Festival de Veneza | Dia 5: Na disputa pelo Leão de Ouro, Katherine Waterston e Vanessa Kirby protagonizam romance de Mona Fastvold

Dando continuidade às festividades do Festival de Veneza, no dia 06 de setembro o destaques do evento foi garantido pela estreia do romance LGBTQ+ The World to Come da diretora Mona Fastvold, sendo considerado pela mídia a versão feminina de Brokeback Mountain (2005). Além disso, na seção fora de competição foi exibido o novo filme do diretor Abel Ferrara.

Seção Horizonte 

Foram exibidos os filmes The Third War e Zanka Contact.

O francês The Third War (La Troisième Guerre), de Giovanni Aloi, foi o primeiro filme exibido na seção neste domingo (06/09). Protagonizado por Anthony Bajon, Karim Leklou e Leïla Bekhti, o longa acompanha três soldados da Operação Sentinela que estão em patrulha nas ruas de Paris. À espreita, eles aguardam um perigo iminente, mas invisível. 

De acordo com o site italiano Cinematographe, “Gioavanni Aloi nos conduz a um reino de desespero. A direção de Aloi é absolutamente perfeita em termos de ritmo e estética, em nos guiar nas mentes daqueles soldados que cruzamos no dia a dia, muitas vezes vindos de realidades desfavorecidas e desesperadas, forçados a viver em quartéis muitas vezes desmoronados e escuros, carregados como fontes, mas que nunca conseguem colocar em prática o que aprenderam. Basicamente é como dizer a um cavalo para não correr ou a um pássaro para não voar, e The Third War tem o grande mérito de fazer as pessoas entenderem esse paradoxo, esse conflito psicológico que ocorre 24 horas por dia em soldados e oficiais”.  

O segundo filme da seção foi Zanka Contact, escrito e dirigido por Ismaël el Iraki. A coprodução entre França, Marrocos e Bélgica tem em seu elenco principal Khansa Batma, Ahmed Hammoud, Saïd Bey, Abderrahmane Oubihem, Mourad Zaoui e Fatima Attif. Após um acidente de carro em Casablanca, o roqueiro Larsen e a amazona Rajae se apaixonam. A única esperança para seu romance florescer é saindo da cidade. Para o ‘Romeu e Julieta’ punk, talvez a resposta esteja em uma música – aquela que eles vêm escrevendo e sonhando juntos: Zanka Contact. 

“A primeira obra de Ismaël el Iraki se move entre citações e misturas de gêneros para traçar uma conturbada história de amor marcada por vícios e luta por sobrevivência. El Iraki baseia-se fortemente nos filmes de culto de diretores do calibre de David Lynch, Quentin Tarantino e Sergio Leone para dar forma a uma abordagem contemporânea e muito rock do estilo clássico de Romeu e Julieta que se entrelaça inserindo-o no ambiente criminoso de Casablanca… As questões abordadas não brilham pela originalidade, porém o elenco consegue convencer. Khansa Batma possui a mistura certa de sensualidade, talento vocal e vulnerabilidade, enquanto Ahmed Hammoud mergulha facilmente no papel do “roqueiro amaldiçoado” que não conseguiu manter a fama e popularidade“.

“Zanka Contact faz bom uso do elemento musical e a montagem de Camille Mouton dá um ritmo envolvente aos acontecimentos, enquanto a fotografia assinada por Benjamin Rufi enfatiza visualmente a aspereza dos caminhos e do deserto atravessado pelos protagonistas, além de destacar a paixão e o calor das sequências musicais e os momentos mais emocionantes. Ismael El Iraki certamente atrai a atenção internacional com esta primeira obra cheia de elementos positivos, mas sem brilhar pela originalidade, que poderia ter se destacado positivamente por ter mais coragem para se afastar do rastro dos mestres do cinema e dar espaço à visão pessoal, o que parece muito promissor em vista de trabalhos futuros”. (via BadTaste). 

