Crítica | 5ª temporada de ‘Better Call Saul’ eleva ainda mais o nível da série

Ao longo de cinco temporadas, o estudo do personagem Jimmy McGill nos deu a oportunidade de conhecer não o simples surgimento do advogado Saul Goodman, mas como e porque determinadas escolhas são feitas. Desde o início, as cenas iniciais de todas temporadas de Better Call Saul não funcionam apenas como uma forma de fechar o arco do personagem. Trata-se de uma análise profunda de comportamento que o leva do ponto inicial (a série) até seus dias atuais.

Fechando a quinta temporada, Something Unforgivable muda, portanto, nossa visão acerca de muita coisa. Isto porque, a partir de um final que mexe com a nossa perspectiva sobre alguns personagens, torna-se necessária uma revisão de tudo o que já vimos nesse universo pré Breaking Bad .

Um dos episódios mais bem construídos da série, Bagman, diz muito sobre o que é a série no momento. Nele, Mike e Jimmy caminham pelo deserto sem saber como e se irão sobreviver. A grande questão é que eles irão sobreviver, mas nos esquecemos por um instante disso, como um espectador que nunca visitou este universo antes. Há, portanto, um peso sobre os acontecimentos sobre determinados personagens que não deram as caras em Albuquerque na trama de Walter White, como Kim Wexler, Lalo Salamanca (Tony Dalton, brilhante), Nacho Varga (Michael Mando se superando cada vez mais) e Howard Hamlin (Patrick Fabian). Todos esses acabam se tornando protagonistas do último episódio, nos mostrando o quando Jimmy McGill, a esta altura, é coadjuvante de sua própria história – Saul Goodman assume de vez o comando, e todos aqueles que orbitam ao seu redor serão afetados.

Bob Odenkik em “JMM”: um reflexo grotesco de si mesmo – Better Call Saul, 5ª temporada (AMC/Netflix)

Desta forma, há um brilho especial a destacar neste quinto ano. Kim, estupendamente vivida por Rhea Seehorn, é o fiel da balança em mais um surpreendente ponto de virada da trama. Mas não da forma como imaginávamos. Repare a cena final da temporada. Kim, enquanto um Jimmy atônito não acredita em suas intenções, faz o gesto semelhante ao que ele fez no fim da quarta temporada para ele, quando o advogado depôs e deu testemunho falso sobre Chuck para voltar a advogar. Só faltou ela dizer “It´s All Good Man!”. Kim, então, passa a ser, não apenas uma vítima do contexto. Como disse Lalo no início da temporada, uma vez que você está dentro, está dentro. Eles nos disseram isso o tempo todo, e agora a questão não é o que acontece com Kim por causa de Jimmy, mas o que acontece com os dois por causa dela.

Por toda a temporada de Better Call Saul, a tensão foi crescente acerca do que poderia acontecer com ela, uma vez que Jimmy agora se tornou “amigo do Cartel”. Muitos chegaram a pensar que eventos trágicos nesse contexto poderiam transformar Jimmy de uma vez por todas no desprezível Saul. Portanto, é um choque constatarmos que Kim pode se tornar não um remorso, mas uma espécie de impulso ainda maior. A partir de seu plano de difamação de Howard, as consequências podem ser mais amplas que uma previsível morte.

A quinta e penúltima temporada da série é também um ponto de virada na vida de todos os personagens. Conhecemos uma nova Kim Wexler, à medida em que até mesmo um vislumbre do seu passado nos é mostrado, passa a nos mostrar um novo lado, a partir de suas próprias escolhas e ações, como em Bad Choice Road. Mike abraça de vez seu lado sombrio, precisando de conciliar cada vez mais com o passado que envolve o filho. Nacho come o pão que o diabo amassou como espião de Gus Fring (Giancarlo Esposito) contra os Salamancas, tendo que trair Lalo e nos deixar a flor da pele a cada momento de tensão.

Rhea Seehorn brilha como nunca na 5ª temporada de Better Call Saul (Bad Choice Road – AMC/Netflix)

 

Há ainda muito o que dizer em termos de episódios bons neste quinto ano. Wexler v. Goodman,  JMM e o intimista Dedicado a Max oferecem a mistura perfeita desse universo contemplativo criador por Vince Gilligan e Peter Gould: estudos de personagem, roteiros sem previsibilidade, imagens que falam mais que palavras e atuações. A primeira trinca de episódios é boa, mas do quarto ao décimo, em especial os quatro últimos, alavancam ainda mais o grau de excelência atingido por Better Call Saul. Que o Emmy reconheça e coloque Better Call Saul no seu devido lugar.

BETTER CALL SAUL – 5ª TEMPORADA
4.5

RESUMO

Colocando todos os seus personagens-chave no limite, a quinta temporada de Better Call Saul oferece o que há de melhor em termos drama e desenvolvimento de narrativa e personagem na TV atual.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...