Festival de Veneza | Dia 10: ‘Nomadland’, de Chloé Zhao, é aclamado pela crítica

No penúltimo dia do Festival de Veneza, foi exibido o último longa da seção competitiva. Nomadland, de Chloé Zhao e protagonizado pela atriz Frances McDormand era um dos filmes mais aguardados do evento, sendo exibido no mesmo dia também no Festival de Toronto. O filme que estreou com 100% de aprovação no rotten tomatoes, promete ser um dos longas com vida longa na temporada de premiações.

Seção Horizonte 

Lav Diaz (A Mulher que se Foi) assina a direção, produção, roteiro, fotografia, edição e música da produção filipina Genus Pan (Lahi, Hayop), com Bart Guingona, DMs Boongaling, Nanding Josef, Hazel Orencio, Joel Saracho, Noel Sto. Domingo no elenco. O filme é uma olhada em como os seres humanos são semelhantes aos animais. Se despedindo de seus empregos em uma mina de ouro, três trabalhadores viajam para sua aldeia natal a pé através da selva espetacular, porém implacável, da mítica ilha de Hugaw. À medida que o tempo passa e suas conversas se intensificam, histórias enterradas emergem e uma sensação de psicose invade a cena. 

Para Joseph Owen (The Up Coming) que deu 3/5 ao longa, Lav Diaz é “um diretor filipino empenhado em retratar as ondulações rurais de sua terra natal, ele apresenta suas ficções como quase etnografia, desafiando os espectadores a extrair a verdade e o significado de seus quadros cuidadosos… Diaz insere ironias suficientes em suas caracterizações para minar as disputas barulhentas de peças de câmara e, subsequentemente, leituras temáticas perfeitas. As protuberâncias da violência perturbaram qualquer morada na pastoral. Incongruências, como uma figura ajoelhada em devotada oração cristã enquanto vestida com uma modesta camisa pólo, salpicam o fluxo contínuo de telas que constituem o filme. Díaz, portanto, torna a vida das criaturas uma mistura semiespontânea de respingos, borrões e manchas, todos contidos na ordem formal da moldura”.

O italiano The Predators (I Predatori), escrito, dirigido e protagonizado por Pietro Castellitto (Prova de Redenção) é protagonizado por Massimo Popolizio, Manuela Mandracchia, Giorgio Montanini, Dario Cassini e Anita Caprioli. Duas famílias aparentemente incompatíveis: a Pavone e a Vismara. Burguês e intelectual a primeira, proletária e fascista a segunda. Facções opostas que compartilham a mesma selva: Roma. Um incidente banal levará os dois pólos à colisão. E a loucura de um homem de 25 anos levará a um confronto que revela que todos têm um segredo e ninguém é o que parece: somos todos predadores. 

Castellitto, ator italiano, faz sua estréia na direção. De acordo com o Cineuropa, “O resultado aponta para a possibilidade de um novo diretor na cena cinematográfica italiana… A intenção de Castellitto é mostrá-los todos como predadores na selva, mas o diretor tenta com mal disfarçada simpatia encontrar a humanidade profundamente enterrada que se esconde dentro de Claudio, apesar de ensinar seu filho de 12 anos a atirar e vender uma quantidade considerável de explosivos para o protagonista Federico por 20.000 euros. O final rebuscado é um aceno de Bad Tales (2020), mas estamos um pouco distantes da pequena obra-prima dos irmãos D’Innocenzo, porque em última análise, The Predators não é uma obra que se leva a sério”.


Seção Horizonte Curta-metragem 

Dando continuidade á mostra que teve início na última quinta-feira (10), os curtas que foram exibidos no dia 11 de setembro foram:

• A produção da Nova Zelândia, Workshop, escrita, dirigida e produzida por Judah Finnigan. No filme, sete jovens adultos chegam a um centro de conferências decadente para participar de uma nova oficina de grupo não convencional. O assunto: aprender a enfrentar os pais. Administrado por um psicólogo amador dominador chamado Jo Pressburger, os participantes passam por uma série de exercícios cada vez mais bizarros, destinados a capacitá-los a desafiar as figuras de autoridade ao seu redor. Mas quando Jo empurra seu ensino um passo longe demais, o grupo é forçado a colocar sua recém-descoberta libertação à prova. 

