Festival de Veneza | Dia 1 tem início emocionante com homenagens a Ennio Morricone e Chadwick Boseman

No dia 02 de setembro o Festival de Veneza deu início a sua 77ª edição, no Palazzo del Cinema, na ilha de Lido, Itália. Com a pandemia causada pela COVID-19, o festival que costuma ter início no final de agosto foi adiado em alguns dias, mas o coronavírus não foi o suficiente para evitar que o festival ocorresse de forma presencial, mesmo que Veneza tenha registrado um aumento nos casos. 

O festival, que acontece até o dia 12 de setembro, é um dos primeiros grandes eventos a ocorrer após a descoberta do novo coronavírus e seus efeitos na sociedade. Sendo o festival mais antigo do mundo, Veneza se preparou com formas obrigatórias de cuidado para evitar que a pandemia estrague o evento. Dessa forma, um rigoroso protocolo, definido pelos organizadores e o diretor do festival Alberto Barbera, foi implementado, incluindo uso de máscaras, testes e distanciamento físico. 

Diferente dos outros anos, em 2020, o famoso tapete vermelho que atraia público e fãs, não estará aberto. Somente fotógrafos poderão ter acesso aos atores e diretores que por ali passarão. Além disso, o número de cadeiras foi reduzido nas salas de projeção. Todos os hóspedes que chegarem de países que não são da União Europeia deverão fazer um teste três dias antes de viajar e outros testes durante todos os dias de sua permanência em Veneza por conta do festival. Em caso de terem resultados positivos, serão isolados. (via Correio do Povo)

A imprensa brasileira não está presente no Festival esse ano, já que brasileiros, chilenos, macedônios e bósnios estão proibidos de entrar na Itália por qualquer razão, a não ser que sejam residentes. Entretanto, há um filme brasileiro no Festival este ano, o documentário Narciso em Férias, que explora a prisão de Caetano Veloso durante a ditadura militar. A equipe do documentário dirigido por Paula Lavigne irá participar do evento através do Zoom. O longa terá estreia simultânea no Brasil, pelo streaming da GloboPlay.

Parceria entre os Grandes Festivais 

A abertura do Festival de Veneza teve participações ilustres e inéditas. Para mostrar que não está sozinho, o início contou com a presença de diretores de outros sete festivais de cinema europeus: Cannes, Berlim, Locarno, San Sebastián, Roterdã, Karlovy Vary e Londres. É hora de reabrir porque não podemos nos permitir ficar confinados durante muito tempo“, disse Alberto Barbera à agência EFE.

Não é por nós, tudo que estamos fazendo e estamos tentando fazer é pelo trabalho, é pelos filmes, é pelos diretores“, disse Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes. Lili Hinstin, diretora do Festival de Locarno, completou: “Há um grande desejo de solidariedade, em momentos como este podemos afirmar valores, tomar posições”. 

O Presidente da Bienal de Veneza, Roberto Cicutto, abriu a coletiva de imprensa para apresentação dos jurados, afirmando que a ” 77ª edição do Festival de Veneza tem 3 protagonistas: os que estão na tela, os que trabalham para os filmes e este ano, igualmente importante, o público. Bom show a todos!“. O júri deste ano é composto pela atriz Cate Blanchett (Austrália), pelos diretores Christian Petzold (Alemanha), Cristi Puiu (Romênia), Joanna Hogg (Reino Unido) e Veronika Franz (Áustria), a atriz Ludivine Sagnier (França) e o escritor Nicola Lagioia (Itália). 

Blanchett, presidente do júri da mostra competitiva, disse na conferência de abertura: “É um privilégio, um prazer e uma grande honra estar aqui hoje. Quase parece um milagre. Eu estava ansiosa para vir e estou pronta para aplaudir os criadores da exposição”. A diretora francesa Claire Denis agradeceu a 77ª edição do Festival de Veneza por reabrir as portas há tanto tempo fechadas. “Por nada no mundo eu teria desistido de participar da exposição“. Denis preside a seção Horizonte, os diretores Francesca Comencini (Itália) e Oskar Alegria (Espanha), os produtores Christine Vachon (EUA) e Katriel Schory (Israel) completam o juri. 

