Os simbolismos de Dark

Contém alguns spoilers da terceira temporada de Dark

A terceira temporada da produção alemã Dark, distribuída pela Netflix, estreou nesse sábado e está repleta de simbolismos que só fazem enriquecer ainda mais a trama. Desde seu início, observam-se alegorias que tendem a abrilhantar ainda mais a série, além de contribuir para sua construção de sentido. Confira abaixo:

A Triquetra em Dark

O símbolo é geralmente utilizado por várias culturas pagãs e pode significar o infinito das três dimensões ou eternidade. Esta representação, que constantemente aparece nos episódios, é uma pista, inclusive, para o final da série, em que um novo mundo é apresentado, formando as três existências paralelas. Além disso, também é comumente associada às ideias de vida, morte e renascimento, assim como ao passado, presente e futuro, o que tem tudo a ver com a história.

Tábua de Esmeralda

A Tábua de Esmeralda é um texto escrito por Hermes Trismegisto, conhecido por originar a alquimia. Este conteúdo revelaria informações sobre uma “substância primordial”, algo que estaria presente em todas as formas de vida do Universo. Essa imagem evoca as expressões matéria escura e partícula de Deus, também expostas na série, para indicar a viagem no tempo. No universo sombrio de Dark, é justamente o deslocamento temporal que possibilita a criação da vida, já que os personagens estão sempre indo e vindo entre passado e futuro e todos são parentes, de alguma maneira.

Dark e o Ouroboros

O termo remete ao objeto presente na caverna onde se encontra o buraco de minhoca de Winden. É retratado por uma serpente que morde o próprio rabo, expressando o estado cíclico das coisas e referenciando a teoria do “Eterno Retorno”, de Nietzsche.

Nietzsche e o eterno retorno

O conceito de “eterno retorno”, cunhado pelo filósofo Friedrich Nietzsche, sugere que toda a energia e existência do universo sempre foram recorrentes e estão fadadas a continuar ocorrendo da mesma forma infinitas vezes. A teoria propõe que há um padrão cíclico orientando os eventos da Terra. Esta filosofia de Nietzsche está carregada em toda a lógica de Dark, visto que todos os acontecimentos exibidos desencadeiam-se de novo e de novo e os indivíduos envolvidos tornam-se escravos desse ciclo inescapável. Por exemplo, Jonas (Louis Hofmann) mais novo não pode se matar porque seu eu mais velho já existe, então sempre algo ou alguém o impedirá de tirar sua vida.

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Simbolismos bíblicos de Dark

Além desses símbolos, a série está impregnada de símbolos bíblicos do Antigo Testamento. Na terceira temporada, tais concepções estão ainda mais explícitas, trazendo uma maior essência à coerência da trama. Esta narrativa tão antiga se manifesta, inclusive, na maior parte dos títulos dos episódios. Adam e Eva, A Origem, Vida e Morte, Luz e Sombra, O Paraíso.

Apesar de nenhuma religião ser mencionada durante toda a série, os personagens parecem estar em um eterno combate contra um deus: o tempo. É em volta dele que outras noções são introduzidas como, por exemplo, o Apocalipse, que nada tem a ver com o fenômeno sucedido na Bíblia, mas com a explosão de uma usina nuclear.

Também, muitos indivíduos justificam seus atos pelo desejo de alcançar o Paraíso, sujo significado muda de acordo com o ponto de vista. Paraíso pode emblemar luz ou sombra, ou seja, a presença ou ausência do real. Para Adam, o cessar da existência e do sofrimento configuraria a ideia do Paraíso. Já para Eva, seria a continuidade do ciclo e, portanto, da vida.

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Adão e Eva

Os próprios nomes Adam e Eva aludem ao Adão e Eva bíblicos, responsáveis pela geração da humanidade. O filho deles, na série, representa a Gênesis, ou seja, o início de tudo e todos. É dele que toda a árvore genealógica da obra é criada — as famílias Doppler, Nielsen, Tiedemann e Kahnwald.

Jonas e Martha (Lisa Vicari), muitas vezes, são descritos como “errados” e as causas do próprio Apocalipse, como se suas existências desobedecessem as leis da natureza. Evitando seus próprios nascimentos estariam também impedindo este erro, quase um pecado, e salvariam a todos. Essa ideia também traz muito ideias cristãs como pecado, morte e inferno.

Na sala de Adam, há a presença de um cesto cheio de maçãs, evocando à primeira tentação humana feita através da ingestão da fruta. A existência das maçãs ali, em abundância, é quase que uma provocação à fé e uma exaltação à ciência e ao conhecimento.

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Dark está repleta dessas sutilezas que trazem à tona as oposições e conflitos entre fé e razão, ciência e religião. Os personagens, ao mesmo tempo em que cultuam o conhecimento, a sabedoria e a compreensão das coisas, também perseguem incessantemente um Paraíso. Ou seja, um lugar, quase utópico, onde não existiria dor e sofrimento e ninguém precisaria morrer. Essa dicotomia é muito evidenciada com o final da série, pois vemos que o grande motivador do nó foi o amor. O relojoeiro H. G. Tannhaus (Christian Steyer) utilizou da ciência e tecnologia para concretizar um sentimento tão simples e cru da humanidade.

Confira a nossa crítica sem spoilers da terceira temporada de Dark

Confira a nossa crítica com spoilers da terceira temporada de Dark

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"