Festival de Cannes 2020 | Longa ‘Casa de Antiguidades’ e curta ‘Menarca’ representam o Brasil; veja a lista de filmes

Maior festival de cinema do mundo, também conhecido como um dos eventos mais glamourosos do ano, o Festival de Cannes estava marcado para o dia 12 de maio deste ano. Entretanto, devido a pandemia do coronavírus, o evento teve sua edição de 2020 inicialmente adiada e posteriormente, cancelada. Apesar disso, a seleção oficial do festival veio a público, contendo alguns dos lançamentos mais aguardados do ano. 

A lista foi anunciada na noite de quarta-feira (03/06) pelo diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, e pelo presidente Pierre Lescure, durante uma entrevista na TV que foi ao ar no Canal Plus, em vez da tradicional conferência de imprensa. Sem as usuais categorias como Competição, Un Certain Regard e Fora da Competição, Fremaux publicou a apresentação da programação a partir de categorias inéditas: “Os Fiéis” para os veteranos de Cannes que já estiveram na Seleção Oficial pelo menos uma vez; Recém-Chegados; Primeiro Filme; Comédias; Documentários; e Animações. 

Mesmo tendo sido selecionados para o festival, os filmes terão a oportunidade de estrear no mundo real graças às alianças estabelecidas entre Cannes e outros festivais, principalmente Toronto e San Sebastian, que aceitaram considerar filmes rotulados para seções competitivas. Os outros festivais que devem apresentar filmes com o selo de Cannes incluem Telluride, Deauville, Busan, Morelia, Nova York, Sundance e o próprio festival Lumiere de Fremaux, em Lyon. Enquanto isso, o Festival de Cinema de Veneza não joga bola com Cannes, depois que discussões sobre uma aliança em potencial caíram no mês passado. 

Na terça-feira, Fremaux enviou uma carta informando alguns números-chave sobre a lista deste ano e disse que o comitê de seleção recebeu um recorde de 2.067 filmes inscritos, apesar da crise de saúde e subsequente cancelamento da edição física. Fremaux também disse que 15 filmes de estreia, ou seja, novos nomes no ramo, representam 26,7% dos longas escolhidos. Segundo a Variety, a programação também inclui 16 filmes dirigidos por mulheres, dois a mais que no ano passado.

A 73ª edição do Festival possui um longa brasileiro em sua programação, Casa de antiguidades, estrelado por Antonio Pitanga. No filme ele vive Cristovam, um homem do campo que se muda para a cidade em busca de melhores condições de vida. Lá, ele enfrenta solidão e preconceito. Apesar de ser o primeiro longa do diretor João Paulo Miranda Maria, o mesmo já é veterano de Cannes, pois desde 2015 o diretor frequenta o festival. Em 2015 foi indicado ao Discovery Award com o curta Command Action exibido na seção da Semana da Crítica, e em 2016 venceu a Menção Honrosa com o curta A Moça que dançou com o Diabo (2016).

O diretor ligou para informar Antonio Pitanga pela vitória de ambos ao descobrir que o filme havia sido selecionado para o festival. “Imagine, eu aos 80 anos, em pleno confinamento, receber uma notícia dessas. Eu me sinto uma criança dançando dentro de mim mesmo de tanta alegria. E só tenho a agradecer ao João Paulo que acreditou em mim, ele queria que fosse o Pitanga para viver esse personagem. Me sinto uma criança, numa boa”, comemorou o ator ao jornal O Globo.

Além da grande seleção principal do festival, a Semana da Crítica também teve seus filmes selecionados, entre eles, o curta brasileiro Menarca (2019), de Lillah Halla. Organizada pela Associação Francesa de Crítica Cinematográfica, a Semana da Crítica é a mais antiga seção paralela não competitiva do festival. Dividido dentre longas e curtas, ano passado a Semana foi presidida pelo diretor Ciro Guerra. Menarca, gira em torno de duas jovens que moram numa vila de pescadores às voltas com uma inesperada e misteriosa infestação de piranhas. Elas acreditam que um corpo encontrado enroscado numa rede de pesca pode lhes oferecer a chave protetora contra a violência que as cerca. Menarca é o nome dado à primeira menstruação, uma das últimas fases da puberdade feminina.

