Crítica | Em ‘Destacamento Blood’, Spike Lee dá protagonismo aos heróis que nunca tiveram espaço no cinema

Quando paramos para pensar em um filme que narre os eventos ocorridos na Guerra do Vietnã (1955 – 1975) é fácil lembrar de Apocalypse Now (1979), Platoon (1986) e Nascido Para Matar (1987). Todos grandes filmes de guerra da história do cinema, protagonizados por personagens brancos apresentando os desdobramentos da guerra em parte da população. Entretanto, esses filmes possuem poucos personagens negros (ou nenhum) como figurante, como se eles não tivessem existido na guerra. Onde estariam esses homens então? Eles não lutaram? Engana-se quem pensa isso. Apesar de formar 32% dos soldados que foram para a guerra, o cinema não se preocupou o bastante em retratá-los nesse espaço, não até agora. Destacamento Blood

Dirigido por Spike Lee, Destacamento Blood é o novo lançamento da Netflix. O filme conta a história de quatro afro-americanos que participaram da Guerra do Vietnã e anos depois, voltam ao país para tentar encontrar o corpo do seu capitão, juntamente com um tesouro que foi perdido com o mesmo. O enredo é o suficiente para 2h35min de duração, mas o filme se desdobra a partir de outros temas que vão muito além do racismo e daqueles já discutidos na filmografia de Lee. 

Em seu primeiro filme após vencer o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por Infiltrado na Klan (2018), Lee dá o protagonismo para atores mais velhos interpretando personagens que sempre vemos como coadjuvantes nas histórias, senhores negros acima da meia idade que são muito além de pais e avôs. Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.) se reencontram no Vietnã após anos sem se verem, em busca de algo do passado. Entretanto, nem todos conseguiram superar o horror da guerra e apesar de viverem um conflito juntos, cada um possui seus próprios fantasmas.  

Com uma reunião tomada por alegria, com direito a festas e bebidas, o início de Destacamento Blood  lembra claramente o divertido Viagem das Garotas (2017), de Malcolm D. Lee. Contudo o filme possui tom ameno e divertido apenas nos seus 20 minutos iniciais. E diferente de Viagem das Garotas, – centrado em um grupo de quatro amigas -, Spike Lee não soube dar a mesma atenção a todos os seus personagens, deixando a desejar em alguns que mereciam mais destaque.  

Paul possui Transtorno de Estresse Pós Traumático, e através de uma forte personalidade demonstra opiniões semelhantes às do atual presidente dos Estados Unidos, como o racismo por diferentes etnias. Otis é um médico que apresenta personalidade tranquila, entretanto, novas descobertas sobre sua vida o desestabilizam durante a jornada. Eddie é um rico dono de várias concessionárias por todo o país americano, enquanto Melvin é o cara mais engraçado da turma. Infelizmente esses dois últimos se tornam coadjuvantes, ambos possuem falas mínimas, assim como traços da personalidade pontuadas apenas para se diferenciarem.

Os personagens em Destacamento Blood são um tanto quanto caricatos e superficiais, o que os fizeram ser facilmente ofuscados pelos outros. Há ainda o capitão Stormin Norman (Chadwick Boseman), vivo através de memórias e lembranças do grupo Blood, o personagem é o grande equilíbrio entre os outros integrantes do grupo. Líder nato, mesmo após sua morte está presente durante todo o filme. Além de David (Jonathan Majors), filho de Paul que passa a integrar o grupo de surpresa e possui um conflituoso relacionamento com o pai.  

O grupo volta para a mesma floresta na qual viveram os maiores horrores de suas vidas que geraram traumas que carregam até os dias atuais. Ainda assim, é relembrando o passado que cada um consegue lidar com conflitos que encontram no presente, como o fato dos amigos não se conhecerem mais e divergirem em grande parte de suas opiniões. É através das discussões e embates que Lee permeia para abordar os mais diversos cenários. As lutas não são mais corporais, e os discursos se tornam grandes armas na primeira parte do filme.  

O filme é, antes de tudo, uma grande homenagem ao verdadeiro herói que não é visto no cinema. Assim, dando o protagonismo e homenageando os soldados negros que lutaram no Vietnã, Lee também utiliza os diálogos dos personagens para citar outras grandes figuras de personalidades negras que marcaram a história se tornando heróis em seus ramos mas ainda assim possui sua memória negligenciada não apenas pelo cinema mas principalmente pela sociedade. Mais do que as palavras, o cinema é antes de tudo o poder da imagem, então, não basta cita-los. As fotos das personalidades citadas também estão presentes, se destacando.  

Sendo um filme do Spike Lee, Destacamento Blood de forma clara o filme aborda e critica o racismo em todas as suas nuances. Apesar de não estarem na guerra, voltar para o Vietnã faz com que os rapazes tenham lembranças do que viveram. Apesar da imagem ser importante, não havia TV disponível, apenas rádios, e é através da personagem de Hanoi Hannah (Veronica Ngo) que retornamos a década de 60 e ouvimos os dados que os vietnamitas abordam sobre a escolha dos jovens negros pelos Estados Unidos como linha de frente para enfrentar a morte: “Os negros representam apenas 11% da população dos EUA, mas entre as tropas americanas no Vietnã, vocês são 32%. Soldado negro, é justo servir mais do que os americanos brancos que os enviaram aqui?”. A forma como Lee escolheu para apresentar informações além do uso do diálogo entre o elenco principal relembra ainda mais que o filme, apesar de um drama fictício, tem muita inspiração no real. 

