Crítica | 3% encerra sua jornada com sua melhor e mais intensa temporada

Analisar a trajetória de 3% é algo interessante e que diz muito sobre a valorização das produções nacionais no país. A série representa a primeira aposta da Netflix ao trazer um produto original nacional para a plataforma, e logo de cara foi recebida com opiniões mistas pelo público. Porém, a principal questão não seria somente apontar a recepção por aqui, pois o resultado já poderia ser esperado, mas sim ressaltar o sucesso que ela conseguiu conquistar fora do território nacional. Diversos outros países a abraçaram, e conseguiram mantê-la em exibição por 4 anos.  

3%de fato, nunca foi isenta de erros, mas sempre procurou trabalhá-los para evoluir, entregando uma produção digna do nosso país e que não deixa a desejar de muitas outras internacionais. A 4ª e última temporada da série ressalta essa evolução. E, mesmo com a recepção mista e às vezes até mesmo odiosa por parte do público, é aliviador perceber que o sucesso mundo a fora deu a oportunidade dela ser encerrada da forma que merecia. 

Temos aqui, então, o encerramento dessa história que fala tanto sobre o nosso Brasil, mas que também consegue ser universal, conversando com outros países de forma tão palpável quanto é por aqui. Dessa vez, o Maralto está focado em fornecer um acordo em troca de Marcela, que foi aprisionada pela Concha no final da temporada passada. No meio dessa troca, a Concha vê uma oportunidade de adentrar no território do Maralto e destruí-lo de uma vez por todas, acabando coma a desigualdade socioeconômica causada por ele.  

3% – 4ª Temporada (Netflix)

A TRAJETÓRIA DOS PERSONAGENS DE 3%

Tendo o plano como base, o roteiro vai colocar os personagens de frente com seus passados, evidenciando ainda mais como cada um deles evoluiu desde o início da história. Encarar suas origens pode ser uma tarefa difícil para alguns, principalmente quando essas memórias podem afetar diretamente decisões atuais e até mesmo no encerramento dos arcos que os envolvem. É bonito perceber o quanto o roteiro foi cuidadoso com o desenvolvimento dos seus personagens, entregando para eles um fim digno e a altura do que cada um merecia. 

Porém, mesmo evidenciado o passado de cada um, o de Joana (Vaneza Oliveira) acabou sendo esquecido no meio do caminho. Logo no início da temporada, parecia que estávamos perto de finalmente descobrir a origem da personagem, mas de uma hora para outra, essa descoberta pareceu não fazer mais sentido para a história, e foi deixada de lado tanto por ela quanto pelo roteiro. 

Mas, mesmo não tendo seu passado desenvolvido, Joana é a que apresentou o maior crescimento durante a série. Sua trajetória simboliza perfeitamente a mensagem que 3% deseja passar, e o último episódio evidencia justamente isso. Joana sempre foi justiceira, mas não é somente isso que podemos perceber vindo dela; sua maior batalha, talvez, tenha sido a luta por igualdade e, principalmente, por liberdade. Mais do que qualquer outro personagem, ela nunca se deixou levar pelo que o Maralto tinha a oferecer, e mesmo quando estava perto de deixá-lo conduzir suas atitudes, o real motivo para ela estar ali bateu de frente com seus ideais novamente, e a fez protagonizar os principais momentos decisivos da temporada. 

Michele (Bianca Comparato) também merece destaque por seu crescimento. Ela iniciou sua trajetória como uma infiltrada da Causa, e mesmo tendo seus momentos de divergência no meio do caminho, ela termina a série com uma missão e ideal muito mais fixo e construtivo do que ela possuía anteriormente. Sua rivalidade com o irmão, André (Bruno Fagundes), é o que marca o fim do seu ciclo, conseguindo ser justo com o que a personagem construiu até ali.  

É interessante colocar lado a lado o ciclo que os dois percorreram. Michele, inicialmente, tinha como principal propósito salvar seu irmão do Maralto. Porém, com o andar da carruagem percebeu que André não era mais a mesma pessoa que ela havia conhecido. Apesar de semelhantes em muitos aspectos, ele consegue ser o oposto dela em diversos outros. A jornada dos dois se cruza no final, entregando um dos encerramentos mais tristes da série.  

Indo em contrapartida do que a irmã representa, André se consagra como o melhor vilão da série. Cruel, extremista, e cego pelo que acredita, ele não mede esforços nas suas atitudes, e tenta disfarçá-las como algo positivo para o que ele quer que o Maralto seja futuramente. Isso pode ser ressaltado pelas provas do Processo apresentadas nessa temporada, que chegam a ser perturbadoras em alguns momentos. 

3% – 4ª Temporada (Netflix)

RITMO 

Algo em que a série também sempre acertou foi no seu no ritmo. Com um número de episódios reduzidos dessa vez – o plano inicial seriam fazer 8, com o episódio final mostrando o futuro do Continente, mas por causa da pandemia ele não conseguiu ser gravado –, a temporada não entrega nenhuma barriga no meio do caminho, e consegue manter o espectador atento com sempre tendo algo grandioso acontecendo em tela. É difícil encontrarmos um seriado que se mostra consciente da história que está contando, e não se preocupa em manter um número fixo de episódios por temporada apenas para cumprir tabela.  

3% encerra sua história com um sentimento positivo de mudança, democracia e liberdade. É o frescor que o público brasileiro precisava sentir, ainda mais considerando o período caótico em que estamos vivendo. O final coloca todos os pintos nos “i”s que estavam faltando, e deixando com uma mensagem que se encaixa perfeitamente no Brasil e mundo atual: até onde você pode ir por acreditar em uma causa? 

É, definitivamente, uma pena que por aqui a série não tenha entrado nem ao menos no top 10 de mais assistidas da Netflix no seu fim de semana de estreia. Porém, para aqueles que se deixaram aventurar, a experiência consegue ter sido tanto empolgante, quanto reconfortante. Que sua mensagem consiga adentrar diversas casas e famílias mundo afora!  

3% – 4ª TEMPORADA
4.5

RESUMO

Com maestria, 4ª e última temporada de 3% encerra o arco dos personagens de forma justa, e entrega um final a altura do que a série merecia.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.