Crítica | 3ª temporada de Dark encerra bem o ciclo e surpreende (com spoilers)

* Este texto contém spoilers sobre uma terceira e última temporada de Dark. Confira aqui nosso texto sem spoilers.

O homem é livre para fazer o que quiser, mas não é livre para querer o que quer. Com esta frase, inicia-se o último ciclo de Dark , produção alemã que bugou todo cérebro que se dispôs a entendê-la desde sua estreia em 2017. A sentença norteia uma das grandes questões da série referente à existência ou não do livre arbítrio. Somos livres em nossas escolhas ou destinados a um caminho? Quanto mais fundo adentramos no universo sombrio de Winden, mais compreendemos que seus habitantes estão condenados a uma espécie de circuito interminável de causa e efeito.

Relembrando Dark

O mistério é introduzido com o desaparecimento de Mikkel Nielson (Daan Lennard) que, ao atravessar o buraco de minhoca presente na caverna, viaja trinta e três anos para o passado e se torna Michael Kahnwald (Sebastian Rudolph) — pai de Jonas Kahnwald (Louis Hofmann). Com isso, o laço existente entre as quatro famílias — Nielson, Kahnwald, Doppler e Tiedemann — e os segredos que as rodeiam começam a ser apresentados. Paralelamente, um Jonas adulto (Andreas Pietschmann) retorna ao passado para guiar seu eu mais novo. Desenvolve-se, então, uma teia confusa e inteligente comprometendo os personagens em outros tempos e a relação inevitável de causalidade entre os mesmos.

Na segunda temporada, assistimos ao Paradoxo de Bootstrap, em que objetos e informações podem existir sem terem sido criados, levado às últimas consequências. A revelação de que Charlotte (Stephanie Amarell / Karoline Eichhorn) é mãe e filha de Elisabeth  (Carlotta Von Falkenhayn / Carlotta Von Falkenhay) — e vice e versa — expõe a impossibilidade de determinar quem veio primeiro. Jonas tenta evitar o Apocalipse, provocado pela explosão na usina nuclear da cidade, que matará seus amigos e família. E quando começávamos a entender um pouco melhor as viagens e a circularidade temporais, a série insere um novo componente: um outro mundo (que chamaremos de Mundo B e o primeiro — que conhecemos durante a primeira e segunda fase — de Mundo A).

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Mundo A e Mundo B

A terceira parte inicia-se com Jonas viajando para essa segunda dimensão (Mundo B) com a missão de encontrar uma Martha (Lisa Vicari) mais jovem (cabelos compridos) e a conduzir pelo portal da caverna até o futuro, onde ela depara-se com seu eu adulto e uma terra destruída pelo evento de 27 de Junho de 2020. Enquanto isso, a Martha que vimos ao final da segunda temporada (um pouco mais velha e de cabelos curtos), vai para o passado do Mundo A, para onde Jonas adulto, Bartosz (Paul Lux), Francesca (Gina Alice Stiebitz) e Magnus (Moritz Jahn) viajaram antes do Apocalipse. Ao conhecê-los, a Martha do Mundo B revela que guiou Jonas mais novo ao seu próprio mundo. E aí, a surpresa: Jonas adulto não lembra desse fato.

Nessa altura, deduzimos que a lógica até então aplicada seria expandida, acrescentando ainda mais genialidade e complexidade à trama. A introdução de uma nova teoria da mecânica quântica é o grande ponto de virada da série. Um novo código de percepção é proposto para resolver o intrincado nó imposto aos personagens. O experimento do Gato de Schrödinger considera um gato que está dentro de uma caixa com partículas radioativas que podem se difundir ou não, ou seja, o animal pode morrer ou não, existindo, ao mesmo tempo, nessas duas condições: vivo e morto. Uma sobreposição simultânea de realidades diferentes.

