Crítica | ‘Cursed – A Lenda do Lago’ não atinge seu potencial graças a um enredo problemático

Grande foi a expectativa no lançamento de Cursed, A Lenda do Lago, série da Netflix criada pelo famigerado Frank Miller, o que por si só, já é motivo mais do que suficiente para atrair uma legião de fãs para conferir a obra. Partindo de uma premissa bastante simples, onde uma nova versão da história do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda seria contada não pelo jovem Arthur em sua jornada até se tornar um monarca e seus posteriores desdobramentos, mas sim, sob o ponto de vista de uma personagem bastante peculiar e misteriosa, a Dama do Lago, que na história original, tem uma forte relação com a Excalibur.

Antes de mais nada, é preciso definir que esta história não busca em nenhum momento, qualquer fidelidade com a lenda que todos conhecem, ou seja, é uma repaginada total no mito. A protagonista é Nimue (Katherine Langford), uma jovem de uma vila feérica (uma espécie de povo das fadas, composta por pessoas meio humanas, meio criaturas da floresta) com estranhas habilidades relacionadas aos Ocultos, seres místicos da floresta, o que basicamente significa que ela tem poderes que podem controlar as plantas e similares. Esses poderes lhe renderam uma difícil vida em sua vila, o que a tornou uma adolescente rebelde com vários problemas com sua mãe, a sacerdotisa Lenore (Catherine Walker).

O antagonismo principal fica a encargo dos Paladinos a serviço da igreja católica, cuja divisão principal na série é liderada pelo padre Carden (Peter Mullan), que é auxiliado por sua principal arma, o letal Monge Choroso (Daniel Sharman). Mas ainda há outros personagens importantes, como é o caso de Arthur (Devon Terrel), que cede o protagonismo a Nimue, se tornando seu par romântico e aliado, Merlin, o Mago (Gustaf Skarsgård) e Morgana (Shalon Brune-Franklin).

Com efeitos práticos e de computação gráfica interessantes, uma direção de fotografia belíssima, aliada a uma direção de arte que funciona na maioria das vezes (mas que falha miseravelmente em outras), a série até que é divertida em alguns momentos, entregando algumas cenas interessantes, mas que por causa de seus sérios problemas de roteiro, deixa a desejar.

Katherine Langford e Devon Terrell em “Cursed – A Lenda do Lago” (Netflix)

Incapaz de manter um enredo sólido durante todo o tempo, é perceptível a confusão presente na história. O enredo estabelece regras, apenas para quebrá-las de maneira preguiçosa e grosseira. Em dado momento, um dos personagens principais é hostilizado pelos feéricos por ser humano. Na cena seguinte, sua irmã, que também é humana, não sofre nenhuma dessas desvantagens. Muito pelo contrário, em várias cenas, a série mostra ela dando ordens a vários feéricos. Tudo bem que a personagem acaba ganhando um aspecto místico mais tarde, mas ainda assim, esse fato seria impossível de ser percebido pelos personagens secundários.

Mas, talvez um dos momentos mais problemáticos de Cursed é quando um grupo de personagens está encurralado em um moinho por uma horda de paladinos. Os vilões ficam do lado de fora e não invadem o local por causa de dois, no máximo três arqueiros nas janelas do moinho. Mesmo assim, um garotinho (que em outros episódios, mais parece possuir poderes de invisibilidade de tão fácil que invade acampamentos guerreiros treinados), consegue entrar no moinho. Na mesma cena, os vilões resolvem por algum motivo inexplicável, negociar com os mocinhos, mesmo estando com todas as vantagens (ok, vamos supor que talvez fosse interessante para os vilões pegá-los vivos, o que na cena seguinte entra em contradição graças aos esforços dos paladinos para matá-los). Depois, os vilões começam a atirar flechas incendiárias, deixando a pergunta: “Por que eles não usaram essas flechas logo no começo se já estavam com elas?”. A resposta, é claro, é porque era conveniente para o roteiro, para que desse tempo para que eles fossem resgatados por aliados.

Quanto a protagonista, pode-se notar o talento de Langford, a estrelas de 13 Reasons Why, mas com um roteiro manco, fica difícil para o público compreender a personagem, já que nem mesmos os roteiristas parecem fazê-lo. No início, ela começa como uma adolescente tímida amedrontada, mas que depois com o poder da espada, se torne uma guerreira implacável e que alguns episódios depois, acaba se tornando uma líder nata (em uma tentativa mal-sucedida de torná-la uma Daenaerys de Game of Thrones), inclusive entregando uma frustrante cena de monólogo de motivação de tropas. Logo em seguida, ela começa a tomar uma decisão errada após a outra.

Os próprios poderes e magias entram em contradição várias vezes, chegando ao ponto de o público não compreender de fato como funcionam os poderes da personagem, bem como os da espada, deixando aquela sensação de “é misterioso e pronto”.

Gustaf Skarsgård como Merlin em “Cursed – A Lenda do Lago” (Netflix)

Um dos personagens melhor desenvolvidos (dadas as devidas proporções, já que tudo é subaproveitado nessa série) é a composição de Merlin, mas é difícil definir se o personagem é mesmo bem escrito ou só a composição realizada pelo excelente Gustaf Skarsgård é que torna o personagem interessante. O protótipo de rei Arthur até se esforça, na pele do carismático Devon Terrel, mas o personagem fica meio avulso na grande maioria das situações, o que acaba por ofuscando-o em alguns momentos.

A própria trama também é bastante confusa, com dois exércitos que ficam disputando tramas, mas não entram em combate nenhuma vez, mesmo seus acampamentos estando extremamente próximos. No mais, enquanto a série tenta dar a sensação de urgência por causa da eminência do extermínio dos personagens, vários personagens importantes e decisivos ficam de bobeira nos acampamentos, bebendo vinho e esperando algo acontecer.

Na ânsia por representatividade feminina (o que por si só é uma excelente iniciativa), o roteiro abusa de clichês e cenas fraquíssimas. Dolorido também é ver alguns pontos negativos na já citada direção de arte, com maquiagens de criaturas místicas que tem chifres que são obviamente falsos, dobrando feito plástico conforme o personagem se mexe.

Olafur Darri Olafson em Cursed – A Lenda do Lago” (Netflix)

Outro fator negativo é o fato de vários personagens apresentados, na verdade, possuem apelidos e quando revelam seus nomes, se mostram como importantes personagens da Lenda do Rei Arthur.

Cursed – A Lenda do Lago tem cenas interessantes e uma premissa muito divertida, mas com um roteiro problemático que prejudica a composição da série. Mesmo assim, vale a assistida, mas não pode ser comparada com a sua equivalente de fantasia medieval recente da Netflix, a excelente The Witcher.

CURSED – A LENDA DO LAGO
2.5

RESUMO

Roteiro confuso e aspectos técnicos desequilibrados prejudicam Cursed – A Lenda do Lago, nova série de fantasia da Netflix estrelada por Katherine Langford.

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Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...