Festival de Veneza | Dia 2: Novo filme de Almodóvar é elogiado e ‘Quo Vadis, Aida?’ desponta como candidato ao Leão de Ouro

O segundo dia da 77ª edição do Festival de Veneza (03/09) foi marcado pela estreia do novo filme do espanhol Pedro Almodóvar. É a segunda obra falada em inglês do diretor e protagonizado pela atriz Tilda Swinton, homenageada na última quarta-feira (02/09) com o Leão de Ouro Honorário pela sua carreira. Além disso, as exibições dos filmes primeiros filmes da competição do festival também se destacaram. 

Seção Horizonte 

A seção Horizonte é destinada a trabalhos de formato específico, obras que possuam uma visão mais ampla para as novas tendências nas linguagens expressivas que convergem no cinema. Este ano o júri da mostra é presidido pela diretora francesa Claire Denis. 

No primeiro dia do Festival foi exibido o primeiro filme da seção, Apples. Na quinta-feira (03)  foram exibidos os filmes The Wasteland e Milestone. 

O filme iraniano The Wasteland (Dashte Khamoush), escrito e dirigido por Ahmad Bahrami, acompanha uma remota fábrica de tijolos onde muitas famílias de diferentes etnias trabalham. Lotfollah, de 40 anos, nascido no local, é o supervisor da fábrica e atua como intermediário entre os trabalhadores e o patrão. Enquanto o patrão decide reunir todos os funcionários e informar sobre o fechamento da loja, Lotfollah só possui um objetivo: manter Sarvar, a mulher por quem ele está apaixonado, ilesa. O filme é uma homenagem ao pai do diretor e aos trabalhadores de todo o mundo, de acordo a ele “sem seus esforços, a civilização humana não teria alcançado esse nível de progresso”. 

De acordo ao site italiano My Movies, que deu 4/5 estrelas ao filme, o longa foi capaz de sintetizar o mundo e as mais distantes formas de fazer cinema, trazendo personagens difíceis de serem esquecidos na tela. “Filmada em esplêndido e significativo preto e branco, reinterpreta, mais ou menos conscientemente, o neo-realismo, vinculando-o à modernidade em que o lucro que se tornou lei absoluta está pronto para sacrificar qualquer pessoa em seus altares”. 

O indiano Milestone (Meel Patthar), de Ivan Ayr segue os passos de um homem que trabalha como caminhoneiro, a mesma profissão seguida pelo pai. Enquanto passa por uma crise conjugal que apresenta sérias consequências, deve ainda treinar um jovem recém-contratado. Entretanto, seu aprendiz parece destinado a roubar seu emprego.  

Definido como uma espécie de “Ken Loach (Eu, Daniel Blake) indiano”, o site italiano Silenzio in Sala afirma que o filme é além de bem escrito, dirigido com mão firme. “Milestone cresce aos poucos, mantendo o espectador sempre atento, sem nunca levantar a voz. Ivan Ayr, uma espécie de Ken Loach indiano, dirige uma história de exploração menos “gritada”, mas não menos dura”. 

Cena do iraniano The Wasteland (2020), de Ahmad Bahrami

Seção Competitiva e Conferência de Imprensa 

Dando largada a seção mais importante do festival, os filmes Quo Vadis, Aida?Lovers foram os primeiros exibidos na mostra responsável pelo grande prêmio do festival, o Leão de Ouro. 

Quo Vadis, Aida? escrito e dirigido pela diretora Jasmila Žbanić, possui produção de nove países (Bósnia e Herzegovina/Noruega/Holanda/Áustria/Romênia/França/Alemanha/Polônia/Turquia). O filme também foi selecionado para o Festival de Toronto e promete ser um dos grandes longas do ano. Apesar de ser a primeira vez da diretora no festival, seus filmes anteriores figuraram entre os maiores festivais de cinema do mundo. Grbavica (2006) esteve em Sundance e ganhou o Urso de Ouro em Berlim; For Those Who Can Tell No Tales (2013) estreou no Festival de San Sebástian; e Love Island (2014) foi exibido em Locarno. 

Seu novo longa acompanha Aida (Jasna Duricic), uma tradutora da ONU na pequena cidade de Srebrenica, Bósnia. Em julho de 1995 o exército sérvio assume o controle da cidade, sua família está entre os milhares de cidadãos que procuram abrigo no acampamento da ONU. Como uma pessoa de dentro das negociações, Aida tem acesso a informações cruciais que ela precisa interpretar, entretanto ainda não se sabe o que está no horizonte para sua família e seu povo: resgate ou morte. 

Para os sites The Hollywood Reporter e Screen Daily, o filme resgata as origens de Zbanic, na qual ela apresenta uma abordagem “muito pessoal, ecoando coração e as entranhas de seu primeiro longa, Grbavica”, entretanto ambos possuem destinos muito diferentes. “A narrativa especializada de Zbanic é simples e direta, contando com a empatia do público com a intérprete angustiada para alcançar o coração das trevas nesta história trágica… O assunto é terrível, mas é difícil desviar o olhar da tela”. “A energia e paixão do olhar fresco, novo e direto de Zbanic para o conflito transparece em cada quadro, em parte devido ao elenco inspirado da atriz Jasna Duricic“. Ambos os sites elogiaram as performances de Boris Isakovic e da protagonista. “A atriz sérvia Jasna Duricic (White White World) é hipnotizante no papel principal: Lutando como uma leoa por seus filhotes, ela atormenta, intimida e implora…”. 