Antonio Pitanga em “Casa de Antiguidades” (2020)

Outros longas de grandes diretores como Wes Anderson, Steve Mcqueen e Naomi Kawase estão entre os 56 selecionados do evento, que não terá edição presencial neste ano. O júri da competição oficial deste ano seria presidido pelo diretor Spike Lee (Infiltrado na Klan). Confira abaixo a seleção:

SELEÇÃO OFICIAL

• Os Fiéis

‘ADN’ (“DNA”), de Maïwenn (Algéria/França)
O longa gira em torno de uma mulher que possui laços estreitos com um amado avô argelino que a protegeu de uma vida doméstica tóxica quando criança. Quando ele morre, desencadeia uma profunda crise de identidade, à medida que as tensões entre os membros de sua família aumentam, revelando novas profundidades de ressentimento e amargura. O filme é dirigido, roteirizado e protagonizado por Maïwenn (Polissia). Fanny Ardant (La Belle Époque), Louis Garrel (Adoráveis Mulheres) e Marine Vacth (Jovem e Bela) completam o elenco. 

‘Drusk’, de Thomas Vinterberg (Dinamarca)
Depois de passar por Cannes e ser indicado ao Oscar com o polêmico A Caça (2012)Vinterberg retoma a parceria com Mads Mikkelsen. Um filósofo norueguês afirma que o homem nasce com um nível de álcool no sangue que é 0,5%. No filme, inspirado por essa teoria, Martin e seus três seus amigos, que são professores do ensino médio, se jogam numa tentativa de beber mais. Suas vidas são um número infinito de trivialidades, então este projeto pode ser exatamente o que eles precisam. 

‘El Olvido Que Seremos’, de Fernando Trueba (Espanha)
Adaptação de obra do autor Héctor Abad Faciolince, um dos livros de leitura obrigatória da literatura espanhola contemporânea e a verdadeira história de seu pai, o ativista colombiano de direitos humanos Héctor Abad Gómez. Estrelado por Javier Cámara (O Jovem Papa), o filme conta a história de um homem dividido entre o amor de sua família e sua luta política na Colômbia, cheia de violência, nas últimas décadas. 

‘Heaven: To The Land of Happiness’, de Im Sang-Soo (Coreia do Sul)
O longa finalizado a quase um ano é um trabalho sobre dois homens que se conheceram em uma viagem especial para encontrar a última felicidade da vida. O filme prenuncia o nascimento de um drama humano particular, principalmente por ser a primeira reunião de dois dos atores principais da Coréia, Choi Min-sik (Oldboy) e Park Hae-il (Eungyo: A Musa). 

‘Home Front’, de Lucas Belvaux (Bélgica)
Adaptado de um romance (Des Homme) de Laurent Mauvignier, Home Front segue dois soldados que estavam na linha de frente da Guerra da Argélia que, quarenta anos depois, são forçados a enfrentar seu passado. Gérard Depardieu (Asterix e Obelix contra César), Catherine Frot (O Reencontro) e Jean-Pierre Darroussin (Uma Casa à Beira Mar) compõem o elenco. 

‘In The Dust’, de Sharunas Bartas (Lituânia)
Depois de passar por Cannes em 1996 (Alguns de Nós), 1997 (A Casa) e 2005 (Sete Homens Invisíveis), o diretor lituano volta com o seu novo filme. No longa, um garoto de 19 anos experimenta paixão e violência depois de se juntar a um grupo de partidários que resistem à ocupação soviética.  

‘Last Words’, de Jonathan Nossiter (EUA)
O novo longa de Nossiter, se passa em 2085, onde nenhum bebê humano nasceu em mais de uma década. Um grupo de sobreviventes díspares responde a um chamado para se reunir em Atenas, onde o narrador do filme Jo, um garoto de ascendência africana, pretende fazer o último filme do mundo. 

