Crítica | Roteiro fraco é maior que tubarão em ‘Piedade’

Anunciado há mais de cinco anos atrás, Piedade, de Cláudio Assis, é um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos, principalmente por possuir em seu elenco grandes nomes do cinema brasileiro. Alguns iriam contracenar juntos pela primeira vez como Fernanda Montenegro e Irandhir Santos, outros iriam se reunir novamente como Montenegro e Matheus Nachtergaele que trabalharam juntos em O Auto da Compadecida (1999). Cauã Reymond e Gabriel Leone integram ainda o elenco como parte de atores mais conhecidos por novelas, que começaram a explorar o cinema nos últimos anos.

O longa acompanha os moradores da fictícia cidade de Piedade, que possui sua estrutura abalada quando uma grande empresa petrolífera decide expulsar todos de suas casas e empreendimentos para ter melhor acesso aos recursos naturais. 

Exibido no Festival Itaú de Cinema Online, o longa mostra a família de Dona Carminha, vivida por Fernanda Montenegro. A matriarca é dona de um restaurante à beira mar, seu filho Omar (Irandhir Santos) cuida dos negócios com a mãe na cidade, resistindo assim aos interesses do empresário Aurélio (Matheus Nachtergaele) de comprar as terras pertencentes à sua família. O drama se instaura então a partir dos interesses divergentes dos personagens, que possuem suas percepções e críticas quanto a forma como as grandes empresas funcionam, lucrando às custas das terras de pequenos produtores. 

Piedade já não é a mesma que era antes, desde a mudança ambiental seus mares são conhecidos pela presença de tubarões, e os banhistas já não utilizam mais o local para uso pessoal, bem como o próprio restaurante não o utiliza para pesca, os produtos que são vendidos no lugar são comprados de fora. Sandro (Cauã Reymond), o solitário dono de um cinema pornô, cai de paraquedas na trama, possuindo um vínculo muito improvável com a família da matriarca. Seu filho, Marlon Brando (Gabriel Leone), é um ativista que luta contra as grandes corporações através da militância. 

Com um grupo de amigos, o jovem grava vídeos e se arrisca ao entrar no mar para protestar contra a Petrogreen – empresa em que Aurélio trabalha – e os grandes homens de negócio, ditos tubarões. Assim, Assis tece o fio que irá correr por baixo do drama familiar inicial, a crítica a corporação petroleira, a forma como eles atingem o meio ambiente e principalmente as custas de quem. O concreto e as cidades engoliram tudo o que puderam, e até nos dias de hoje, tentam engolir aquilo que ainda resta. Não à toa, a empresa de Aurélio pretende transformar as terras onde reside a família de Montenegro, dando início a mais uma apropriação de terra pelos grandes negócios. 

Fernana Montenegro e Irandhir Santos em Piedade (2019)

Apesar das críticas que Assis quer tecer, o filme parece não conversar os dois pilares que ergue. As ideias, construídas inicialmente como o objetivo central do filme, se perdem quando o drama familiar cresce e ganha protagonismo. A forma como as famílias de Omar e Sandro se conectam torna-se o centro, e apesar de ainda haver o tom crítico, as ideias não possuem uma combinação harmônica, o que acaba quebrando o filme. As críticas são inúmeras: ao sistema capitalista, aos ideais traçados pela burguesia, e à sujeira carregada na sociedade, mesmo por aqueles que julgamos conhecer; entretanto, ao mesmo tempo em que são apresentadas, as mesmas parecem vazias, sem um fundamento maior além de si mesmo.

O tom crítico que faz pensar e as perguntas que o diretor faz ao público são válidas, entretanto óbvias e piegas na forma como são feitas. Metáforas através do jogo de câmera que parece pouco e tímido perto do que já foi feito por Assis no passado. O desconforto que o diretor conseguia causar através dos seus filmes, em Piedade, não faz cócegas. Entretanto, as locações utilizadas sobrevivem, apesar do texto, o contraste entre a praia – campo aberto – enfestada de tubarões e o cinema de Sandro – uma pequena porta nas ruas do comércio – passam ambos a atmosfera de sufoco, mesmo sendo o extremo oposto. As cores fortes, lugares sujos que guardam os segredos e a intimidade da sociedade aqui parece ser o resquício do que resta do antigo Assis.  

A timidez e a forma simplista como tudo no filme foi feito, parece incitar que o mesmo foi poupado ao máximo de cenas e falas explícitas que escrachassem a humanidade, como forma de agradar a todos. De tão simples e superficial, é um filme crítico morno que passaria facilmente na TV aberta, mas só após o horário nobre devido as cenas de sexo entre Sandro (Reymond) e Aurélio (Nachtergaele), algo que foi, durante muito tempo, a promessa do filme. As cenas, entretanto, além de fracas, também não convencem, parecem terem sido feitas somente com o intuito de chocar. O filme, entretanto, conseguiu impressionar mais ao escalar Cauã Reymond e Gabriel Leone para serem respectivamente pai e filho, mesmo que os atores tenham somente 13 anos de diferença de idade.

No fim das contas, o longa vale a pena somente para ver Montenegro em cena com Irandhir, mãe e filho que mereciam um roteiro melhor. Nem o teor crítico do filme e muito menos o drama familiar conseguem salva-lo, o longa parece ter sido terminado as pressas, de qualquer jeito. Com 1h38min de duração, Piedade poderia, facilmente, ter alguns minutos a mais para encerrar com um cuidado maior e assim, talvez, a cena final poderia ter conseguido o impacto que tanto queria.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.