Artigo | A mulher à frente do seu tempo em The Marvelous Mrs. Maisel

Quando pensamos nas mulheres dos anos 50, uma determinada imagem pode ser a primeira a vir à mente. Donas de casas dedicadas aos lares, maridos e filhos. Sempre belas, perfeitas, sem espaço para defeitos. Recatadas, ótimas cozinheiras e apoiadoras eternas de seus companheiros homens e provedores da família. Contidas, discretas e submissas. Nossa heroína e protagonista, sob um olhar inicial, encaixa-se bem na descrição. Mas quanto mais conhecemos Miriam Maisel (Rachel Brosnahan), ou Midge, mais vemos o quanto à frente de seu tempo ela está. Mrs. Maisel

De devotada cuidadora do lar à comediante, há uma grande e espetacular jornada dessa personagem encantadora que acompanhamos durante as três temporadas existentes de The Marvelous Mrs. Maisel, série original do Amazon Prime Video. Acumulando elogios desde sua estreia em 2017, a série agora reúne vinte indicações ao Emmy 2020, entre elas melhor série de comédia e melhor atriz em série de comédia. 

Midge Maisel é casada com Joe Maisel (Michael Zegen), que conheceu na faculdade, e, juntos, são pais das crianças Ethan e Esther. Desde o primeiro episódio, podemos ver o empenho com que ela realiza tarefas diárias, como manter sua aparência impecável e apoiar seu marido no sonho de se tornar um comediante stand up. Apesar dela sempre tentar se enquadrar na figura social esperada, traços de sua personalidade aparecem já no início da série. Em cada cena, percebe-se que o pensamento de Miriam difere bastante das expectativas sob as mulheres em sociedade. 

No entanto, mesmo com todos os esforços para ser perfeita, Joe Maisel resolve separar-se de Miriam, assumindo um caso extraconjugal e a vontade de se tornar um comediante. Assim, ela torna-se uma irônica Mrs. Maisel ao subir em um palco de um clube de comédia e expurgar todas as suas frustrações em forma de piadas sarcásticas e hilárias, o que faz muito sucesso com público. Da noite para o dia, uma nova possibilidade surge em seu horizonte: uma carreira como uma humorista. Cada vez mais vamos conhecendo sua personalidade forte, vivaz e irreverente.  

Rachel Brosnahan e Alex Borstein em “The Marvelous Mrs. Maisel” (Amazon Prime Video)

O cativante de The Marvelous Mrs. Maisel é justamente o aparente paradoxo em uma mulher dos anos 50, inserida em um contexto completamente machista e patriarcal, transformar-se em uma sensação dos palcos fazendo chacota justamente desse fato. Suas apresentações são sempre inteligentes, perspicazes e “ofensivas” para a época, até podendo ser chamadas de “vulgares”, mas também muito envolventes. Com isso, a personagem precisa enfrentar uma série de obstáculos norteados pela lógica associada à mulher: acolhedora, materna, pura, sensível, frágil e apenas uma esposa e ir contra todos eles. Seus próprios pais impõem entraves à sua carreira. 

É importante destacar que todas essas críticas sociais são feitas de forma muito leve e com um humor bastante agradável. Não temos a sensação de estarmos sendo “forçados” a absorver tais análises e refletir sobre, tudo acontece de maneira muito orgânica. A obra consegue ser divertida e, de quebra, representar conceitos relevantes quando pensamos a sociedade como um tudo, especialmente a atualidade, em que as mulheres ainda sofrem com preconceitos e imposições. 

A direção de arte e figurino de The Marvelous Mrs. Maisel também merecem elogios por conseguirem contextualizar a série à época, com cenários realistas e vestimentas belíssimas. Por último, e não menos importante, o elenco é um show à parte, principalmente pelas atuações de Rachel Brosnahan (Midge Maisel) e Alex Borstein (Susie Myerson), que interpreta a empresária de Midge. As duas trazem essa dupla fascinante e cômica de mulheres extremamente diferentes – pelas bagagens sociais, econômicas e culturais que carregam – mas que se ajudam a alcançar outro patamar social, mesmo com todas as dificuldades.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"