Durante a conferência de imprensa, a diretora dedicou o filme a mulheres que perderam filhos, maridos, pessoas que amavam. “Acho que há muitos filmes que falam sobre a guerra do ponto de vista masculino, mas como mulher nunca fui capaz de me identificar com isso“, disse Zbanic. A protagonista do longa chamou atenção para a relação do filme com o resto do mundo. “Quo Vadis, Aida? é importante porque atesta fatos que, enquanto estamos aqui conversando, provavelmente estão acontecendo em outras partes do mundo“. 

Quo vadis, Aida?
Cena do elogiado “Quo vadis, Aida?” (2020)

O francês Lovers (Amants), da diretora Nicole Garcia escrito por ela em parceria com Jacques Fieschi foi o segundo longa da seleção oficial a ser exibido na noite do dia 03. Lisa (Stacy Martin) e Simon (Pierre Niney) são inseparáveis. Eles são apaixonados um pelo outro desde a adolescência. Uma tragédia ocorre, provocada pelas atividades criminosas de Simon. Ele está em perigo e foge, sem Lisa. Ela espera em vão por notícias dele. Três anos depois, ela se casou com Leo (Benoît Magimel) quando seus caminhos se cruzaram novamente em uma ilha no Oceano Índico. 

Para o Cineuropa, Garcia finalmente confronta o cinema noir, algo com o qual só havia flertado em seus longas anteriores como em Place Vendôme (1998), filme que concorreu ao Leão de Ouro e O Adversário (2002). “Nicole Garcia consegue imbuí-lo com sua capacidade de trabalhar a interioridade dos personagens (e oferecer belos papéis aos seus três atores). Um quadro sombrio sobre a paixão, o vazio, a liberdade e a busca da identidade, […], com um grande controle formal estabelecido na fotografia deslumbrante de Christophe Beaucarne e nos cenários altamente sugestivos. Elegante e intenso, e merecedor do título de clássico moderno, Lovers desdobra […] o terrível equilíbrio entre uma ameaça vertiginosa e seres humanos sacudidos pelas águas violentas. Uma bela harmonia entre o thriller e a veia psicológica da autora marca essa obra de maturidade e plenitude para a diretora”. 

O elenco do filme pôde estar presente no evento. Durante a conferência de imprensa os atores e diretores falaram sobre a produção. Adoro ver a ameaça que cerca os personagens do cinema. É um reflexo dos meus próprios medos. O cinema os sublima e me permite enfrentá-los. É por isso que adoro filmes noir”, afirmou Garcia. 

A protagonista Stacy Martin disse que foi a diretora que a atraiu no filme. “Quando li o roteiro havia muito mistério em cada personagem, quando nos conhecemos entendi imediatamente quem era Lisa, complexa e apaixonada, mas não tinha todas as respostas. A força de Nicole está na pesquisa e na capacidade de mudar constantemente enquanto corre, o resultado de uma liberdade que a leva a se esforçar para superar certos limites. Um processo contínuo de criação”. 


Fora da Competição 

Fora das seções principais foram exibidos The Human Voice e Night in Paradise. 

O novo média metragem do diretor Pedro Almodóvar, indicado ao Oscar ano passado por Dor e Glória (2019), era um dos mais aguardados do Festival. Protagonizado por Tilda Swinton, o The Human Voice é uma adaptação para o cinema da peça de um ato de Jean Cocteau. Segue-se uma mulher desesperada que aguarda o telefonema do amante que acaba de abandoná-la. O filme foi filmado durante a quarentena do coronavírus. 

O Indie Wire, que deu A- para o filme, lamentou ter apenas 30 minutos, mas alegou ser o suficiente para marcar o Festival como um dos melhores filmes. “Para qualquer um que se apaixone pelos estilos instantaneamente reconhecíveis de AlmodóvarSwinton, o filme é basicamente pornô. Deleite seus olhos com aqueles armários de cozinha cor de mostarda! Curve-se diante daqueles estiletes com estampa de leopardo! Mais de 30 minutos pode ter sido demais para aguentar”. 

“É um retrato nítido, embora ligeiramente caricaturado, de desespero e solidão – e, de fato, loucura e melancolia. A insistente trilha sonora de suspense e mistério de Alberto Iglesias aumenta a ansiedade, mas Swinton não tem problemas em prender a atenção por conta própria com uma performance teatral declamatória que, no entanto, mostra o quão desolada ela está…”.

Almodóvar e Swinton: “The Human Voice” foi gravado durante a pandemia do novo coronavírus.

O sul-coreano Night in Paradise (Nak-Won-Eui-Barm) escrito e dirigido por Park Hoon-jung, conhecido pelo roteiro de Eu vi o Diabo (2010) e Nova Ordem (2013), segue Tae-gu. O rapaz tenta ajeitar sua vida tentando proporcionar melhor qualidade para sua irmã e sobrinho doentes. Um dia, sua irmã e seu sobrinho são mortos em um acidente por alguém que mirou em Tae-gu. Ele decide então se vingar. 

O filme não agradou tanto a crítica, mas cumpriu o propósito como filme de gênero. Para o The Hollywood Reporter o “filme tem seus momentos, mas também tem trechos maçantes que muitos espectadores tendem a avançar rapidamente para chegar à próxima cena de esfaqueamento. Embora tenha conquistado uma vaga no time fora da competição de Veneza, o verdadeiro alvo desse filme de ação de aparência familiar certamente não é o festival, mas os fãs de gênero”. 

Continue acompanhando no Quarta Parede POP tudo o que ocorre no Festival de Veneza 2020.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.