Crítica | ‘As Telefonistas’ querem salvar Deus e o mundo em sua temporada final

A premissa de As Telefonistas (Las Chicas del Cable), é muito interessante. Quando estreou, lá em 2017, com sua vibe mais novelesca, a história de Lidia (Blanca Suárez), Marga (Nadia de Santiago), Carlota (Ana Fernández) e Angeles (Maggie Civantos) conseguia prender pela dinamicidade, pelo caráter dúbio da personagem principal e também pelos romances não conto de fadas que contava (mostrando como os relacionamentos podem ser complicados por vários motivos).

Assim, toda a ambientação na empresa de telefonia da Espanha, principal cenário da história, era um convite à série, uma maneira de conhecermos a fase do mundo em que as telecomunicações estavam começando a evoluir.

No entanto, à medida que as novas temporadas foram chegando, tudo começou a degringolar, a começar pela saída de Maggie Civantos do elenco – como discorri longamente em minha última crítica sobre As Telefonistas – e a última temporada deu o golpe final na história, que já agonizava há bastante tempo. E que final pífio.

As Telefonistas justiceiras

O espírito da série sempre foi muito claro desde o início, querendo prestar uma homenagem às mulheres que lutaram pela igualdade, sofreram e morreram por isso (verdadeiras heroínas da vida real), o que é muito louvável. Não tiro seu mérito quanto isso.

Por outro lado, o que aconteceu nessa última temporada foi que os criadores desfizeram Lidia e suas amigas, transformando suas personagens – que retratavam as mulheres citadas acima – em justiceiras que querem salvar Deus e o mundo. Se a intenção fosse a de contar a história de quatro Dianas, a Mulher-Maravilha (sendo que Angeles foi substituída pela apática Sara/Oscar (Ana Polvorosa), estaria tudo certo, mas não foi o caso, o que tornou tudo realmente ridículo.

As Telefonistas (Las Chicas del Cable) – Netflix

Outros erros também contribuíram para o final ruim de As Telefonistas

Mas não foi só isso o que estragou As Telefonistas. A sequência dos acontecimentos também foi muito forçada, sendo que:

  1. A vida de Francisco e Lidia na América

Como foi a vida deles depois de deixarem a Espanha? Onde trabalhavam? Do que viviam? Nada disso é mostrado e senti falta.

  1. A guerra espanhola foi pessimamente retratada;

A guerra espanhola foi um momento terrível da nossa história que praticamente destruiu a Espanha, mas é tratada com muito desleixo. O que mais acontecia na série era o barulho de um avião, seguida por uma corrida bem tranquila para algum porão e então a explosão de uma bomba ao longe e uma poeirinha que caia em cima da cabeça dos personagens, sendo que nesse meio tempo a conversa que tinha sido interrompida continua sem qualquer estresse.

  1. Francisco deixa Lidia voltar sozinha para a Espanha de Franco;

Isso não tem qualquer justificativa. Se Lidia queria salvar Sofía, esse seria mais um motivo para ela querer o maior número de pessoas ajudando, inclusive seu marido e pai de criação da garota! Tal fato só reforça minha teoria sobre a Mulher Maravilha.

  1. Carmem diretora de um presídio feminino? Oi?

Nessa parte eu ri muito! Mesmo que durante a guerra Carmem tivesse perdido tudo, ela fora uma das mulheres mais ricas da Espanha e contatos não lhe faltavam, o que tornava seu destino mais óbvio o de ter sido a primeira a sair do país para se salvar. É claro que, consequentemente, ela sairia também do seriado, mas pelo menos seria mais coerente.

Mesmo assim, ainda que aceitemos que Carmem continuou na trama, não podemos esquecer que ela estava doente (muito doente!), tanto que chegou a raptar Eva para tentar se salvar (com o sangue da menina). Mas, milagrosamente, somente para manter a pior inimiga de Lidia na história, a velhinha ressurge totalmente recuperada como diretora de um presídio feminino (chega mais, deus ex-machina) e não um presídio qualquer: é o exato local onde Lidia vai parar.

  1. A demora no salvamento de Lidia

É sério que Francisco demorou sete meses para descobrir que era necessário somente um documento para tirar Lidia da prisão? Ademais, o fato de ele ter conseguido o dinheiro para subornar o homem que conseguiria tal documento tão depressa (numa aposta de corrida de cavalo), mostra como as coisas poderiam ter sido muito mais dinâmicas.

  1. Lidia foge da prisão, mas Carlota, Marga e Sara/Oscar entram

Aí já deu preguiça, né? Numa fuga bem mais ou menos da prisão, Lidia sai da cadeia no mesmo momento em que Marga entra e logo em seguida, chegam Carlota e Sara/Oscar também. E o que acontece? Agora elas vão abrir mão de tudo – inclusive de seus próprios filhos, no caso de Lidia e Marga – para salvar as detentas que acabaram de conhecer.

  1. A epidemia de tifo

Nem comento sobre a epidemia de tifo – uma doença terrível e letal – que assolou o presídio feminino e que, por alguma graça não matou ninguém.

  1. A fuga da Espanha

Em que mundo o plano de fuga do presídio feminino que foi bolado pelas extelefonistas funcionaria? Não no nosso, com certeza! E a história já não ia bem para que perdoássemos esse total non sense, até porque As Telefonistas não é um seriado de fantasia.

  1. Felipe

Felipe padre??? Meu Deus! Preciso falar alguma coisa?

  1. Quesitos técnicos

Talvez os quesitos técnicos sejam a única coisa que não deu ruim na série. O figurino e a composição dos cenários sempre foram um ponto forte de As Telefonistas, fazendo com que nos sentíssemos realmente na Espanha da primeira metade do século passado, mesmo com as cores vivas que usou sem medo. Nada a reclamar da trilha sonora também, tirando, talvez, a música de abertura que, em minha opinião, nunca combinou com o seriado.

E não é demais notar que a beleza das protagonistas também foi uma das apostas dos criadores.

Blanca Suárez na terceira temporada de As Telefonistas” – Netflix

Enfim…

Eu poderia citar muitos outros detalhes que tornaram pífio o final dessa série, que começou tão bem. Nem os super-heróis conseguem salvar todo mundo das falhas da sociedade e, mesmo que exista algum tipo de redenção na homenagem às mulheres fortes que as quatro amigas representam, os sete motivos que citei acima (e outros que deixei de lado) não deixam que As Telefonistas sejam salvas e as últimas temporadas sejam consideradas boas.

Enfim, chegamos ao final de mais uma obra espanhola e, nesse caso, digo que ainda bem! Mais uma temporada e os criadores teriam que transformá-la em uma série de fantasia para que se tornasse “assistível” e, então, veríamos Lidia, Marga, Carola e Angeles e até Sara/Oscar voando por aí. Aliás, seria até melhor!

AS TELEFONISTAS – TEMPORADA FINAL
1.5

RESUMO

Desconstruindo totalmente suas protagonistas, As Telefonistas entregou um desfecho caricato para sua história em sua temporada final.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.