Crítica | Nova série brasileira da Netflix, ‘Boca a Boca’ traz originalidade através da estética e da reinvenção de um vírus contagioso

Em meio a uma carência de novas produções nacionais devido a pandemia do coronavírus, mostras online e festivais de cinema disponibilizam produções como forma de não deixar o espectador sem novidades do seu país para consumir, além de fazer circular o nosso produto. Entretanto, não é todo mundo que tem acesso, tempo disponível ou possui um maior contato com festivais e exibições online, recorrendo as redes de streaming para um possível entretenimento. Aqueles que possuem uma maior restrição quanto ao assunto de acesso midiático também não precisa se preocupar em ficar sem um novo consumo do audiovisual nacional: Boca a Boca está aí para isso. 

A nova série da Netflix é produzida pela Gullane Entretenimento e criada pelo diretor e roteirista Esmir Filho (Alguma Coisa Assim, 2017), além de ser dirigida também por Juliana Rojas (As Boas Maneiras, 2017). A história se passa em uma cidade pecuarista do interior de Goiás chamada Progresso, local pacato com moradores que se conhecem e vivem em aparente harmonia. Isso até que os adolescentes da região entram em pânico quando são ameaçados por um surto causado por uma infecção contagiosa transmitida através do beijo. Assim, a série explora através do desejo, medo e mistério as redes de conexão e afeto entre os jovens e o vírus desconhecido. 

Uma menina acorda e estranha o fato de não encontrar ninguém ao seu lado na cama. Ao ir até o banheiro, encontra uma outra menina que grita aterrorizada ao ver que possui uma mancha preta em sua boca, assim inicia a trama da série. Com o mistério instaurado desde o princípio, Boca a Boca utiliza seus seis episódios de 30 a 40 minutos de duração para tentar responder as questões que a cena inicial apresenta e desenvolver novos mistérios. Para responder a maior parte das perguntas criadas, a série utiliza o principal meio de comunicação entre jovens atualmente, as redes sociais. O uso dessas mídias pela série é um dos maiores pontos positivos, principalmente pela sua variedade e pela forma como elas são apresentadas durante a trama. As redes fictícias imitam as da vida real como Whatsapp, Youtube e Instagram, cada uma utilizada de uma forma diferente agregando a história um estilo próprio. 

Fran (Iza Moreira), Alex (Caio Horowicz) e Chico (Michel Joelsas) formam o trio protagonista da série, acompanhamos os três na trama que possui um elenco jovem no centro, e é ambientada em uma escola de ensino médio. Progresso é regida por um grupo de pais que se preocupa e controla estritamente a vida dos seus jovens filhos, os alertando e impedindo de possuir qualquer contato com a Seita, povo misterioso que reside próximo a cidade, responsáveis pela produção das festas que direcionam os maiores acontecimentos de Boca a Boca. Após uma dessas festas, Bel (Luana Nastas) que esteve presente com sua melhor amiga Fran, é a primeira vítima acometida pela infecção, assim aos poucos, um a um dos jovens de Progresso que estiveram na festa ou que beijaram alguém que ali esteve é surpreendido pela doença. 

A infecção possui uma série de características que diferenciam os jovens acometidos dos jovens não infectados, entretanto as primeiras que chamam a atenção são as estéticas. Uma mancha preta nos lábios, uma cicatriz neon em forma de raios abaixo da mancha e olhos esbranquiçados, formam o primeiro ponto de diagnóstico. Essas características casam com àquelas presentes nas festas da seita. Enquanto Progresso é uma cidade pacata, tranquila, sem aglomerações, agito e construída a base de tons pasteis e cores acinzentadas, a seita possui um visual completamente diferente e único. Cores neons, estilo visual moderno, músicas eletrônicas e alucinógenos remetem a noção de perigo insistente pelos adultos de Progresso porque é nesse local que os jovens realmente se libertam. A trilha sonora da série se conecta perfeitamente com aquilo que está em cena – seja cena de badalação ou uma cena mais introspectiva – bem como as relações LGBTQ+ que a série aborda não caem no bait rotineiro que costumam aparecer principalmente nas séries teen que buscam por público a todo custo.

Boca a Boca (Netflix)

Assim, com o início do surto do vírus bucal, os jovens correm perigo e estão fadados a infecção após o trio principal traçar o mapa do beijo fazendo o levantamento daqueles que se beijaram na festa, chegando à conclusão de que um grande número de pessoas poderá manifesta-lo. Com o enredo principal instaurado, no qual o trio protagonista tenta entender o que está ocorrendo com eles e seus amigos, há ainda as tramas que são vividas por cada um deles no âmbito pessoal, parte na qual o elenco adulto da série possui maior evidência. Grace Passô vive Dalva, a mãe de Fran, juntas mãe e filha lutam dia após dia para se libertarem da situação submissa em que se encontram. Passô e Moreira fluem em cena de forma natural apresentando os conflitos em casa, debates raciais e com uma união transparente quando precisam ir contra o mundo no qual vivem.  

