Crítica | Leve e divertida, ‘Love, Victor’ é um abraço confortante em tempos de pandemia

O universo teen vem sendo cada vez mais explorado pelas séries de TV atualmente, entregando uma enxurrada de produtos que tentam obter o mesmo sucesso de algumas já conhecidas, como Euphoria Sex Education, por exemplo. A própria Netflix mostra estar investido nesse gênero, e somente este ano, renovou todas as suas 5 novas apostas para suas devidas segundas temporadas. Isso mostra que investir nesse nicho traz resultados, e diversas plataformas de streaming e canais de televisão estão reagindo a esse estudo, sendo a Hulu (plataforma de streaming americana não disponível no Brasil) uma delas. Love, Victor
Porém, antes de falar de Love, Victor é preciso falar sobre Com Amor, Simone de como ele é importante para o gênero. Lançado em 2018, o filme vai contra o estereótipo de comédias românticas adolescentes, e traz ao protagonismo um jovem gay que se apaixona por um de seus colegas de classe. Por mais clichê que possa parecer a história, ela vai muito além do básico, trazendo profundidade pro protagonista e conflitos internos bastante relacionáveis, além de uma visibilidade extremamente bem-vinda para esse universo que é tão focado em contar histórias de casais heterossexuais.  

A partir disso, foi-se criado o “Simonverse”, que é composto pelo filme, o livro de Becky Albertalli em que foi baseado (Simon vs a Agenda Homo Sapiens), seus derivados (Leah Fora de Sintonia, Os 27 Crushes de Molly Com Amor, Creekwoode agora por Love, Victor.  

A série é ambientada na mesma escola em que Simon (Nick Robinson) estudou no filme, mas agora dando protagonismo à Victor (Michael Simino), um jovem gay latino que se muda com sua família para a cidade e está iniciando seus estudos em Creekwood High. Lá, ele vai se identificar com o legado que Simon deixou, e irá começar a se comunicar com ele por meio de mensagens. 

Love, Victor – 1ª temporada (Hulu)

Simon é uma figura bastante presenta na vida de Victor ao longo da temporada, e a série até mesmo traz Nick Robinson de volta para narrar as conversas entre os dois, além de fazer uma pequena uma aparição em um momento crucial para o personagem. Não só Robinson marca presença, como também Keiynan Lonsdale (o Bram, de Com Amor, Simon) acompanha Victor nesse momento importante de descobertas e entendimentos de sua própria sexualidade. O episódio em questão é um dos mais representativos e importantes, e abre um leque de possibilidades na mente de Victor, mostrando que a comunidade LGBTQ é muito maior e inclusiva do que aquela vista por ele no seu círculo social. 

Um dos pontos fortes da temporada são os personagens secundários, com destaque para Felix (Anthony Turpel), o melhor amigo de Victor. Ele rouba a cena com seu carisma sempre que está presente, além de ser alguém que se mostra estar ao lado do amigo para tudo que der e vier, o que é essencial para uma pessoa que está se abrindo sobre sua sexualidade pela primeira vez. Seu desenvolvimento também chama a atenção, principalmente conforme a temporada vai seguindo e ele consegue mostrar seu lado mais vulnerável.  

Mia (Rachel Hilson) também é uma personagem chave para a série, tanto pelo seu relacionamento com Victor, quanto pelas suas questões e desenvolvimentos pessoais. O convívio em família é bastante discutido, principalmente quando se trata de seu pai estar namorando uma nova mulher. Esse amontoado de informações, ainda mais juntando com o que está acontecendo (ou não acontecendo) entre ela e Victor caem como uma bomba para a garota. Existem controvérsias em relação ao encerramento de seu arco com Victor, mas para evitar entrar no campo de spoiler, há bastante o que se discutir aqui, principalmente a questão do estereótipo de entendimento da sexualidade em produções audiovisuais.  

Apesar dos ótimos personagens secundários, a série deixa de lado a oportunidade de fornecer mais tempo de tela para Victor e Benji (George Sear) juntos. Benji, por ser o interesse romântico do protagonista, acaba sendo deixado de escanteio em muitos momentos, fazendo com que o desenvolvimento do relacionamento deles não seja aprofundado o suficiente. Havia muito o que ser mostrado entre os dois para que a torcida do público fosse ainda mais intensificada, além de Benji ser um personagem extremamente interessante por si só e que acaba sendo um dos poucos que não ganha um background durante a temporada.  

Love, Victor – 1ª temporada (Hulu)

Love, Victor chama a atenção por ser uma das poucas séries atuais com um protagonista LGBTQ, e que, apesar ser uma história leve, consegue discutir a temática com bastante delicadeza e naturalidade, o que é o que sempre deveria acontecer. A trama não procura centrar somente na sexualidade de Victor, mas sim, também, nos seus problemas familiares, que são essenciais para seu crescimento ao longo da temporada. O fato de estarmos acompanhando uma família latina também é bastante relevante. 

Já confirmada para um 2º ano, Love, Victor pode ser um respiro e um abraço confortante nesses tempos de pandemia. Porém, é uma pena que nenhuma plataforma de streaming tenha decidido comprar os direitos de exibição no Brasil, o que nos deixa esperançosos para que isso aconteça em um futuro próximo (e de preferência antes do lançamento da próxima temporada!).  

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.