• A coprodução francesa e italiana Sogni Al Campo, escrita e dirigida por Magda Guidi e Mara Cerri. Um menino procura seu gato ao longo de um rio. Ele não vai encontrar. Ele está prestes a morrer e se afastou de tudo para encontrar intimidade. A criança chega às portas do tempo, onde os mortos desaparecem e os vivos os deixam ir. A criança tem medo, entra em uma floresta de símbolos e memórias. Ele cresce. Suas ilusões de infância se dissolvem e se misturam à paisagem. 

Was wahrscheinlich passiert wäre, wäre ich nicht zuhause geblieben, escrito, dirigido, editado e produzido por Willy Hans é uma produção alemã. Cinco pessoas, uma sala de estar. Lá fora, na rua, os carros pegam fogo, e da cozinha não sai nenhum cheiro gostoso. Só depois de derramado o vinho é que se resolve o problema da matéria escura, e já faz muito tempo que ninguém espera mais comida, aumenta a música. Você precisa sofrer para ser bonita. Cirurgia de boca aberta, o inferno é sempre você mesmo. Na órbita de sempre o mesmo, sempre o semelhante, sempre o outro. Humanos, palavras, coisas. 

• Places (Miegamasis Rajonas), é uma produção lituânia dirigida, escrita, fotografada e editada por Vytautas Katkus. O filme relata a história de dois amigos de infância que estão passando seus últimos dias nos lugares onde cresceram. É assim que tentam adiar a despedida do distrito, que está mudando.  

Anita, roteiro e direção de Sushma Khadepaun, é uma coprodução indiana e americana. No longa, enquanto assistia ao casamento de sua irmã na Índia, Anita é questionada se sua vida na América é melhor do que em sua cidade natal. 

• A coprodução da França, Catar e Argélia, À Fleur de Peau, escrita e dirigida por Meriem Mesraoua. Quando sua mãe a proíbe de roer as unhas, Sarah deve agora obedecer a regras que ela não entende totalmente. Ao recuperar o controle sobre seus movimentos, ela redefine lentamente sua atitude em relação aos outros. 

• O italiano , escrito e dirigido por Luca Ferri. Um homem de meia-idade vê uma série de imagens enciclopédicas da criação do cosmos, das quais a humanidade está ausente, à parte algumas de suas obras e suas ruínas. Embalado para dormir por um spot publicitário, ele afundará em um pesadelo de caçadores árticos com a intenção de matar ursos polares. Nesse ínterim, duas peças de música contemporânea do compositor Agazzi e um texto alusivo a um episódio de suicídio ocorrido na realidade durante a infância do realizador convidam-nos a “escrever uma vez, apagar duas vezes”. 

Observação: todas as sinopses foram tiradas do site do Festival de Veneza.


Seleção Oficial e Conferência de Imprensa

Após muita espera, finalmente chegou o dia da premiere do filme mais aguardado do ano. Presente na lineup dos maiores festivais de cinema (Festival de Cannes, Toronto, New York, Telluride e Veneza), a produção americana Nomadland, escrita, produzida, dirigida, editada por Chloé Zhao (Os Eternos) e protagonizada por Frances McDormand. Após o colapso econômico de uma cidade empresarial na zona rural de Nevada, Fern (McDormand) arruma sua van e sai na estrada explorando uma vida fora da sociedade convencional como uma nômade moderna. Nomadland apresenta as nômades reais Linda May, Swankie e Bob Wells como mentores e companheiros de Fern em sua exploração pela vasta paisagem do oeste americano. David Strathairn completa o elenco. Searchlight Pictures distribui o filme. 