‘Lovers Rock’, de Steve McQueen (Reino Unido)
O vencedor do Oscar Steve McQueen (12 Anos de Escravidão), surpreende Cannes com nova série de filmes que abordam a temática do racismo. Inicialmente, os filmes seriam parte da série de antologia britânica Small Axe do diretor, mas agora é uma antologia de cinco filmes que serão exibidos na BBC e na Amazon Prime. Cada um dos filmes irá contar uma história diferente, ambientada na comunidade das Índias Ocidentais de Londres, da década de 1960 a meados da década de 1980. Dois deles estariam presente na próxima edição do festival: Mangrove e Lovers Rock. O segundo deles, Lovers Rock, conta a história fictícia de amor e música jovem em uma festa de blues no início dos anos 80, estrelando Amarah-Jae St. Aubyn (Peça de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada Partes I e II), Micheal Ward (Top Boy), Shaniqua Okwok (Van der Valk) e Kedar Williams-Stirling (Sex Education). (Fonte: Deadline)

‘Mangrove’, de Steve McQueen (Reino Unido)
O primeiro da série de cinco filmes, Mangrove, conta a história real dos Mangrove Nine e Frank Crichlow, estrelado por Letitia Wright (Pantera Negra), Shaun Parkes (Lost In Space) e Malachi Kirby (Black Mirror). Não é comum ter um diretor com dois filmes selecionados para o festival, principalmente em competição. McQueen segue sendo um dos únicos dois cineastas negros anunciados entre os mais de 50 diretores selecionados para a 73ª edição do festival de Cannes. O diretor também dedicou seus dois filmes presentes no festival a George Floyd e ao movimento Black Lives Matter. (Fonte: Deadline)

Peninsula’, de Yeon Sang-Ho (Coreia do Sul)
Depois do grande sucesso de Invasão Zumbi, o diretor retorna em ‘Invasão Zumbi 2: Península‘, com parte do elenco presente. Em Invasão Zumbi 2, a península coreana ficou devastada após o surto de zumbis que atingiu os passageiros de um trem-bala com destino a Buscan há quatro anos. Com isso, um ex-soldado que conseguiu fugir do país, Jung-seok, tem a missão de retornar e acaba encontrando alguns sobreviventes. 

‘Summer 85’, de François Ozon (França)
Após grande repercussão do seu último longa Graças a Deus (2018), Ozon retorna com Summer 85. No verão de seus 16 anos de idade, Alexis, durante uma viagem marítima na costa da Normandia, é heroicamente salvo do naufrágio por David, de 18 anos. Alexis acabou de conhecer o amigo dos seus sonhos. Mas o sonho vai durar mais do que um verão? O elenco é formado por Benjamin Voisin, Félix Lefebvre e Philippine Velge.  

The French Dispatch‘, de Wes Anderson (EUA)
Além de ser um dos mais aguardados de 2020, o filme que certamente moveria público, críticos e jornalistas no festival seria o novo do Wes Anderson. No longa, a equipe de uma publicação européia decide publicar uma edição memorial, destacando as três melhores histórias da última década: um artista condenado a prisão perpétua, motins de estudantes e um sequestro resolvido por um chef. Bill Murray (Os Mortos Não Morrem), Benicio del Toro (Sicario: Dia do Soldado), Frances McDormand (Três Anúncios Para um Crime), Jeffrey Wright (Westworld), Adrien Brody (O Pianista), Tilda Swinton (Suspiria), Owen Wilson (Extraordinário), Timothée Chalamet (O Rei), Léa Seydoux (Kursk: A Última Missão), Elisabeth Moss (O Homem Invisível), Edward Norton (Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe), Willem Dafoe (O Farol), Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres) compõem elenco. 

“The French Dispatch”, de Wes Anderson

‘The Real Thing’, de Kôji Fukada (Japão)
Um dos mais longos filmes da seleção,com 3h e 48min de duração. Depois de ganhar o Prêmio do júri na mostra Un Certain Regard com Harmonium (2016), Fukada retorna ao festival com The Real Thing. O filme segue Tsuji, um homem bom que tem relacionamentos casuais com duas mulheres de seu trabalho. Um dia, ele salvará a vida de uma mulher misteriosa chamada Ukiyo, que estava prestes a morrer em um cruzamento de ferrovia. Linda e desavisada, ela causa problemas para quem a rodeia. Apesar de perceber essa natureza, Tsuji irá se envolver em um perigoso relacionamento. 

