Crítica | Mesmo recheada de erros e repetições, ’13 Reasons Why’ entrega um final emocionante e satisfatório

Difícil de acreditar, mas 13 Reasons Why conseguiu render 4 temporadas. Altamente criticada pelo público, imprensa especializadas, e especialistas da área da saúde, a série reuniu diversas polêmicas ao longo de seus quatro (e longos) anos, ao mesmo tempo em que tentava fazer um bom trabalho trazendo à tona temas relevantes. 

A falta de cuidado que os roteiristas e a produção tiveram com a abordagem desses temas é debatida até hoje, por mais que tenham diminuído consideravelmente o número de cenas explícitas de violência física e sexual. Porém, o olhar mais atento a esse fator não se dirigiu também a irresponsabilidade com que os temas ainda são discutidos. 

Desde a temporada anterior, a série passou por uma repaginada de tom, deixando a sensação de que não estamos mais vendo um programa que um dia procurou conscientizar os espectadores sobre suicídio, abuso sexual e saúde mental, e sim um que parece mais preocupado em criar mistérios em cima de crimes.  

A morte de Bryce Walker (Justin Prentice) poderia ter sido um tópico extremamente interessante caso fosse abordado da forma correta. 13 Reasons Why tentou manter a atenção do público restante se repaginando para tentar se encaixar no formato de série adolescente que mais faz sucesso atualmente. Riverdale Elite são uma febre entre os jovens por terem esse mesmo foco de narrativa, mas, a grande diferença é que elas nunca se propuseram a ser algo diferente disso. 

Nesta última temporada, a exaustão do roteiro é ainda mais perceptível. Um dos grandes erros da série era manter cada temporada com o mesmo número de episódios (13), com 1 hora de duração cada, para honrar o título. Não havia história para ser contada em tanto tempo. Entretanto, aqui as coisas mudam, e o número é diminuído para 10 episódios, mas que ainda parece muito para o conteúdo entregue.  

13 Reasons Why – 4ª temporada (Netflix)

O último ano se inicia com Clay (Dylan Minnette) e seus amigos sofrendo com a pressão e a culpa por terem culpado Monty (Timothy Granaderos) – que foi preso e morto na cadeia na temporada anterior – pelo assassinato de Bryce. Uma série de mensagens e ameaças anônimas surgem pela escola prometendo expor a verdade, ao mesmo tempo em que Winston (Deaken Bluman), ex-amante de Monty, surge para investigar o que realmente aconteceu, já que ele pode provar a inocência do garoto. 

Uma maneira de enxergar a temporada é dividi-la em duas metades. A primeira é cansativa, repetitiva e extremamente sem controle de si mesma, enquanto a segunda se mostra mais interessante, abordando o que o público realmente gostaria de ver nesse ano final. 

Os roteiristas tinham a importante missão de finalmente se aprofundar na saúde mental de Clay, mas perdem a mão ao não demonstrar o menor cuidado com o personagem e a construção que ele havia tido até ali. Clay está mais abalado do que nunca por tudo que aconteceu e ainda vêm acontecendo, sofrendo de alucinações constantes, crises de ansiedade e pânico, além de apagões que ele mesmo não se recorda de ter.  

A saúde mental do personagem é algo que vêm deteriorando desde a segunda temporada quando ele, simplesmente, começa a conversar com o fantasma de Hannah Baker (Katherine Langford). A própria série diminui o fato dele conversar com os mortos – nesta temporada, ele tem diversas conversas com Bryce e Monty – fazendo com que o diagnóstico do personagem não chegue nem perto de considerar os maiores problemas que ele vinha sofrendo. Clay é internado no hospital apenas uma vez, e sua saída chega ser uma das partes mais risíveis da temporada.  

