Crítica | ‘Black is King’ é o verdadeiro live-action de ‘O Rei Leão’

Em março de 2017 haviam rumores de que Beyoncé poderia dar vida a Nala no novo live-action da animação de 1994, O Rei Leão. Animação essa que marcou uma geração de crianças, adolescentes e adultos com seus simpáticos personagens, com o vilão Scar e suas hienas, a célebre música Hakuna Matata, mas acima de tudo pela sua mensagem de família, amor, esperança e retorno às raízes que o filme aborda.Black is King

Em 2019, o então falado live-action foi exibido nos cinemas com o intuito de atrair um novo público de crianças e também de suas famílias que seriam arrebatadas pela nostalgia do longa. Entretanto, o filme deixou muito a desejar quando comparado ao de 94 (leia aqui a crítica completa). Seu elenco estrelado formado por Beyoncé, Donald Glover, Seth Rogen, James Earl Jones e Chiwetel Ejiofor não foi o suficiente para salvar aquele que prometia ser um dos filmes do ano.

Apesar de toda a história já conhecida, algo que o longa trouxe de novo foi sua trilha sonora, com musicas já conhecidas do público. Ocorreu ainda a introdução de Spirit, música original do longa composta por Beyoncé e indicada ao Globo de Ouro, Critics’ Choice Awards e Grammy Awards. Música na qual integrava também o novo projeto entre Beyoncé e a Disney. Além dela, canções novas apareceram no filme e compuseram, juntamente com outras músicas inéditas, o álbum The Lion King: The Gift, escrito por Beyoncé em colaboração com diversos artistas com canções que transformam em música as lições e a ideia principal do filme O Rei Leão.

O álbum possui inúmeras participações, além de curtos diálogos do live-action de Rei Leão. Durante o desastroso ano de 2020, a artista liberou em suas plataformas um teaser de sua nova produção, que até então, ninguém sabia se seria um projeto novo ou algo interligado com o álbum The Gift.  Entretanto, os boatos se concretizavam através dos fãs que repararam a escultura da capa do álbum – dois leões dourados – em uma das cenas do teaser. Assim, entre boatos, incertezas e ansiedade após quase um ano do lançamento de O Rei Leão e The Gift, o streaming da Disney, Disney+ – ainda não disponível no Brasil – adicionou o nome e data para lançamento do filme Black is King, parceria entre o estúdio e a cantora.

No dia 31 de julho de 2020, dia da mulher africana continental e afrodiaspórica, a artista liberou a versão deluxe do seu álbum The Gift, para que horas após o seu álbum filmado, Black is King fosse disponibilizado na plataforma Disney+. Além disso, no seu IGTV, Beyoncé disponibilizou um dos clipes que faz parte do filme, ALREADY.

Black is King (2020) – Disney+

BLACK IS KING E A RELEITURA DO CLÁSSICO

O filme Black is King é uma releitura do longa O Rei Leão, tendo como ponto de vista a comunidade negra como protagonistas e as lições da animação por trás das músicas que guiam seus personagens. Com estética afro-surrealista, além de novas e antigas parcerias, a nova obra de Beyoncé reflete seu imenso trabalho de pesquisa e dedicação ao introduzir um novo contexto e narrativas para algo que já faz parte da cultura pop e é querido por boa parte da população, tornando-se assim o que o live-action de 2019 deveria ter sido.

As canções que compõem Black is King narram toda a história de O Rei Leão em um novo contexto, em que na linguagem musical transpõem toda a trajetória de Simba como um jovem garoto negro que enfrentará tudo aquilo que o leoãzinho passou no filme, mas aqui será no contexto sócio-histórico. Simba possui uma família, suas raízes, um par romântico, tudo o que o havia na animação, mas Simba possui questões sociais, raciais e identitárias que o marcam como um jovem negro que precisa enfrentar uma série de desafios para chegar à sua glória final. Entretanto, diferente do filme, a jornada não é o que mais importa de fato, mas sim a forma como essa jornada é traçada.