Teoria do Gato de Schrödinger e realidades sobrepostas em Dark

É isto que acontece com Jonas e Martha no momento do Apocalipse. Então, agora temos: vários tempos, dois mundos (Mundo A e B) e linhas de realidade que existem paralelamente. Na primeira realidade, Martha aparece ao final da segunda temporada e leva Jonas (Mundo A) para sua dimensão (Mundo B). Na segunda, a Martha e o Jonas que não se encontram neste momento. Isso porque Bartosz do Mundo B impede Martha antes que ela viaje com Jonas, que entra no armário para se proteger da explosão (e segue o caminho que já conhecemos).

Essa mudança de rumo dos protagonistas indica um fator que se mostra na série desde seu início: as duas forças “superiores” que estão sempre influenciando e manipulando as peças no tabuleiro para favorecer seus interesses. Luz e Sombra, Adam (Dietrich Hollinderbäumer) e – agora sabemos – Eva (Martha idosa). Idas e vindas no roteiro deixaram sempre a dúvida de quem era do Bem e quem era do Mal, mas é somente na terceira temporada que concluímos a irrelevância dessa dicotomia. Não existe o negativo e o positivo, há apenas corpos escravos do tempo que, ao tentar vencê-lo, continuam movimentando-se da mesma forma de novo e de novo. Estes personagens estão fadados a perseguirem um ideal ano após ano, sem controle algum de suas escolhas.

A Martha que aparece ao final da segunda temporada e leva o Jonas para seu mundo é a Martha manipulada por Adam e que acaba destruída pela força da matéria escura. Assim como esse Jonas é o que termina morto com um tiro. Porém, em outra realidade, temos a Martha e o Jonas que são frutos das decisões de Eva. É a Martha que tem a cicatriz no rosto e cresce para se tornar Eva. E o Jonas que não viaja para o Mundo B, mas fica anos com Claudia (Julika Jenkins / Lisa Kreuzer), Noah (Max Schimmelpfennig / Mark Waschke) e Elisabeth numa Winden pós-apocalíptica tentando recriar a partícula de Deus e estabelecer um portal entre tempos. Esse Jonas (do Mundo A e dessa segunda realidade) é o que, em determinado momento, viaja para guiar seu eu mais novo (os eventos que vimos na primeira temporada).

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Luz e Sombra

A terceira parte de Dark são os bastidores de cenas que já testemunhamos antes. São as coxias, as engrenagens, que moveram os personagens para uma ou outra direção. É muito interessante observar os fatores responsáveis pela transformação do Jonas em Adam e da Martha em Eva, como eles tornaram-se as pessoas que juraram jamais virar. É impossível escapar ao tempo, ele é o único Deus governante. Contudo, nessa história, o paraíso nada tem a ver com a divindade e sim com a libertação dela. Para Adam, este lugar de “paz” eram as trevas (Sombra), pois só o cessar da existência seria o fim do sofrimento. Sua motivação era destruir a origem e, assim, suas ramificações. Para Eva, tudo precisava ocorrer como sempre (Luz). Todos precisavam morrer para viver em um novo ciclo. Seu estímulo era o amor pela mesma suposta origem que Adam tentou incessantemente aniquilar, seu filho.

Esta curiosa figura, que se desloca em três – passado, presente e futuro – surge interferindo em várias situações para que estas, de fato, aconteçam. Descobrimos, inclusive, que ele é o grande responsável pelo próprio Apocalipse, tanto no Mundo A quanto no B. Além disso, o filho de Martha e Jonas, é a gênese de toda árvore genealógica da trama. Ele é o gerador de tudo e todos nas duas dimensões, uma simetria inteligente com a bíblica história de Adão e Eva como progenitores da humanidade. Em resumo, todo mundo é parente em algum nível. No entanto, a origem do tal nó tão falado, causador da inevitabilidade de todos os acontecimentos, não é este indivíduo.

Manifesta-se, portanto, o terceiro fragmento que faltava. O número três emerge constantemente, mas ficamos presos à uma dualidade de pensamento a que estamos acostumados. Existe uma terceira força influenciando os personagens, além de Adam e Eva: Claudia. A mesma Claudia que desvenda o verdadeiro princípio de tudo: um terceiro mundo, o original, que concedeu vida aos outros dois e, consequentemente, ao confuso e implacável nó.

