dos filmes mais aguardados do ano também foi exibido na seção, One Night in Miami, primeiro longa dirigido pela atriz Regina King. O filme é baseado na peça de mesmo nome do autor Kemp Powers, responsável pelo roteiro do longa. Após a derrota de Sonny Liston por Cassius Clay (Eli Goree) em 1964, o jovem boxeador se encontra com os amigos Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e Jim Brown (Aldis Hodge) para decidir o curso de sua vida e, possivelmente, da história dos direitos civis. A peça foi baseada em fatos reais, tendo em vista que o encontro de fato ocorreu, entretanto, a conversa do quarteto ficou por conta da imaginação de Powers. 

De acordo com King, o filme é uma carta de amor para a experiência do homem negro na América. “Como mãe de um filho, era importante para mim mostrar ao mundo o que isso significa. E foi uma chance de mostrar esses ícones primeiro como homens e como irmãos. Amigos que podem falar as duras verdades uns aos outros e declarar que o momento de mudar é agora. Essa mensagem de mudança ainda ressoa alto agora através das décadas. Infelizmente, como os recentes assassinatos de George Floyd e Breonna Taylor nos mostraram, nossa luta pela igualdade racial está longe de terminar. Precisamos uns dos outros mais do que nunca, nossas vozes unidas como uma só, impossíveis de ignorar e altas o suficiente para finalmente serem ouvidas.”. 

A recepção do filme no festival não poderia ter sido melhor. Com 100% no rotten tomatoes – 10 críticas até o momento – a crítica especializada aponta o filme de King como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar que surgiu no Festival de Veneza. Os sites The Telegraph e BBC deram ao filme 3/5; The Times e The Guardian deram 4/5; The Playlist deu C+ enquanto o Indie Wire deu A-. 

Apesar das críticas ao filme possuírem conclusões diferentes, tendo em vista que a arte impacta cada crítico de uma forma, é possível pontuar algumas semelhanças que foram apresentadas pelos jornalistas. Grande parte dos textos apontam que o filme é extremamente teatral, o que acabou desagradando o BBC, mas é destacado de forma positiva pelo The Guardian. A discordância continua tendo em vista que alguns preferiram a primeira parte do filme – que foca na vida pessoal de cada uma das figuras centrais antes do seu grande encontro – do que a segunda. Mas isso ocorreu somente com a minoria, já que a maioria dos sites destacam a conversa criada por Kemp Powers como o momento crucial do longa. 

A direção de King foi elogiada por todos, que destacaram o fato dela ter dirigido alguns episódios de séries como Watchmen e o quanto isso a influenciou para que tivesse um trabalho mais maduro em seu primeiro filme. The Playlist e The Hollywood Reporter também destacaram de forma positiva a trilha sonora de Terence Blanchard e a fotografia de Tami Reiker. Entretanto, o grande brilho do filme, destacado de forma unanime, ficou por parte das performances dos atores. Kingsley Ben-Adir, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr., Eli Goree são a alma do filme, cada qual a sua maneira, se destacando através de suas performances – e não imitações, como foi fortemente destacado pela crítica -. Apesar da grande exaltação ao elenco, o destaque ficou sobre o ator Ben-Adir que interpreta Malcom X  e Odom Jr. que vive o cantor Sam Cooke. 

One Night in Miami (2020), de Regina King

Homenagem 

Terence Blanchard, compositor, trompetista, músico de jazz seis vezes vencedor do Grammy, indicado ao Oscar por Infiltrado na Klan (2018), responsável pela trilha sonora de One Night in Miami (2020), Destacamento Blood (2020), a série Perry Mason (2020), Harriet (2019), dentre outras, foi homenageado no dia 07 de setembro com o Prêmio “Paixão pelo Cinema” da Campari. A cerimônia da premiação ocorreu na segunda-feira (07) às 22h, na Sala Grande (Palazzo del Cinema) antes da exibição do novo longa de Regina King. 

De acordo ao site do festival, o prêmio, instituído há dois anos no 75º Festival de Cinema de Veneza, procura evidenciar a notável contribuição dos colaboradores mais próximos do realizador para a concretização do projeto artístico que cada filme representa. Paixão pelo Cinema atribui este prêmio a essas figuras profissionais (há dois anos o prêmio foi concedido ao editor de cinema americano Bob Murawski, no ano passado ao cineasta italiano Luca Bigazzi), que são mais do que artesãos: são artistas e coautores de os filmes aos quais eles oferecem o presente de seu talento incomparável. 

Continue acompanhando no Quarta Parede POP a programação do festival europeu.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.