Zanka Contact (2020)

Competição Oficial e Conferência de Imprensa 

Dois longas da seleção oficial do festival foram exibidos: Sun Children (Khorshid), de Majid Majidi e The World to Come da diretora Mona Fastvold.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Filhos do Paraíso (1999)Majid Majidi escreveu, dirigiu e produziu seu novo longa Sun Children (Khorshid), filme que acompanha Ali, de 12 anos, e seus três amigos. Juntos, eles trabalham duro para sobreviver e sustentar suas famílias, fazendo pequenos trabalhos em uma garagem e cometendo pequenos crimes para ganhar dinheiro rápido. Em uma reviravolta que parece milagrosa, Ali é encarregado de encontrar um tesouro escondido no subsolo. Ele recruta sua gangue, mas primeiro, para ter acesso ao túnel, as crianças devem se matricular na Escola Sun, instituição de caridade que visa educar meninos de rua e crianças trabalhadoras, perto de onde está o tesouro. Ali Nasirian, Javad Ezzati, Tannaz Tabatabaie, Rouhollah Zamani, Seyed Mohammad Mehdi Mousavi Fard, Shamila Shirzad compõem o elenco. 

O site Dirty Movies comenta que o maior destaque do longa é seu protagonista Zamani. “Este bizarro drama iraniano consegue misturar criminosos traficantes de pombos, crianças armadas, refugiados afegãos, uma escola inadimplente e uma caça ao tesouro muito evasiva em menos de 100 minutos. O resultado é uma história muito confusa, com mais buracos do que queijo suíço. No entanto, possui algumas partes saborosas… Sun Children (também conhecido como The Sun) tem uma identidade muito híbrida que eu não conseguia descobrir quem seria seu público-alvo. Parece muito deslocado no coração de um importante festival de cinema europeu, muitas vezes associado a filmes mais artisticamente audaciosos (para adultos)”.

Durante a conferência de imprensa com diretor e elenco, Majidi disse que seu novo trabalho é um filme de denúncia para todas as zonas de guerra, onde as vítimas muitas vezes são as crianças. “A responsabilidade de lhes dar uma identidade e uma educação é de todos, como se fôssemos uma grande família.”. O ator Javad Ezzati também pontuou o sério problema social que é o trabalho de crianças na sociedade. “A infância difícil dessas crianças que trabalham para sobreviver não é novidade para o mundo. Podemos trabalhar para conscientizar essas crianças, para garantir que encontrem seu caminho e seu futuro.”.

Em 2014, Mona Fastvold roteirizou e dirigiu O Sonâmbulo (2014) – com Christopher Abbott no elenco -, após isso trabalhou nos roteiros de A Infância de um Líder (2015) e Vox Lux: O preço da Fama (2018), filmes dirigidos por seu companheiro Brady CorbetEm 2020 a roteirista retorna para a direção e leva à Veneza um dos filmes mais aguardados do festival, o americano The World To Come. Protagonizado por Katherine Waterston, Vanessa Kirby, Christopher Abbott, Casey Affleck e escrito por Ron Hansen e Jim Shepard, o filme é inspirado em livro de mesmo nome do próprio Jim Shepard (2017). No longa, em algum lugar ao longo da fronteira da costa leste americana de meados do século 19, dois casais vizinhos lutam contra as dificuldades e o isolamento, testemunhados por uma paisagem esplêndida, mas desafiadora, que os desafia tanto física quanto psicologicamente. 

Tendo sido bem recebido pela crítica, o filme teve como maior destaque as performances de seus protagonistas. “The World to Come se desdobra em cenas de narração quase constante, que se deve presumir que vem em grande parte do material de origem. A intenção é dar a sensação de que estamos lendo os diários de Abigail (Katherine Waterston), possivelmente encontrados décadas após a morte desses personagens, e descobrindo a história desse encontro profundamente poético e apaixonado na fronteira americana. Waterston carrega o peso do filme como quase todo o é de sua perspectiva, mas os outros três são excelentes também. No final, é um roteiro falho, mas uma peça de atuação notavelmente bem-sucedida, uma plataforma para um quarteto de excelentes atores que interpretaram papéis que poderiam ter sido bidimensionais nas mãos erradas e fizeram esta pequena história parecer tão grande quanto o mundo”. (via Roger Ebert).

Ao falar sobre sua protagonista que viveu em uma época muito diferente dos dias atuais, Katherine Waterston (Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald) afirmou que seu personagem anseia por ter um intercâmbio com o mundo, se conectar com outras pessoas. “É um desejo não apenas de amor à primeira vista, mas de vida à primeira vista.”. Sua colega de elenco, Vanessa Kirby (The Crown) – que protagonizou o aclamado Pieces of a Woman exibido no dia (05/09) no festival – falou sobre a importância da luta travada pelas mulheres do passado para que seu presente seja possível: “Há muitas histórias de mulheres a serem contadas, histórias comuns que se tornam extraordinárias. Devemos valorizar as ações das mulheres do passado que nos permitem, hoje, viver mais livremente“.