A conexão entre as atrizes se repete entre os outros núcleos familiares da série. Tomás (Flávio Tolezani) é o pai religioso de Chico, que tenta entender e criar da forma que julga correta os seus dois filhos, Chico e seu irmão caçula, apesar das desavenças e diferenças culturais, nota-se a relação de carinho que há entre os dois. O que já não é perceptível no núcleo da família Nero, Doni Nero (Bruno Garcia) é uma das figuras emblemáticas da série, dono da fazenda pecuarista local, o fazendeiro possui seus segredos e todos os dias protagoniza desavenças com seu filho Alex, vegetariano, sensível e de personalidade totalmente contraria a de seu rigoroso pai. Carminha (Bianca Byington) é o elo que existe entre ambos na luta constante de mediar as situações e conflitos. Apesar de nunca ter a voz final na casa, se mostra preocupada e aberta no relacionamento que constrói com seu filho. Thomas Aquino, o famoso Pacote de Bacurau (2019), também marca a série vivendo um dos empregados da fazenda Nero, o ator protagoniza ainda um dos melhores romances da série.

O elenco mais velho da série não está presente a todo o momento, mas quando estão em cena faz jus ao elenco jovem. Com tramas interessantes e palpáveis, próximas da realidade daqueles que assistem, apesar de não serem protagonistas da trama principal, possuem arcos interessantes de acompanhar e bons personagens, com uma construção coesa que não os tornam supérfluos ou apenas uma mera combinação de poucas características. Cada um possui sua forma de agir diante das situações que vivem em comum (a infecção) com seus filhos, e também naquelas que acometem núcleos precisos. Entretanto, quem rouba a cena do elenco adulto é Denise Fraga, que ao viver Guiomar, diretora da escola, vai desde uma diretora autoritária e nada burocrática que não só invade a privacidade dos alunos, como dita como eles devem viver, à uma mãe preocupada e emocionalmente abalada. Para aqueles que sentiam faltam de ver Fraga na TV, essa é uma oportunidade de ouro para matar a saudade em um dos melhores trabalhos da atriz. 

Lembrando o futuro distópico de outra série nacional da Netflix,  3% (2016), Boca a Boca é uma série de mistério que gira em torno de um grupo de adolescentes, jovens que são completamente diferentes uns dos outros e ainda assim possui uma boa sintonia. Personagens bem escritos e interessantes que se encaixam perfeitamente na trama, tornando prazeroso o caminho de os acompanhar. Cada um com sua personalidade única, vividos por bons atores que espero poder ver em outros projetos futuramente.

Boca a Boca (Netflix)

Os arcos em segundo plano não deixam a desejar a história principal que acompanham, há, entretanto, algumas ressalvas que prejudicam a série. A pecuária é um tema abordado durante todo o segmento de Alex, entretanto quando seu pai ganha uma notoriedade maior através de cunho científico a história parece não se encaixar no que vinha sendo proposto desde então, mesmo que tenha paralelos dentro de sua família, como o fato de sua irmã (Bella Camero) cursar biologia. A história parece ser desconexa com o arco central, além de não acrescentar em nada na história, apenas talvez uma possível abordagem para uma segunda temporada. 

A Netflix já é conhecida por criar histórias sem um final completo deixando arcos em aberto para uma segunda, terceira, quarta e quantas temporadas o capitalismo possa comprar, aqui isso não seria diferente. O que é bacana por um lado deixando possibilidades abertas para novas histórias, acaba deixando o espectador a mercê do inesperado e imprevisível, o que já havia sido muito bem trabalhado na série. É um tanto frustrante para mim que prefere uma certeza do que um possível talvez, pensar que a possibilidade de um final desenvolvido em uma segunda temporada não seja tão bom quanto o que poderia ter sido feito na primeira.

De qualquer forma, o Quarta Parede POP aguarda ansiosamente para que a série retorne e nos responda aquilo que deixou em aberto, até lá, vamos revendo Boca a Boca, que se torna uma das melhores produções da Netflix e uma das mais criativas da atualidade na TV brasileira. 

BOCA A BOCA
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RESUMO

Boca a Boca aborda relações joviais no interior do país quando um vírus misterioso acomete a região, o mistério e o desejo da juventude se destacam.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.