Crítica | O oásis desnecessário de ‘Vis a Vis: El Oasis’ – 1ª temporada

Existe um motivo para o sucesso de Vis a Vis, cuja estreia na Netflix em 2015 encarcerou as famosas detentas de uniforme amarelo de Cruz del Sul e, junto com elas, a atenção do público. Acompanhar a chegada de Macarena (Maggie Civantos) ao presídio feminino e a sua gradual transformação de uma inocente menina de classe média em uma perigosa criminosa foi bastante arrebatador, para dizer somente o suficiente, e os fãs respiraram aliviados quando a série foi salva do cancelamento precoce depois de apenas duas temporadas.El Oasis

Assim, renovada para a terceira parte, tivemos que lidar com a ausência da protagonista que, tendo que honrar contrato com outro seriado (Civantos também é parte do elenco de As Telefonistas), deixou o comando de Vis a Vis nas mãos de Zulema (Najwa Nimri), voltando somente no final da quarta temporada para fechar a trama em definitivo. Ou não tão em definitivo assim.

Eis que foi anunciado Vis a Vis: El Oasis, série derivada da original, cuja trama traz de volta Macarena e Zulema como uma dupla improvável do crime, uma espécie de Bonnie e Clyde de duas mulheres. A história se passa alguns anos após a saída delas de Cruz del Norte quando, então, planejam um último golpe antes de se “aposentarem” da vida desregrada.

Mas, se estávamos esperando algo tão bom quanto as primeiras temporadas da obra principal, nos enganamos redondamente. A prisão – palco da narrativa que tanto cativou os espectadores e fez a série famosa internacionalmente -, não existe mais. Agora estamos no meio de um deserto em um clima muito diferente do qual estávamos acostumados, e o cenário principal é um hotel chamado Oasis, que de oásis não tem nada.

Por um lado, numa análise mais objetiva, tudo na série é lindo, tecnicamente falando. A paleta de cores escolhida, em tons pastéis e puxada para o verde, mais do que pertinente ao ambiente escolhido, é linda. O figurino deixa de lado os uniformes amarelos, antes predominantes, e assume uma conotação bem divertida, que vai do estilo gótico de Zulema ao punk romântico de Triana (Claudia Riera). A trilha sonora é notável, com direito a música brasileira (Sou Assim, da cantora Sarah Roston, embala uma das cenas noturnas). E usa-se e abusa-se do slow motion, que nos mostra sangue espirrando e cacos de vidro voando em detalhes maravilhosos.

Mas, por outro lado, o roteiro se enrola em vários problemas, o que tornou El Oasis pura encheção de linguiça. Para começo de conversa, a trama foi conduzida de maneira muito fraca, baseada num golpe extremamente amador para criminosas do cacife de Maca, Zulema e até mesmo Goya (Itziar Castro) – que pelo menos dessa vez não está mastigando palito.

Vis a Vis: El Oasis – 2020 (Netflix)

Assim, seguindo esse raciocínio, o principal antagonista da história também se mostra pouco original, um poderoso chefão do tráfico de drogas mexicano apaixonado pela filha única. E se formos levar em conta Ama (Ana María Picchio), que também se encaixa na figura do anti-herói (ou anti-heroína, no caso!) ela é apenas a sombra de Sandoval (Ramiro Blas), o pesadelo da detentas na série original, que quiseram sabe-se lá por que motivo reviver (já deu desse homem, não é?).

Mesmo morto de maneira espetacular pelas presidiárias no último episódio de Vis a Vis, o psiquiatra retorna in memorian como idealizador do Oasis – que na verdade é um Big Brother bizarro que parece, nas palavras das próprias personagens, um cérebro, e bastante cavernoso -, o que não era necessário em absoluto.

Ademais, quanto aos outros personagens, a maioria deles, como o pedófilo Pablo e sua família ou os adolescentes que chegam em excursão ao hotel, são, como já observado, encheção de linguiça, histórias paralelas que mal se cruzam com a trama principal e servem apenas para trazer Sandoval de volta (no primeiro caso) ou preencher minutos de episódio (no segundo caso).

Já outros membros do elenco conhecido do público, que contribuíram em muito para o sucesso anterior, como o detetive Castillo (Jesús Castejón), Román (Daniel Ortiz) e a excelente Saray (Alba Flores), fazem apenas participações especiais, o que é realmente uma pena, vez que seria muito interessante ver esta última em ação, mais uma vez participando de um assalto como faz no fenômeno La Casa de Papel. Ela teria uma coisinha ou outra para ensinar sobre roubos, não é mesmo?

Enfim, a conclusão a que se chega é que, mesmo sendo muito bom rever personagens das quais tanto gostamos, Vis a Vis: El Oasis foi totalmente desnecessário, muito em razão de sua base fraca de roteiro, porém de qualquer modo, o final bastante melodramático, simbolizando a eterna comparação entre vida e morte, deixou gancho para uma continuação. Se isso vai acontecer ainda não se sabe, mas se sim, esperemos que seja num oásis melhor.

VIS A VIS: EL OÁSIS – 1ª TEMPORADA
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RESUMO

Num big brother muito estranho, trama de Vis a Vis: El Oásis faz homenagem a um personagem que não a merecia.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.