Emoções marcam a abertura do Festival de Veneza

O primeiro dia do evento já foi marcado por grandes emoções. Uma homenagem feita ao maestro italiano Ennio Morricone, mestre das trilhas sonoras para o cinema, que morreu em julho de 2019 anos 91 anos, emocionou a todos os presentes na Sala Grande do Palácio do Cinema, que aplaudiram de pé o autor de mais de 500 melodias.  (via Terra)

A trilha sonora eternizada pelo maestro fez parte da orquestra Roma Sinfonietta, conduzida pelo filho de Morricone, Andrea, que executou o tema da personagem ‘Deborah‘ no filme Era uma vez na América (1984), de Sergio Leone.

Com o mestre e seu toque único queríamos iniciar esta edição, um tema perfeito onde a simplicidade se torna lírica. Nesta noite emocionante quero cumprimentá-lo. Você entrará na história desafiando as incertezas, o público é convidado a participar ativamente para demonstrar que na Itália podemos e devemos voltar a fazer cultura“, enfatizou a atriz italiana Anna Foglietta, madrinha do evento. 

Leão de Ouro Honorário 

A atriz britânica Tilda Swinton e a diretora honconguesa Ann Hui foram homenageadas ao receberem o Leão de Ouro por suas carreiras. A versatilidade da atriz foi destacada em homenagem escrita pelo diretor do festival. Ele afirmou que Tilda Swinton é unanimemente reconhecida como uma das intérpretes mais originais e intensas […] sua personalidade exigente e excêntrica” e “sua capacidade de passar do cinema de autor mais radical para as grandes produções de Hollywood, sem renunciar a sua inesgotável necessidade de dar vida a personagens inclassificáveis e pouco comuns ” (via O Tempo).

Ao receber o prêmio a atriz fez um emocionante discurso: “O cinema é meu lugar feliz, minha verdadeira pátria. Sua comunhão é a árvore genealógica do meu coração. Os nomes que constam da lista dos agraciados com esta homenagem, entretanto, são os nomes dos meus mestres. Eles são os mais velhos da minha tribo. Os poetas da língua que amo mais do que as outras“.

A atriz ainda disse que Veneza é o “festival de cinema mais venerável e majestoso da Terra, por perseverar em um ano impossível e lembrar que algumas coisas não vão a lugar nenhum“. E por fim, dedicou o seu prêmio ao ator Chadwick Boseman, que morreu semana passada aos 43 anos devido a um câncer de cólon.O tapete mágico ainda está voando e sempre será o melhor equipamento de proteção pessoal possível para a alma. Viva Veneza. Viva o Cinema. Wakanda para sempre. Nada além de amor“. (via Bol)

Ao entregar o prêmio a diretora Hui, uma das representante da nova onda do cinema de Hong Kong, Barbera afirmou que Ann Hui é uma das diretoras de cinema mais apreciadas, prolíficas e versáteis do continente asiático […] foi uma das primeiras artistas a misturar material documental e cinema de ficção”, sem nunca abandonar “a visão do autor”. Ao longo de quase meio século, esteve particularmente interessada nos “assuntos humanos e sociais”, como a vida dos imigrantes vietnamitas após a Guerra do Vietnã e foi “pioneira, por sua linguagem e estilo visual“.

A diretora não pôde comparecer ao evento, entretanto, quando foi anunciado o seu prêmio honorário no mês de julho, a mesma afirmou sentir-se “sem palavras” com o prêmio, e desejou que “todo o mundo melhore logo, para que todos possam sentir-se felizes como me sinto agora”.  

Durante o festival, serão exibidos os novos filmes das artistas. Tilda está presente no novo longa de Pedro Almodóvar, The Human Voice, exibido dia 03 de setembro, enquanto o novo longa de Ann Hui, Love After Love estreia dia 09 de setembro.

Tilda Swinton
Tiilda Swinton recebe o Leão de Ouro na abertura do Festival de Veneza de 2020

Exibições do primeiro dia do Festival de Veneza

Dois filmes foram exibidos na primeira noite do Festival de Veneza: Apples (Mila), do grego Christos Nikou e The Ties (Lacci), da italiana Daniele Luchetti.