O filme foi exibido nesta sexta-feira (11/09) encerrando as exibições dos filmes que compunham a seleção oficial. Apesar de não possuir, na internet, todas as críticas dos principais veículos que estão cobrindo o festival, o filme já possui 100% de aprovação no rotten tomatoes – com oito críticas até o momento –. O site Financial Times deu ao longa 4/5; Indie Wire e The Playlist deram A-; Uproxx deu 9/10; enquanto os sites Entertainment Weekly, The Guardian e The Telegraph deram nota máxima: A no primeiro caso e 5/5 nos dois últimos. Até o momento, o único longa que concorre ao Leão de Ouro que foi aclamado neste nível pela crítica americana foi o franco-mexicano New Order, de Michel Franco (exibido no nono dia). Enquanto o favorito da crítica italiana segue sendo o italiano Miss Marx, de Susanna Nicchiarelli (exibido no segundo dia).

O filme é inspirado no livro de não-ficção de Jessica Bruder de 2017, Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century, e no líder nômade radical e anticapitalista Bob Wells. McDormand, que possui dois Óscares de Melhor Atriz por Fargo (1996) e Três Anúncios Para um Crime (2017) já é tida pela crítica como uma figura certa na categoria de Melhor Atriz na temporada de premiações. Além de ser, também, uma das favoritas para o prêmio de Interpretação Feminina em Veneza. Suas maiores concorrentes são Jasna Djuricic por Quo Vadis, Aida? (exibido no segundo dia) e Vanessa Kirby por Pieces of a Woman (exibido no quarto dia). Além disso, a direção e roteiro de Chloé Zhao também estão sendo imensamente elogiados. De acordo com os jornalistas, a artista tem inspiração clara em Terrence Malick, mas desdobramentos muito diferente do norte-americano.

Para o IndieWire Nomadland faz malabarismos com um tom complexo: celebra o vasto cenário de uma América esquecida, ao mesmo tempo em que reconhece as tendências ocultas das pessoas que vagam por ela. A partitura melancólica de Ludovico Einaudi entra e sai enquanto o diretor de fotografia Joshua James Richards segue Fern por um cenário externo expansivo enquanto o vazio assume ramificações poéticas. Isso poderia afundar no conceito banal de vida como uma jornada mais do que um destino, mas o roteiro discreto de Zhao (que gira em torno das observações passageiras dos verdadeiros nômades que Fern encontra) resiste à pressão por revelações pesadas.”

Nomadland de Chloé Zhao é um híbrido documental totalmente inspirado, como seu filme anterior The Rider. É um filme gentil, compassivo e questionador sobre a alma americana. Com arte e graça, Zhao envolve não profissionais em uma história imaginária construída em torno de uma mulher de meia-idade alegre, engenhosa, interpretada por Frances McDormand. Este desempenho tranquilo e modesto pode ser o melhor de sua carreira até agora.” afirma Peter Bradshaw (The Guardian).

Frances McDormand em Nomadland (2020)

A equipe do filme não pôde estar no evento, mas participaram da conferência de imprensa virtualmente. Durante a conferência, Frances McDormand compartilhou com a imprensa como foram desenvolvidas as filmagens: “Éramos uma equipe de 25 pessoas, viajamos 5 meses por 7 estados e nos tornamos uma entidade única. Vivíamos em comunidades nômades e muitas vezes nos pegávamos pensando como seria estar no lugar delas”. A diretora e protagonista falaram ainda sobre o processo que passaram durante as filmagens de passar a ouvir mais que falar. “Quando você faz um filme como este, você tem que criar um ecossistema. Tentamos nos apresentar às comunidades desses nômades e ouvimos suas histórias”, disse Zhao. “O mais importante que aprendi durante o filme é ouvir e não falar. Aprender faz parte da vida de um ator. Tratava-se de ouvir histórias de pessoas nômades, não minhas.”, finalizou McDormand.


Fora de Competição 

O documentário americano Crazy, Not Insane de Alex Gibney (Um Táxi Para a Escuridão) conta com as aparições de Dorothy Lewis, Richard Burr, Catherine Yeager, Park Dietz e Bill Hagmaier. A Dra. Dorothy Otnow Lewis, uma psiquiatra que examinou vários assassinos em série, incluindo Ted Bundy, procurou responder uma série de perguntas incluindo “porque o homem mata?”. Seus vídeos de pesquisa, vistos aqui pela primeira vez, mostram evidências de múltiplas personalidades formadas a partir de traumas de infância. O documentário é sobre ela, fascinada pela capacidade humana de crueldade, Lewis é um tipo diferente de detetive de homicídios, menos interessada no que aconteceu do que por quê. 