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Terceira parte e o entretempo de Dark

Assim como Adam e Eva, Claudia também tinha sua própria motivação: impedir a morte de sua filha Regina (Lydia Maria Makrides / Deborah Kaufmann). Em suas andanças por entre tempos e mundos, percebeu que a única maneira dela viver seria no cosmos originário. Para isso, Jonas e Martha, os responsáveis pelo infortúnio temporal dos Mundos A e B, precisariam viajar até este universo primário e impedir o evento que desencadearia a geração dos dois mundos alternativos. A resposta estava o tempo todo no relojoeiro H.G. Tannhaus (Arnd Klawitter / Christian Steyer) que, ao perder o filho, nora e neta, constrói um aparato para voltar ao passado e os salvar. Em 1986, ao acionar tal tecnologia, ele destrói e divide seu mundo em dois (Mundo A e Mundo B).

Claudia descobre que, em determinado momento do Apocalipse, o tempo para e é justamente esse entretempo que possibilita realidades paralelas. Pois é nesse mesmo instante que Jonas do Mundo A e Martha do Mundo B criam uma terceira realidade, sobrepostas às outras duas (Uma em que a Martha leva o Jonas para seu mundo e a outra em que não o leva), em que saltam para a dimensão original e impedem a criação da viagem no tempo e de si mesmos.

Neste mundo inicial, somente alguns personagens existem, aqueles que não faziam parte do nó. Os outros eram apenas efeitos de um câncer incitado pela dor do luto do relojoeiro. Assim como também foi o luto que motivou Claudia a solucionar todo o mistério. É um final surpreendente e bonito para pessoas que vimos sofrer de formas terríveis tantas vezes. Finalmente, há uma vida para Regina. Observamos agora os seres que se mantiveram quase como figurantes tornarem-se os protagonistas, donos de suas próprias histórias e felizes. Ainda com a esperança de que, talvez, Jonas e Martha possam vir a ficar juntos no futuro.

Dark – 3ª temporada (Netflix)

Fios soltos?

A terceira temporada de Dark não é perfeita e é consideravelmente mais lenta que a segunda, mas um serviço aos fãs que desejavam compreender como tudo aconteceu. Apesar da genialidade da teoria do Gato de Schrödinger, esta tem um quê de Deus ex machina ao cair como uma luva para resolver o grande problema da série. Além disso, algumas questões parecem ter ficado meio perdidas, como por que Jonas não existe no mundo B se Martha existe no Mundo A? Como, exatamente, a Claudia descobriu a existência de um mundo original?

Cuidado com os detalhes

Mesmo assim, são óbvios a sagacidade e o cuidado com que a obra foi construída. Os cenários espelhados do Mundo A e B, o paralelismo em tela das duas dimensões explicitando a inevitabilidade dos eventos, suas cores e cenários sombrios, enquanto o mundo original era um pouco mais colorido e saturado. A atenção na escolha de atores parecidos entre si para representarem passado, presente e futuro. A dedicação aos mínimos detalhes, tanto estéticos quanto do roteiro. A presença de simbolismos. A inserção de temas tão relevantes à existência humana, que referenciam à ciência e à fé, suas oposições, contradições e similaridades. Estes são alguns dos argumentos que fizeram de Dark uma das maiores produções dos últimos tempos, categorizada como uma verdadeira obra prima do audiovisual. Sutil e ambiciosa, genial e complexa e, ao mesmo tempo, simples e íntima ao tratar de sentimentos tão comuns e identificáveis a todos, como o amor e a dor da perda.

Depois dessa incrível jornada, resta uma dúvida: será que Jantje Friese e Baran bo Odar criaram Dark ou seus eus do futuro lhes entregaram a história pronta, sublime e sem brechas, sem nenhum criador específico?

DARK – 3ª TEMPORADA
4.5

RESUMO

Terceira e última temporada de Dark encerra muito bem o ciclo e surpreende, apresentando novos e impressionantes desdobramentos.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"