Sendo um álbum filmado, as músicas não poderiam deixar de ser importantes e o verdadeiro destaque do filme. As canções que foram lançadas a um ano atrás em The Gift, aqui sim se tornam músicas muito além de letras e novas melodias. Elas foram escritas por grandes artistas negros, americanos, nigerianos, africanos, canadenses dentre outros. Com uma grande diversidade de ritmos e vozes, Beyoncé ajuda a compor em cena a diversidade dentro da negritude.

Para quem acompanha a artista em seus últimos trabalhos, sabe que a questão racial passou a ser cada vez mais abordada no trabalho dela, isso é um reflexo também do que vem sendo feito na própria sociedade, que nos últimos anos tem questionado e discutido de forma mais notória a questão racial nos seus mais diversos âmbitos. Entretanto, como artista e mulher negra, a artista vinha caminhando com discursos mais pessoais que abarcavam aspectos de sua vida.

Em seu último álbum anterior ao The Gift, “Lemonade”, a artista abordou principalmente a questão de relacionamentos,  empoderamento feminino e empoderamento negro. Assim como em Everything is Love ela e o rapper Jay-Z, seu marido, criaram juntos uma simbólica forma de retratação, também abordando questões de relacionamento amoroso racial. Mas somente em The Gift, a cantora chega de fato ao ponto com o qual passou anos flertando, sem que ele seja coadjuvante se limitando em um número de composições. Aqui a negritude reina.

Black is King, Beyoncé e Jay Z
Black is King (2020) – Disney+

Desde a faixa inicial Bigger a Black Parade, Beyoncé narra a trajetória de um jovem negro como representante de um povo. Aqui ela se debruça em dar mais atenção não somente ao sujeito, mas a toda população negra; toda a população negra é protagonista, Simba se torna uma mera simbolização. Assim, em “Bigger”, a cantora anuncia que todos os negros fazem parte de algo muito maior do que imaginam, ou do que aquilo que é apresentado para eles. Traçando o protagonismo e a imensidão que cerca a etnia, Beyoncé explora, a partir de cada canção, o que forma e faz parte dessa imensidão, do passado e futuro da população negra.

 

O empoderamento como pessoa e população, o passado formado por línguas e lideres que não conhecemos mais, a religiosidade através do contato com a natureza e uso de objetos religiosos que foram sendo significados de forma diferente pela colonização europeia, o amor próprio que o negro nunca foi incentivado a ter seja pela representatividade que nunca teve ou pela sociedade que sempre associou seus traços e cabelos ao inferior. A retomada de costumes e conhecimento dos seus antepassados, de onde ele veio e a celebração do amor dentro de sua etnia. A espiritualidade negra bem como a realeza de qual seu povo é descendente, reis e rainhas que foram apagados da história mas que vivem dentro de cada um de seus descendentes, e que devem ser sempre celebrados. A riqueza negra que deve ser lembrada e comemorada, riqueza em costumes, fé, dinheiro amor, e tudo o que há.

Todos esses temas e mais são abordados no filme a partir de músicas como  “My Power”, “Brown Skin Girl”, “Mood 4 Eva”, “Keys to the Kingdom”,  entre outras. Músicas essas que são obras que compositores e cantores negros e artistas que trabalham com a questão racial na música. Algumas parcerias retornam como Kendrick Lamar (Nile), Jay-Z (Mood 4 Eva) e novas aparecem, como Childish Gambino (Mood 4 Eva), Major Lazer (Already) e Pharrell Williams (Water).