De acordo com o The Hollywood Reporter o documentário narrada por Laura Dern é “um filme urgente, cheio de detalhes arrepiantes e impulsionado por uma compaixão perspicaz. Depois de devotar décadas para compreender as experiências formativas e a química cerebral de criminosos homicidas, Lewis concluiu que os assassinos são feitos, não nascem. Aqui, o diretor usa uma mistura visualmente dinâmica e expressiva de material novo e de arquivo, filmes caseiros e animação, às vezes evocando estados subliminares. Os mais assustadores são os vídeos de pesquisa de Lewis de pacientes e presidiários. Seu material é inerentemente horrível, e o filme de Gibney aparece de frente em alguns lugares muito sombrios. Mas, por mais perturbador que o filme possa ser, há tanta inteligência iluminadora em ação que nunca parece opressor”.

Paolo Conte, Via con me, o longa italiano escrito e dirigido por Giorgio Verdelli tem seu elenco composto por Paolo Conte, Roberto BenigniVinicio Capossela, Caterina Caselli, Francesco De Gregori, Stefano Bollani, Giorgio Conte, Pupi Avati, Luisa Ranieri, Luca Zingaretti, Renzo Arbore, Paolo Jannacci, Vincenzo Mollica, Isabella Rossellini, Guido Harari, Cristiano Godano, Giovanni Veronesi, Lorenzo Jovanotti, Jane Birkin, Patrice Leconte, Peppe Servillo. O documentário acompanha a vida e obra do cantor e compositor italiano Paolo Conte. 

“Em setembro de 2019, o documentarista entrevistou o reservado advogado e compositor piemontês – multi-instrumentista e intérprete, e um dos maiores músicos do cenário internacional – em seu estúdio em Asti… O resultado é um desvio delicioso, absorvendo a vida musical de um grande talento. É imperdível para os fãs e também pode despertar o interesse de quem não conhece este cavalheiro por excelência, cujo encanto rivaliza com o de Marcello Mastroianni. Apesar da reticência, Conte se abre para o diretor, falando, por exemplo, da vez em que sua mãe chorou ao ouvir Azzurro pela primeira vez, uma canção que transcende o tempo e que aqueceu o coração de todos aqueles que a cantaram em coro na cidade varandas em toda a Itália durante o bloqueio.” (via Cineuropa).

A série da HBO Nórdica 30 Coins (30 monedas) teve seu primeiro episódio exibido no festival. Dirigida por Álex de la Iglesia (The Bar), e escrita por Iglesias em parceria com Jorge Guerricaechevarría, a série possui em seu elenco Eduard Fernández, Megan Montaner, Miguel Ángel Silvestre, Macarena Gómez, Pepón Nieto, Manolo Solo. Bem-vindo a um mundo onde nada é o que parece e ninguém é confiável. Padre Vergara é um exorcista, boxeador e ex-presidiário que foi exilado pela igreja para ser o sacerdote de uma remota cidade da Espanha. Ele quer esquecer e ser esquecido, mas seus inimigos logo o encontrarão. Coisas estranhas começam a acontecer, e uma força-tarefa improvável formada pelo prefeito Paco e a veterinária local Elena busca a verdade, enquanto a realidade é distorcida por uma moeda amaldiçoada que está no centro de uma conspiração global. 

Para Victor Fraga (Dirty Movies), a série serviu como uma boa quebra dos assuntos sérios abordados no festival. “Este é um filme que se baseia em pessoas fantásticas, amuletos da sorte e criaturas grotescas ao invés de dispositivos narrativos coerentes. Talvez os elementos desconexos fechem o círculo nos próximos episódios. Teremos apenas que esperar para ver… Funciona apenas parcialmente como um filme independente, em vez de uma série. Falta a simplicidade urgente do The Bar, que acontece quase inteiramente dentro de um bar sob uma única premissa (que os convidados foram infectados e o local colocado em quarentena à força). Ainda assim, uma pausa refrescante e intransigente da line-up muito séria do Festival”.

Confira o que ocorreu nos outros dias do Festival de Veneza.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.