Um dos pontos cruciais que fazem essa primeira metade ser uma bagunça completa, é a falta de foco nos personagens principais. Clay é o único que o roteiro se preocupa em acompanhar mais afundo, enquanto dá espaço, mais uma vez, para que novos personagens tomem conta da narrativa. A inserção de Winston poderia ter sido interessante caso o personagem não passasse a maior parte do tempo somente ameaçando o grupo principal, o que também pode-se dizer de Diego (Jan Luis Castellanos), que é o pior acréscimo da temporada. Dito como melhor amigo de Monty, é difícil comprar o personagem quando não havia nenhuma menção ou aparição dele anteriormente. Parece apenas uma maneira barata e desnecessária de separar Justin (Brandon Flynn) e Jessica (Alisha Boe).  

13 Reasons Why – 4ª temporada (Netflix)

É preciso mencionar o terrível episódio em que os adolescentes vão acampar, e são assombrados por uma pessoa (ou entidade?) desconhecida. Os roteiristas perdem completamente o controle ali, transformando a série em um terror adolescente trash, apenas para dizer que fizeram um episódio experimental. Destoa da realidade, e nos faz questionar o que estamos assistindo, além dos acontecimentos não chegarem a lugar algum. 

SEGURANÇA ESCOLAR

A partir do sexto episódio, a série dá uma virada, e ganha força ao apresentar – mais um – episódio experimental, só que dessa vez, entregando algo que realmente vale a pena discutir. Se passando inteiramente dentro de um suposto ataque a mão armada na escola, o roteiro transita em diversos núcleos de personagens reagindo ao que pensam que pode ser o último dia de suas vidas. Necessário e pesado, o episódio discute o impacto que esse tipo de situação pode causar nos adolescentes, principalmente se tratando de algo que, infelizmente, é bastante comum nos Estados Unidos.  

Tendo esse evento como o ponto de partida para que os alunos se revoltem contra as medidas de segurança tomadas pela escola, inicia-se uma série de discussões que vão desde xenofobia, até algo que está sendo bastante pautado atualmente, que é a violência policial contra manifestantes, pessoas de cor e de outra nacionalidade. Apesar da forma com que esses assuntos são abordados seja breve e sem muito aprofundamento, faltava coragem de 13 Reasons Why para, finalmente, discutir essa temática, ainda mais depois do ocorrido com Tyler (Devin Druid) no final da segunda temporada. 

O salto de qualidade e o foco maior no desenvolvimento dos personagens principais são perceptíveis nessa segunda metade, porém o roteiro ainda mostra dificuldades em dar consequências aos acontecimentos principais. Se analisarmos mais a fundo, nenhum deles teve um real peso na narrativa. Cada um dos personagens está lidando com seus traumas de uma forma diferente, mas nenhum deles recebe a ajuda que precisa, fazendo com que a principal mensagem da série seja em vão. 

Entretanto, os dois últimos episódios fazem valer a experiência. O desenvolvimento de Alex (Miles Heizer) descobrindo sua sexualidade é um dos mais satisfatórios de acompanhar. O crescimento dela durante a temporada, não só em relação ao modo como ele lida com a culpa de ter matado Bryce, mas também com suas inseguranças e como ele vai se entendendo e se aceitando como bissexual é o melhor entregue pelos roteiristas. O episódio do baile de formatura é o ápice do personagem, trazendo um sentimento recompensador depois de tanto sofrimento. 

13 Reasons Why – 4ª temporada (Netflix)

Tendo dito isso, a série chega ao derradeiro episódio final. Desde o início, é mostrado que um dos personagens havia morrido, mas, ao longo da temporada, o roteiro parece esquecer desse fato, entregando apenas breves cenas em um velório. Ao revelar a identidade do personagem e a causa de sua morte, é inevitável segurar as lágrimas, mesmo que seja perceptível a extrema tentativa de fazer o público chorar. O impacto é grande, mas conseguiria ser ainda maior se fosse desenvolvido desde o início da temporada. 

13 Reasons Why não se encerra no seu auge, mas consegue finalizar uma jornada repleta de altos e baixos (mais baixos, na verdade), com um final satisfatório e emocionante. Não é o final que a série deveria ter, mas é bem executado considerando o estrago que tinha sido feito até ali. De saudade ela deixa apenas o carisma e o talento do elenco principal, que conseguiu carregar as 3 temporadas adicionais nas costas. De resto, o adeus é tardio, mas é dado com prazer.  

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Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.