Katherine Waterston e Vanessa Kirby em “The World to Come” (2020)

Fora de Competição 

Fora das mostras principais do festival, foram exibidos o documentário Sportin Life, de Abel Ferrara e Assandira, de Salvatore Mereu.

Homenageado no dia 05 de setembro com o prêmio Jaeger-Le Coultre Glory to the Filmmaker, o diretor Abel Ferrara esteve presente na seção com seu documentário Sportin Life,  sexta encarnação do projeto de arte internacional Self, com curadoria do diretor criativo de Saint Laurent. Este projeto é um comentário artístico sobre a sociedade, ao mesmo tempo em que enfatiza a complexidade de várias pessoas através dos olhos de artistas que evocam a atitude Saint Laurent de confiança, individualidade e auto-expressão.

O documentário é uma exploração das fontes e da história pessoal da criatividade, a vida essencial de um artista. Cru e nítido, dá a sensação de um momento no tempo que ainda está acontecendo. O olhar íntimo e exuberante de Abel Ferrara sobre sua própria vida, seu mundo refratado por meio de sua arte – música, cinema, seus colaboradores e inspirações, como os primeiros trabalhos de Ferrara e suas parcerias criativas com Willem Dafoe, Joe Delia, Paul Hipp e os músicos que o inspiraram. 

De acordo com o IndieWire, “Sportin’ Life é essencialmente um DVD extra glorificado, totalmente financiado por SAINT LAURENT, como as enormes letras maiúsculas declaram no início. É autoindulgente, mas nunca enfadonho. Foi surreal assistir quando ele estreou no Festival de Cinema de Veneza e ver a diferença que uma pandemia faz. Sportin’ Life oferece um último vislumbre de uma era, alguns meses e mil anos atrás, quando os festivais de cinema significavam exibições lotadas e conferências de imprensa, e pessoas se abraçando em clubes lotados. Em uma festa, um convidado presciente está usando uma máscara facial: em um filme de zumbi, esse pode ser nosso primeiro indício do horror que está por vir… Seu documentário é um álbum de fotos de 65 minutos, mas uma vez que você aceite isso, você encontrará muito o que admirar na energia de Ferrara, na confiança do lutador de rua, no amor pelo cinema e no desejo pela vida. Quem sabe ele pode até persuadir você a dar uma chance aos filmes de ficção mais recentes dele.”. 

Os impactos da quarentena em “Sportin’ Life” (2020), de Abel Ferrara

O italiano Assandira, roteirizado e dirigido por Salvatore Mereu, é baseado em livro de mesmo nome e tem no seu elenco principal Gavino Ledda, Anna Koenig, Marco Zucca, Corrado Giannetti, Samuele Mei, Alessandro Pala. No longa, Costantino afunda no palheiro como madeira velha deixada na praia por um mar tempestuoso. A chuva torrencial acabou de extinguir o incêndio que numa única noite assolou Assandira, uma quinta nas profundezas do bosque da Sardenha. Mas a chuva não aplacou a dor, o remorso sem fim pelo filho perdido nas chamas, pelo filho que ele foi incapaz de salvar. Os primeiros a chegar são os carabinieri e o jovem juiz de instrução: Costantino tenta contar o que aconteceu na noite anterior, explicar como tudo começou. O filme é enspirado em romance homônimo de Giulio Angioni, antropólogo, considerado um mestre da ficção contemporânea da Sardenha.

“Rodado na Foresta Burgos, em Barbagia, o filme tem a estrutura de um thriller, que remete a modelos nobres como a de Rashomon de Akira Kurosawa, como o próprio Mereu destacou em entrevista concedida durante as filmagens… este é o filme mais ambicioso e complexo de Mereu, reforçado por planos de longa sequência que conferem maior autenticidade à história e ao seu protagonista (a edição é cortesia de Paola Freddi)”. (via Cineuropa).

Entretanto, de acordo com o FilmTv  o longa possui situações um pouco jogadas a granel ou acumuladas de forma precipitada, que acabam enfraquecendo as partes mais interessantes, deixando-o atrelado à tradição local, sem esforços narrativos. “O resultado é um roteiro com todas as surpresas amontoadas em torno de um final funâmbulo, que até se atola em vibrações sexuais esotéricas e transforma a história em um bolo de carne muito menos convincente do que as histórias muito mais genuínas da Sardenha que Mereu tinha apresentado até então”.

Acompanhe no Quarta Parede POP o que ocorreu até o momento no Festival de Veneza.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.