Crítica | ‘Narciso em Férias’ é uma viagem seca e dolorosa nas memórias de Caetano Veloso

A letra da composição Terra, do canto e compositor baiano Caetano Veloso foi inspirada pelas memórias da primeira vez em que o cantor viu as imagens da Terra vistas do espaço. Dedé Gadelha, sua companheira no ano de 1968, as levou para ele enquanto o mesmo estava preso no Rio de Janeiro. No dia 27 de dezembro Caetano teve sua casa invadida, e foi levado pela polícia militar, de São Paulo até o Rio de Janeiro, onde permaneceu preso por 52 dias, sem saber ao menos o porquê. Narciso em Férias

“Quando eu me encontrava preso 
Na cela de uma cadeia  
Foi que vi pela primeira vez  
As tais fotografias  
Em que apareces inteira  
Porém lá não estavas nua  
E sim coberta de nuvens…  
Terra! Terra!  
Por mais distante  
O errante navegante  
Quem jamais te esqueceria?” 

Na frente de um grande muro cinza, cenário criado para o documentário, Caetano revive as memórias de uma das épocas mais dolorosas de sua vida, época na qual foi preso durante o golpe militar de 1964. Cantor conhecido na época como um dos líderes do movimento da Tropicália, movimento cultural que pregava a contracultura e novas tendências musicais, o cantor foi levado ao cárcere acusado de cantar a letra do hino nacional em ritmo de Tropicália. 

Morando com sua mulher Dedé Gadelha em 1967, o cantor foi preso juntamente com seu amigo e companheiro de arte, Gilberto Gil. Ambos sem saberem o que o esperavam. Foram presos em solitárias, celas completamente fechadas, com janela no alto impossibilitando o contato com o exterior. Durante dois meses, Caetano viveu uma nova vida, vida essa mais parecida com morte, já que o cantor afirma que por um tempo sentiu sua “alma ressequida”. Sem ver gente, sem ler, sem cantar e sem viver, Caetano mergulha em uma época sombria de sua vida em Narciso em Férias. 

O documentário, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, e produzido pela sua atual companheira Paula Lavigne, foi lançado no dia 08 de setembro na 77ª edição do Festival de Veneza na seção Fora de Competição. O filme foi exibido para a crítica no dia 07, mas somente no dia 08 para o público. Caetano e equipe do longa não puderam estar presente no festival devido a pandemia do coronavírus, entretanto, uma conferência online foi feita durante a cerimônia. Com estreia simultânea no Brasil, o documentário foi lançado no país através da plataforma Globoplay. 

Narciso em Férias é um filme extremamente pessoal, que não poderia nunca ter sido feito através de terceiros. Caetano viveu, durantes dois meses, coisas que somente o cantor poderia expressar. O documentário que possui somente o protagonista sentado, com seu violão, em uma cadeira colocada na frente de um fundo cinza possui a exata atmosfera na qual suas memórias guiam o público. O cantor que sempre foi referência da MPB, durante os anos de 1967 e 1968 fazia diversos shows com Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Os Mutantes durante a Tropicália. Movimento que tinha como uma de suas maiores marcas as roupas coloridas e liberdade de expressão. A escolha do muro e roupas cinzas do cantor no documentário não foi uma escolha aleatória. 

Documentário sobre a prisão de Caetano Veloso em 1968 é selecionado para o Festival de Veneza.
Caetano Veloso em “Narciso em Férias” (2020)

Seu mundo perdeu a cor, assim como narrado pelo cantor, que divide neste filme como foi perder o sentido da sua antiga vida e achar que aqueles meses representariam o seu futuro. Caetano, que possuía cabelos grandes cacheados na época como forma de expressar a liberdade, teve seu cabelo todo cortado em corte baixo, como cabelo de militar. No longa ele desabafa o alívio de terem-no levado somente para isso, enquanto acreditava estar sendo levado para a morte. Sua liberdade cultivada a tanto tempo, havia sido retirada, mas esse era o mínimo tendo em vista de que poderiam ter-lhe tirado a vida. 

Doloroso, íntimo e seco, Narciso em Férias não utiliza de muitos artifícios para contar a dura história vivida por um dos maiores artistas do Brasil. Somente Caetano e sua fala, revisitando todo o seu passado. Passado esse que era vivido somente pelo mesmo durante muito tempo e que agora se tornou memória compartilhada pelo público, que, enquanto houve a história do cantor, utiliza da imaginação para recriar os passos de Veloso. Entretanto imaginar não é viver, e se já é não é muito difícil se emocionar somente a partir de uma imaginação, fica ainda mais angustiante ao ver Caetano impossibilitado de falar devido ao choro atravessado na garganta enquanto revive suas memórias. 

Todo o documentário é feito a partir disso e exige de quem assiste a total imersão nas memórias do artista, que compartilha sua intimidade mais dolosa com uma câmera. A câmera, entretanto, passaria despercebida, se não fosse pelas intervenções feitas por uma voz que questiona o cantor com algumas perguntas. A entrada de uma terceira pessoa quebra a imersão e o envolvimento de quem assiste o cantor, o que nos puxa de volta para a realidade, nos lembrando de que estamos assistindo a um documentário, e não ouvindo as memórias de um antigo amigo.  Narciso em Férias

Assim como a não bem vinda intervenção dos diretores, os movimentos da câmera também soam um tanto artificiais. Em alguns momentos do longa, enquanto Caetano demonstra viver momentos de tensão, a câmera da zoom em sua face, tentando causar mais impacto, entretanto todo o impacto do filme já havia sido alcançado somente com o cantor e seu depoimento. O zoom serve somente para lembrarmos, novamente, de que estamos assistindo um filme, e não de que estamos com Caetano de fato.

Narciso em Férias é uma partilha dolorosa da vida de um dos homens mais amados do Brasil, um recorte que nos relembra a época cinza que o país viveu. Impossível não ouvir o peso na voz do cantor e lembrar o que o país vive atualmente, afundada em um governo que exalta o período militar como se fosse os tempos de ouro do Brasil. O documentário possui deslizes bobos, mas que fazem com o que o filme perca toda a carga dramática construída em sua primeira metade. Apesar disso, é uma grande – apesar de triste – oportunidade, poder conhecer um pouco mais da vida pessoal do artista, mesmo que seja através de memórias pungentes. Memórias essas que atualmente, se fazem necessárias para que sempre lembremos o que nunca mais queremos viver. 

NARCISO EM FÉRIAS
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RESUMO

Exibido no Festival de Veneza, Narciso em Férias é um mergulho com os fantasmas do cantor, entretanto somos puxados para a realidade.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.