Seção Horizonte

Apples, do estreante diretor grego Christos Nikou reflete sobre a memória e a perda em seu enigmático relato dos esforços de um homem para se reprogramar em uma sociedade afetada por amnésia viral. Seu filme foi ligado por muitos críticos ao trabalho mais cru de Yorgos Lanthimos, não à toa já que o diretor foi assistente de direção em Dente Canino (2009). Dessa forma, muitos inseriram o trabalho de Nikou na “Greek Weird Wave”, movimento do cinema grego impulsionado pela degradação social e econômica do país. 

De acordo ao The Hollywood Reporter, o trabalho de Nikou juntamente com o co-roteirista Stavros Raptis, lembra o trabalho de Spike Jonze, Leos Carax e especialmente Charlie Kaufman como influências. “Toques dos quais são aparentes na criação do filme de um mundo ao mesmo tempo comum e estranho. O protagonista sem nome quase poderia ser um Buster Keaton pós-moderno, interpretado em uma atuação maravilhosa de Aris Servetalis que parece sem emoção, mas aos poucos revela camadas ocultas de sentimento”.

De acordo a Variety, apesar de Nikou chegar a este projeto tendo trabalhado como assistente de direção em Dente Canino e Antes da Meia-Noite (2013) de Richard Linklater. “Sua voz parece distinta, mais madura do que aquelas encontradas nas estreias perturbadoras de seus colegas gregos. Apples tem uma qualidade ruminativa bastante incomum no cinema moderno, deixando espaço para o público se projetar na situação do homem”. 

Fora da Competição 

The Ties, de Daniele Luchetti foi o primeiro filme italiano a abrir o festival em mais de uma década. Devido a pandemia, muitos dos grandes filmes que figurariam a próxima temporada de premiações não puderam ser finalizados a tempo do festival, dando assim espaço para que filmes que poderiam passar despercebidos tenham maior destaque. Adaptando o romance de Domenico Starnone, de acordo ao The GuardianLuchetti navega com autoconfiança por uma estrutura deslizante no tempo, deslizando para frente e para trás entre Nápoles e Roma, e desde o início dos anos 1980 até os dias atuais.  

“O belo drama de divórcio de Daniele Luchetti se destaca como um primo europeu de História de um Casamento (2019) em seu foco no colapso terrível de um casal de classe média e na bagagem emocional que eles então legam aos filhos… Aqui está um filme em que a miséria gera miséria até que seu legado se aprofunda como uma plataforma costeira”. Xan Brooks (The Guardian) deu três estrelas ao longa, também elogiando a performance de Alba Rohrwacher. 

O IndieWire reconhece a semelhança com o filme de Noah Baumbach, mas destaca, que “em vez de examinar a fúria destrutiva de um divórcio, Lacci vê o que acontece quando uma esposa e um marido infiel ficam juntos. É tão triste, mas não tão envolvente.” 

“Não há grande revelação, nem mesmo pequena. O que estamos vendo, no fundo, são cenas longas e falantes, mas não especialmente dramáticas de um casamento sustentado pela inércia e pelo ressentimento. E, embora a descrição de Luchetti desse arranjo insatisfatório seja honesta e observadora, com performances bem avaliadas e discretas, é difícil dizer por que seus dois participantes passivos-agressivos merecem tal escrutínio. O fato de que o título em inglês, ‘The Ties’, se relaciona em parte com amarrar o cadarço demonstra como a ação realmente é feita de altos e baixos.”  

Dando nota C- ao filme, Nicholas Barber (IndieWire) ainda destaca o mal proveito dos filhos do casal. “Talvez, ao adaptar o romance, Luchetti devesse ter prestado mais atenção à prole danificada que pode realmente expressar seus sentimentos. Infelizmente, eles foram subutilizados como crianças esperançosas e como adultos cínicos (Giovanna Mezzogiorno, Adriano Giannini). Do jeito que está, essa história de casamento tem um casamento – mas não muito de uma história”. 

O Festival de Veneza vai até o dia 12 de setembro, confira aqui os filmes que estão em competição no festival. 

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.