Crítica | ‘The Lodge’ se revela como um terror psicológico e perturbador

Uma pergunta gira em torno dos amantes do cinema de gênero: o que se precisa para fazer um bom filme de terror? Precisa possuir elementos sobrenaturais? Precisa haver assassinos sanguinários ou o bom e velho gore? The Lodge vem para provar que todos esses elementos são bons, mas não necessariamente essenciais para uma boa história.

Responsáveis também pela direção de Boa Noite, Mamãe (2014), o diretores Veronika Franz e Severin Fiala reafirmam seus traços de assinatura, entregando um excelente thriller. A premissa conta a história de uma família em um momento de crise. Quando o pai de família (Richard Armitage) informa que vai deixar a esposa (Alicia Silverstone) para se casar com outra mulher, uma tragédia acontece. A mãe de família, já deprimida por causa da crise, simplesmente saca um revólver e se suicida, chocando a todos.

A fim de tentar reconectar sua família e inserir sua nova parceira, Grace (Riley Keough), em um relacionamento com seus filhos Aidan (Jaeden Martell) e Mia Hall (Lia McHugh), Richard resolve deixá-los sozinhos em uma cabana no meio das montanhas congeladas (uma decisão no mínimo duvidosa) por alguns dias.

Sozinha com a dupla de crianças na cabana, Grace tenta se conectar com elas, porém, as crianças a odeiam e os problemas começam a acontecer. A partir daí, o filme começa a flertar com o sobrenatural, fazendo com que a mulher comece a duvidar de sua sanidade mental, arriscando a sua vida e a de seus enteados.

Alicia Silverstone
Alicia Silverstone em ‘The Lodge’ (2019)

A direção da dupla Franz e Fiala é extremamente minuciosa, especialmente no que se trata dos simbolismos. Um dos principais traumas das crianças é o fato de eles serem católicos e acreditarem em céu e inferno, e dessa forma, o sofrimento pela perda da mãe se torne algo ainda mais doloroso, uma vez que de acordo com a bíblia, praticantes desse ato perdem o direito a entrar no paraíso. Interessante o paralelo que os diretores traçam na cena do velório em que todos os entes da falecida soltam balões pretos com gás hélio para que flutuem aos céus, mas o balão de Mia, que estava preso à sua boneca (vestida com as roupas da mãe e portanto representando-a) não suba por causa do peso, descendo imediatamente ao chão, simbolizando o fato de a mãe da menina provavelmente ter ido para o inferno.

Outras referências podem ser vistas no uso de uma maquete, muito similar aos simbolismos utilizados em Hereditário (2018), o que é bastante pertinente uma vez que ambos os filmes tem como base de sua trama os dramas de uma família enlutada. A dualidade é outro elemento recorrente na filmografia dos diretores, pois, não se sabe quem são os verdadeiros vilões. Se são as crianças ou a madrasta.

A forma como os diretores filmam as cenas também é bastante estratégica e podemos ver isso nas primeiras cenas em que Grace aparece, pois as câmeras não a revelam logo de cara e sim, vai mostrando-a sempre atrás de vidros ou em enquadramentos que não a evidenciam, algo bastante semelhante com a forma que utilizaram para introduzir a personagem da mãe em Boa Noite, Mamãe. Essa fórmula de mostrar todos os personagens normalmente, mas entregando aos poucos personagens específicos, deixa claro para o expectador que algo está errado com esse personagem e que o mistério que a trama irá desvendar diz respeito diretamente a ele.

Outro fator bastante presente em The Lodge e que não agrada a todos os públicos é o ritmo mais lento da projeção. Desagrada porque para o público acostumado a jumpscares e ação desenfreada, daí pode parecer que nada está acontecendo na tela. Porém, está. Estão acontecendo muitas coisas.

Riley Keough , Jaeden Martell e Lia McHugh em ‘The Lodge’ (2019)

A direção de fotografia, baseando-se em tons frios para se conectar com o cenário congelado, aposta no uso inteligente de luz natural, criando cenários escuros. Os enquadramentos muitas vezes se assemelham com os utilizados em Hereditário, fazendo parecer que os personagens estão vivendo dentro de uma maquete.

Quanto a atuação, todo o elenco está muito bem alinhado, mas o destaque fica realmente para Jaeden Martell, que consegue imprimir em suas feições, nuances interessantes que chegam a enganar o público em vários momentos e, claro, a Riley Keough, que demonstra com seus olhares o gigantesco sofrimento que a personagem está passando, mesmo não exteriorizando a todo momento tudo o que sente. O público é capaz de sentir sua confusão de emoções até o momento em que ela ‘quebra’ por dentro e assume uma postura mais robótica e sem sentimentos, uma incógnita para quem deseja desvendá-la.

The Lodge é um suspense tenso, com reviravoltas impressionantes e um final impactante. Uuma excelente pedida para os amantes de filmes de suspense, terror e intensos dramas familiares.

THE LODGE
4.5

RESUMO

Apostando no terror atmosférico e cheio de simbolismos, The Lodge se configura como um dos bons filmes de terror e suspense da safra atual.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...