‘True Mothers’, de Naomi Kawase (Japão)
Uma das maiores veteranas de Cannes, Kawase esteve a última vez no festival com o indicado a Palma de Ouro, Hiraki (2017). Em seu novo filme, ela apresenta um casal cujas experiências dolorosas com o tratamento de fertilidade os levam à adoção. Seis anos depois de criar seu filho, Hikari, uma mulher que se apresenta como mãe biológica, tenta extorqui-los. Hiromi Nagasaku, Arata Iura, Aju Makita e Miyoko Asada formam elenco.

• Os Recém-Chegados

‘A Good Man’, de Marie Castille Mention-Schaar (França)
Ammonite‘, de Francis Lee (Reino Unido)
Enfant Terrible‘, de Oskar Roehler (França)
February‘, de Kamen Kalev (Bulgária)
Here We Are‘, de Nir Bergman (Israel)
Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait‘, de Emmanuel Mouret (França)
Limbo‘, de Ben Sharrock (Reino Unido)
Nadia, Butterfly‘, de Pascal Plante (Canadá)
Passion Simple‘, de Danielle Arbid (Líbano)
Red Soil‘, de Farid Bentoumi (França) 
Squad‘, de Ayten Amin (Egito)
Sweat‘, de Magnus Von Horn (Suécia)
Teddy‘, de Ludovic et Zoran Boukherma (França)
Un Médecin de Nuit‘, de Elie Wajeman (França) 

– Filme Omnibus:
Septet: The Story of Hong Kong‘, de Ann Hui (Hong Kong)

• Primeiro Filme

16 Printemps’, de Suzanne Lindon (França)
Beginning‘, de Déa Kulumbegashvili (Grécia)
Broken Keys‘, de Jimmy Keyrouz (Líbano)
Casa de Antiguidades‘, de João Paulo Miranda Maria (Brasil)
Failing‘, de Viggo Mortensen (EUA)
Gagarine‘, de Fanny Liatard and Jérémy Trouilh (Geórgia)
Garcon Chiffon‘, de Nicolas Maury (França)
Ibrahim‘, de Samir Guesmi (França)
John and The Hole‘, de Pascual Sisto (EUA)
Pleasure‘, de Ninja Thyberg (Suécia) 
Slalom‘, de Charlène Favier (França)
Should the Wind Fall‘, de Nora Martirosyan (Armênia)
Striding Into The Wind‘, de Wei Shujun (China)
The Death of Cinema And My Father Too‘, de Dani Rosenberg (Israel)
Vaurien‘, de Peter Dourountzis (França) 

• Três Documentários

9 Jours à Raqqa‘, de Xavier de Lauzanne (França)
The Billion Road‘, de Dieudo Hamadi (Congo)
The Truffle Hunters‘, de Michael Dweck e Gregory Kershaw (EUA)

• Cinco Filmes de Comédia

Antoinette Dans Les Cévennes‘, de Caroline Vignal (França)
Le discours‘, de Laurent Tirard (França)
Les Deux Alfred‘, de Bruno Podalydès (França) 
L’origine du monde‘, de Laurent Lafitte (França)
Un Triomphe‘, de Emmanuel Courcol (França) 

• Quatro Animações

Earwig and the Witch‘, de Gorô Miyazaki (Japão)
Flee‘, de Jonas Poher Rasmussen (Dinamarca)
Josep‘, de Aurel (França)
Soul‘, de Pete Docter (EUA) 

SEMANA DA CRÍTICA:

• Longas-Metragens

After Love‘, de Aleem Kahn (Reino Unido)
Gold for Dogs‘, de Anna Cazenave Cambet (França)
The Swarm‘, de Just Philippot (França)
Skies of Lebanon‘, de Chloé Mazlo (França)
Beasts‘, de Naël Marandin (França)

Curtas-Metragens

August 22, This Year‘, de Graham Foy (Canadá)
Axşama doğru‘, de Teymur Hajiyev (Azerbaijão)
Dustin’, de Naïla Guiguet (França)
Forastera’, de Lucía Aleñar Iglesias (Espanha)
Good Thanks, You?‘, de Molly Manning Walker (Reino Unido)
Humongous!‘, de Aya Kawazoe (Japão)
Maalbeek‘, de Ismaël Joffroy Chandoutis (França)
Marlon Brando‘, de Vincent Tilanus (Holanda)
Menarca‘, de Lillah Halla (Brasil)
White Goldfish‘, de Jan et Raf Roosen (Bélgica)

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.