Crítica | A deliciosa simplicidade complexa de ‘The Good Place’

O que acontece depois que deixamos nossa vida carnal aqui na Terra é uma das questões que mais assombram nosso curto período de existência desde o início dos tempos. Muitos tentaram e continuam tentando dar spoilers sobre o pós-morte na esperança de garantir que a felicidade ou tormento eterno é real, e é sobre esse tema complexo que, de forma deliciosa e muito divertida, se desenvolve a trama de The Good Place, do criador Michael Schur (The Office – 2005, Parks and Recreation – 2009, Brooklyn Nine-Nine – 2013), disponível na Netflix.

Durante quatro temporadas acompanhamos a vida após a morte de quatro personagens que a princípio odiamos e, depois, terminamos por simplesmente amar. Eleanor (Kristen Bell), Chidi (William Jackson Harper), Tahani (Jameela Jamil) e Jason (Manny Jacinto) são aquele tipo de pessoas desprezíveis das quais todos querem se afastar. A imagem que eles apresentam de si mesmos é tão rasa no começo que é capaz até de fazer com que alguns espectadores deixem de assistir a série (por achá-los chatos), mas quem não avança nos episódios da primeira temporada perde muito e, principalmente, deixa de se divertir e de dar muita risada.

Assim, a excelente Kristen Bell vive a (no início) egoísta Eleanor, uma garota baixinha do Arizona que justifica todas as atitudes mesquinhas que tomou na vida em razão da “não criação” que recebeu dos pais terríveis que teve. Já Chidi é um senegalês nerd aficionado por filosofia, ética e moral. Sua incapacidade de tomar uma simples decisão – como o que comer no café da manhã -, torna a vida de todos ao seu redor insuportável. Por sua vez, a frívola Tahani é uma socialite britânica de ascendência indiana que tinha o mundo aos seus pés, mas vivia atormentada pela sombra da irmã mais velha e pelo desprezo dos pais, o que fez com que todas as suas motivações em vida fossem erradas. Finalmente, Jason é um aspirante a DJ com capacidade mental reduzida que cometia crimes por razões tão inocentes que mal previa as consequências. Ele vivia em Jacksonville, na ensolarada Califórnia, sendo descendente de orientais.

É dessa forma que essas quatro pessoas de etnias diferentes, depois de passarem dessa para melhor, de repente se veem no Lugar Bom (The Good Place), em uma simpática vizinhança construída especialmente para eles pelo arquiteto do além-mundo, Michael (Ted Danson). É tudo tão colorido e perfeito nesse lugar que a locação da série só poderia mesmo ter sido filmada onde realmente foi, a Little Europe nos estúdios da Universal em Hollywood. E quando somamos a isso a trilha sonora tão singela e calma, constrói-se o cenário de paz e espírito de coisa boa que a série passa.

Good Place
The Good Place (NBC)

Porém, o melhor de The Good Place, e também o motivo de o seriado ser tão divertido e fazer rir, é o fato de o Lugar Bom ser tão “zoado” quanto, ou até mais “zoado” que a própria Terra, com a diferença de que lá não se pode xingar. No mais é tudo bem parecido. Referências a histórias conhecidas, outros seriados e personalidades famosas (como Friends, Game of Thrones, Harry Potter, Downton Abbey Taylor Swift, Ben Affleck e os irmãos Hemsworth) são feitas o tempo todo e de maneira pontual, testando o conhecimento do público. E é claro que eu também não poderia deixar de citar que também existe a mágica de vida após a morte.

E é aqui que ressalto a brilhante atuação de D’Arcy Carden. Sua personagem, Janet, é sem dúvida a melhor coisa da série, um ser mágico e autodidata que contém todo o conhecimento do universo e é capaz de realizar qualquer desejo. Não há como não amá-la em qualquer uma das suas versões Janet (Janet Boa, Janet Má, Janet Neutra, Janet Disco…), assim como também não tem como não amar as caretas e o sotaque britânico de Tahani, ou a inocência e a alegria de Jason, ou a autoconfiança sensacional de Eleanor. Chidi é o mais sem graça, mas mesmo assim, membro inquestionável e necessário do grupo e também a chave para uma das facetas mais importantes da série: os questionamentos sobre ética e moral.

É dessa forma que The Good Place ensina sobre essas matérias: com leveza e divertimento, retratando a complexidade do ser humano e da vida na sociedade contemporânea com tanta inteligência, que qualquer um consegue entender. E aprendemos da melhor maneira possível: rindo. Essa série pode virar até tese de conclusão de curso. Com episódios de apenas 22 minutos de duração, fica fácil maratonar a história dos quatro amigos e toda a sua evolução no pós-vida, entendendo a personalidade de cada um simplesmente pela roupa que estão vestindo (ponto para o figurino, que é maravilhoso!).

Mesmo assim, é claro que nem tudo é o paraíso no seriado, ele também tem suas fases ruinzinhas e personagens chatos – alguém me salva do Derek (Jason Mantzoukas), do Brent (Benjamin Koldyke) e da Vicky (Tiya Sircar). Existe até um momento em que parece que o seriado vai descarrilhar, mas ainda bem, isso não acontece. No geral, ele merece os melhores adjetivos!

Bom Lugar
The Good Place (NBC)

E é assim que The Good Place e sua simples interpretação da complexidade da existência (e pós-existência também!) obviamente não vai nos abrir as portas do Éden, mas Michael Schur fez seu caminho até o Emmy já que sua obra foi indicada na categoria Melhor Série de Comédia. Mais do que merecido! Simples assim.

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Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.