Voltar para um lugar que gerou traumas pode ser muito doloroso, mais ainda quando o país de visita também não possui boas recordações de você. O Vietnã já não é mais aquele que eles deixaram, transformada em um grande país consumista e com vestígios dos Estados Unidos por todos os lados, “eles não precisavam da gente, era só ter mandado o McDonalds, KFC e teríamos vencido os vietcongues em uma semana” diz Eddie. Ainda assim, aquela não é sua casa, pessoas vietnamitas andam por todos os lados, o que desperta rejeição por parte de Paul, personagem de Delroy Lindo que, entrega aqui uma das melhores performances do ano.  

Homem preto, racista, Paul votou em Trump, e em seu boné sinaliza “faça a América boa de novo”.  Do tipo “machão” não reconhece que tem problemas psicológicos, apesar de afirmar que conversa com seu capitão, já morto, todas as noites. Problemas com o filho, não reconhece que errou no passado ao não ter sido o melhor dos pais, mas opta por renega-lo ao se sentir traído. É através dele que Lee faz um estudo das minorias que, apesar de fazerem parte de um grupo ideológico contrário a tudo o que o governo impõe, ainda assim, o apoia. Falta de conhecimento? Não, ao ter um filho professor de estudos Afro-Americanos. David é interpretado por Jonathan Majors  que, – após sua incrível performance em The Last Black Man in San Francisco (2019) – está ótimo como parte do núcleo mais jovem de Destacamento Blood. 

A dupla de racistas da Klu Klux Klan em Infiltrado na Klan também está de volta, Paul Walter HauserJasper Pääkkönen interpretam juntamente com Mélanie Thierry um grupo de jovens  que explodem minas ainda ativas, tentando se redimir de um passado que, seus pais escravocratas, tiveram. Entra então um novo grupo no filme, a parte da população branca que tenta se redimir por seus antepassados, e é aqui que o caminho de Lee se desloca de seu objetivo inicial. Ao inserir um novo núcleo ao seu filme, mesmo que os caminhos se cruzem durante o enredo, acaba que diversos temas passam a ser abordados sem que seja dada a devida ênfase a cada um. Isso pode incomodar algumas pessoas que se interessem por críticas mais centralizadas, entretanto, pode ser um deleite àqueles que esperam que o diretor não deixe passar nada batido. 

Assim como todos os seus outros filmes, a crítica social ao racismo é um dos pontos principais em Destacamento Blood, entretanto, diferente de seus outros longas, esse é um filme de guerra, e não apenas um drama, o que permite que a crítica do diretor alcance novos horizontes. As cenas de ação não apresentam nenhuma inovação, um dos plots principais também não é nenhum dos maiores segredos, entretanto todos os desdobramentos dessas cenas geram o clímax do longa. A busca inicial pelo corpo do capitão e do tesouro que serviria para libertação do povo negro passa a ser motivo de cobiça e divisão do grupo. A autoridade se instaura e os conflitos superam os ideais, assim como a desconfiança tende a superar a conexão do grupo Blood 

A situação ainda se agrava quando novas pessoas aparecem interessadas no tesouro. De quem é, de fato, aquele ouro no final das contas? Lee não dá só as respostas, como também questiona aqui o próprio público: deveria ter um vencedor? Um certo ou errado? Ninguém está imune das críticas que o diretor, mais afiado que nunca, faz a cada meio da sociedade. 

A trilha de Terence Blanchard lembra a sua última utilizada em Infiltrado na Klan, mas não se destaca com a sua anterior. A proposta de Lee é ousada e audaciosa, mas o seu elenco tira de letra, apesar de alguns personagens não terem muito o que fazer além de servir como pano de fundo. Destacamento Blood é  certamente um dos filmes mais sem filtros do diretor e roteirista, mas não poderia ter um timing melhor para sua estreia. Em um ano em que vivemos em quarentena social devido à pandemia do coronavírus, homens negros ainda morrem no dia a dia por outros motivos como a brutalidade policial e balas perdidas. 

O filme se encerra com uma grande mensagem do Black Lives Matter, e a quase um mês da morte de George Floyd é importante lembrar que homens negros morriam no passado, e continuam a morrer atualmente pelo mesmo motivo. Até em seu último longa, ainda há traços de comédia – com a forjada participação de um policial negro na Klu Klux Klan -. Neste, entretanto, não houve espaço para isso. É hora de ver, ouvir e refletir novamente o que Spike Lee tem dito nos últimos 34 anos, mesmo que a mensagem seja brutal e dolorosa.

DESTACAMENTO BLOOD | DA 5 BLOODS
4.5

RESUMO

No drama de guerra Destacamento Blood, quatro afro-americanos ex-combatentes voltam ao Vietnã, e revivem conflitos ao buscarem pelo corpo do seu capitão, sob o olhar crítico e ácido de Spike Lee.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.