Entretanto, as colaborações que mais chamam atenção são aquelas que trazem a originalidade e aspecto das músicas africanas como vocais e letras impulsionando, ainda mais que The Gift consiga chegar no seu objetivo e não apenas ser uma representação do que possivelmente se tornaria um projeto com ênfase no afro centrismo. Os cantores nigerianos Mr Eazi, Tekno e Yemi Alade surgem com o afropop,  há hip-hop da Índia com Ninja, a musicista do Mali Oumou Sangaré acompanha Beyoncé em “Mood 4 Eva”, enquanto Salatiel, executivo da música de Camarões, contribui na faixa “Water”. As colaborações são infinitas, seja na composição ou interpretação, mas The Gift só é o que é por cada uma delas. Cada voz e cada individuo, mesmo que não esteja fisicamente presente no filme, dá a ele o tom necessário para que ele ultrapasse um mero álbum visual e seja um álbum visual multicultural.

A ideia de Black is King é interessante, necessária, ambiciosa e inovadora tendo como ponto de vista que ela surge como uma releitura de Rei Leão. Entretanto, o filme não seria muito além de intenções se não houvesse o grande número de colaborações de artistas da música, do cinema e das artes, que vieram de países africanos ou que possuem um arcabouço teórico que casasse com o objetivo do álbum filmado. Desde o lançamento de The Gift até a estreia de Black is King, houve um ano de diferença, um ano que em tela transparece seu imenso trabalho de pesquisa, referências, colaborações e além de tudo uma grande vontade de Beyoncé de traze-lo ao mundo da melhor forma que poderia.

No cinema, já temos inúmeras representações de como o negro pode ocupar o espaço coadjuvante. O coadjuvante engraçado, inteligente, o amigo idiota, o negro mágico, ou vilão. Quando temos protagonistas negros eles vivem de dor, são escravizados, são salvos por pessoas brancas, são hiper-sexualizados, são menosprezados e são geralmente sozinhos, dificilmente um filme possui mais de uma pessoa negra como protagonista. E quando possui, todas elas são escravizadas que lutam para que, pelo menos no fim, possam ter direito a qualquer aspecto de uma vida digna. Narrativas como essa o cinema está cheio e completamente saturado.

Black is King (2020) – Disney+

Em meio a um grande debate sobre quais são os filmes, séries e obras no geral que consumimos e quais são as formas que as pessoas negras são representadas nela, Beyoncé traz ao mundo Black is King. Um álbum filmado que celebra do inicio ao fim a negritude nos mais variados âmbitos e aspectos, cores e formas. Há tristeza? Sim, pois em O Rei Leão há tristeza. Mas se não houvesse, dificilmente acredito que se encaixaria aqui. A artista possui a visibilidade e notoriedade que infelizmente outros grandes artistas negros ainda não possuem na mídia. E mesmo não sendo da área de cinema, especificamente, a artista trouxe uma das melhores obras audiovisuais da atualidade para se debater como a negritude deve ser abordada, principalmente nas telas.

O filme possui inúmeras referências as culturas e aos antepassados da comunidade negra, seja através de pinturas, vestimentas, danças, línguas cantadas, elementos cênicos específicos, penteados e representações. São muitos elementos, uma diversidade que como foi dito anteriormente, sem sombra de dúvidas levou um bom tempo de pesquisa e um grande número de pessoas na equipe para pensar e viabilizar sua execução. Logo, não se sinta obrigado a entender cada um dos elementos ou o que ele representa, mesmo que seja interessante o seu conhecimento viabilizado pela curiosidade.

A mensagem de Beyoncé, de seus colaboradores e sua equipe é clara: Simba passou por tudo aquilo que O Rei Leão apresenta, mas por trás de sua jornada do herói pode haver um grande arcabouço com história que não é feita somente de sofrimento. Uma história rica de detalhes, de raízes, rica em seu passado e quando bem conduzida, pode ser muito empoderadora no futuro.

BLACK IS KING
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RESUMO

Após O Rei Leão (2019), Beyoncé finaliza parceria com a Disney abordando a beleza da cultura negra em Black is King, live-action que animação de 94 merecia.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.