Crítica | ‘The Politician’ reconhece seus erros e entrega uma ótima 2ª temporada

Há menos de um ano, Ryan Murphy lançava sua primeira série em parceria com a Netflixjunto com os co-criadores Ian Brennan Brad FalchukThe Politician, que narra a trajetória de um jovem que almeja se tornar presidente dos Estados Unidos, se tornou um sucesso de público, mas que foi recebida com opiniões mistas devido ao exagero narrativo, e também do humor ácido constantemente presente nas personalidades caricatas dos personagens. 

Os projetos de Murphy são bastante característicos. Mesmo não se assemelhando em temática, é fácil reconhecer o dedo dele e de seus parceiros quando assistimos a algum. Seu grande problema, no entanto, não chega a ser suas ideias e abordagens, e sim a forma como ele constrói a narrativa que inicia muito bem, mas vai derrapando conforme os episódios vão passando. 

Felizmente, isso não acontece novamente aqui. Os criadores parecem ter observado o que não deu certo na temporada inicial, reunido suas melhores ideias em uma segunda temporada mais curta, com menos subtramas e personagens. Os 7 episódios que compõem este novo ano conversam perfeitamente entre si, e não deixam a peteca cair em momento algum.  

É preciso deixar claro que o tom, o humor ácido, e os personagens caricatos continuam presentes, mas parecem melhor planejados e inseridos. Payton (Ben Plattexcelente no papel mais uma vez), por exemplo, se mostra bastante amadurecido, deixando um pouco de lado aquela personalidade metódica, explosiva e exagerada da primeira temporada. Dessa vez, ele se mostra mais humano, consciente das suas ações, e se torna um personagem muito mais relacionável e gostável.

The Politician – 2ª temporada (Netflix)

 

Mas, a melhor mudança da temporada é a saída do ambiente escolar, para os bastidores de uma campanha eleitoral do senado de Nova York. A escola não parecia ser o ambiente adequado para uma sátira que mostrava querer ir muito além do que poderia naquele momento. Estando em Nova York, e se colocando a frente de algo muito mais próximo da realidade dos eleitores (público), principalmente dos Estados Unidos, a série consegue ser mais madura, segura de si e de onde quer chegar.

A inserção de Dede Standish (Judith Light) e Hadassah Gold (Bette Midler) ao núcleo principal cai como uma luva. A dualidade entre as duas e a forma como elas, principalmente Hadassah, lidam com a campanha é extremamente divertido, além do fato de ser possível identificar vários pontos em que as campanhas eleitorais realmente funcionam no país. Elas estarem lidando com um rival tão jovem, mesmo que Dede esteja consideravelmente na frente nas pesquisas, se torna algo inaceitável para Hadassah, que se mostra a mais empenhada em vencer a eleição.  

Por mais que a série não procure se levar a sério, as discussões pautadas conseguem ser bem abordadas, além de relevantes para os dias de hoje. O episódio focado na cultura do cancelamento e apropriação cultural, apesar de bem humorado, tenta mostrar o lado do “cancelado”, dando margem pra discutir como essa cultura pode ser intensa em alguns momentos. O roteiro também consegue tratar de apropriação cultural trazendo isso para a narrativa sem deixar o assunto jogado e sem desenvolvimento só para se mostrar consciente dos problemas atuais.  

No entanto, a temporada alcança seu auge ao dar protagonismo aos eleitores tanto de Payton quanto de Dede. Esse ponto de vista também esteve presente no ano anterior – porém feito com muito mais maestria dessa vez – e acompanha duas personagens, mãe e filha, que possuem diferentes opiniões políticas, passando o dia da eleição acompanhando seus candidatos de perto. A discussão levantada pela mãe, reconhecendo que chegou o momento de dar oportunidade aos mais jovens de estarem a frente da política é bastante importante, principalmente para os espectadores que conseguem se espelhar na personagem.

The Politician – 2ª temporada (Netflix)

Murphy já confirmou que planeja uma terceira e última temporada para The Politicianmas que pretende lançá-la somente daqui alguns anos, quando Ben Platt estiver um pouco mais velho. Considerando os acontecimentos do último episódio, essa espera pode ser muito bem-vinda, e que mostra que há um planejamento prévio por parte dos criadores, mesmo que a série não seja a de maior sucesso deles até então.  

The Politician não é a melhor série criada por Ryan Murphy e sua dupla de co-criadores, mas se mostra consciente dos próprios exageros, e disposta a melhorar a cada temporada que passa. Sempre com uma fotografia bastante colorida e de encher os olhos, a série termina seu melhor ano com o gostinho de quero mais.  

THE POLITICIAN – 2ª TEMPORADA
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RESUMO

The Politician entrega uma 2ª temporada mais consciente de si, com menos subtramas e personagens, e uma mudança de ambiente extremamente bem-vinda.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.