Crítica | O destino luta contra a história na 5ª temporada de ‘Outlander’

O que faz um seriado encantar o público? O que o faz atrair as pessoas, episódio após episódio, por meses a fio, na agonia da sequência? É difícil dizer. No entanto, uma grande história de amor, moderada por alguns outros elementos característicos de certa época, além de muita química entre os amantes, é receita certa para o sucesso. É daquelas coisas atemporais que, não importa em que tempo estejamos, jamais deixarão de conquistar espectadores – e particularmente as mulheres.Outlander

Outlander começou assim, lá em 2014, quando, depois de fazerem o tal teste de química (aconteceu mesmo, tem até vídeo!), Caitriona Balfe foi a escolhida para protagonizar a série ao lado de Sam Heughan. Claire e Jamie são um daqueles casais que quase se equiparam a Romeu e Julieta (até hoje símbolo máximo da paixão entre um homem e uma mulher), assim como Jack e Rose em Titanic, ou Allie e Noah em Diário De Uma Paixão. Mas os dois não são somente fogo e gasolina nem tensão física irresistível, há mais que isso. O maior charme da trama é o fato de eles terem se encontrado por um truque metafísico do destino, superando um obstáculo que pelo menos até agora, no século XXI, consideramos impossível: a barreira do tempo.

Mais do que isso, depois que Claire viaja para o século XVIII na primeira temporada – encontrando Jamie e também a si mesma –, o showrunner Ronald D. Moore também nos leva por um passeio por várias partes do mundo. E é assim que a fotografia de Outlander entra em cena e encanta. Durante o dia, as representações das paisagens da Escócia, da Inglaterra, da França e dos EUA daquela época destacam o verde da paisagem e, à noite, tomam seu lugar as sombras provocadas pelas tochas – uma vez que ainda não havia eletricidade.

Os planos abertos, que nos dão a noção da imensidão que era o mundo naquele século já longínquo de 200 anos atrás, alternam-se com os planos fechados, que confirmam o talento dos dois atores principais. Um olhar entre os dois basta para sabermos o que eles sentem um pelo outro e o que querem passar para nós, seu público.

Foi assim na primeira e continua sendo assim na quinta temporada, que foi ao ar recentemente.

O tempo continua passando em Outlander

Agora mais velhos, chegando à meia idade e tendo se estabelecido definitivamente (será?) na Carolina do Norte, EUA, a relação de Jamie e Claire sofreu algumas mudanças, como não poderia deixar de ser. O papel do casal, agora, é o de pais e provedores de muitas famílias, mas mesmo assim o fogo que arde entre eles ainda brilha claro e forte, ainda que com menos frequência. Os jovens, agora representados por Roger (Richard Rankin) e Brianna (Sophie Skelton) e Fergus (César Domboy) e Marsali (Lauren Lyle), não chegam nem perto do carisma deles.

O interessante, no entanto, é notar como Outlander consegue passar, de forma sutil, essa transformação na função das pessoas na sociedade. Jaime não mais depende ou mesmo precisa buscar os conselhos ou ouvir as broncas de Murtagh (Duncan Lacroix) ou Dougal (Graham McTavish), como fazia antes. Agora, ele é o porto seguro dos mais jovens e principalmente, de Roger, um acadêmico que encontrou bastante dificuldade em se ajustar à vida mais “selvagem” do século XVIII, e sempre recorre ao sogro.

Não obstante, é clara a diferença de idade entre os atores e seus personagens – a peruca grisalha de Balfe chega a incomodar -, e é difícil crer que Jamie tem 50 anos. Somente o talento deles mesmo para não ficar bizarro. Porque bizarra mesmo é a tensão que Stephen Bonnet (Ed Speleers) consegue criar, mesmo com tão pouco tempo de tela. E que vilão ele é, quase igual um certo Jack Randall lá no começo, numa das atuações mais brilhante de Tobias Menzies. Quase… Bonnet infernizou Roger, estuprou Brianna, assaltou Claire, Jamie e seus amigos e agora… bom, vou tentar evitar os spoilers para lá, mas deixo aqui registrado meu repúdio a esse homem que se iguala, em inverso, a minha admiração pela interpretação de Speleers.

A dinâmica da 5ª temporada

A quinta temporada de Outlander começou lenta e ouso dizer que encheu muita linguiça para fazer número em episódios. Cito aqui o exemplo do capítulo que Claire e Jamie passam inteirinho numa fazenda decrépita e sombria numa enrolação tediosa – um desperdício de tempo, sendo que o objetivo com tudo o que aconteceu ali era plenamente descartável.

Outro exemplo é a guerra contra os rebeldes, que foi bem pífia se levarmos em consideração o tanto que foi anunciada, embora reconheça o extraordinário trabalho da maquiagem, especialmente no final da luta, quando Jamie vai tirar uma certa pessoa da forca (continuo tentando não dar spoilers!).

Da segunda metade para frente, no entanto, a trama ganha fôlego novamente e finalmente comecei a reconhecer a série. Voltaram a curiosidade, a incerteza e os personagens de Roger e Brianna – essa última principalmente – finalmente cresceram e ganharam mais brilho e importância, certamente abrindo caminho para a próxima temporada.

O episódio final, então, é de tirar o fôlego do espectador e mostrar o brilhantismo com que Ronald D. Moore segue trazendo a história de Diana Gabaldon (autora dos livros em que a série é baseada) para as telas. O serviço social que ele está prestando trazendo para nosso conhecimento o retrato da sociedade do século XVIII que a escritora desenhou é fantástico. Seu trabalho é lindo. Somado a isso, Caitriona Balfe demonstrou mais uma vez o porquê de ter sido indicada ao Globo de Ouro interpretando Claire. E do Globo de Ouro sua atuação nesse season finale foi digna. A cena dos devaneios com sua família do século XVIII numa festa de família no século XX é genial, um destempo totalmente louco que, no entanto, se encaixou perfeitamente com o momento da narrativa.

O veredito

Antes uma temporada que começa mal e termina bem do que o contrário! Sabe-se que vem uma Guerra da Secessão por aí, e o Destino, que se esforçou tanto para juntar os dois amantes e sua família, agora tem que lutar contra a História e suas trágicas e sangrentas desventuras, que teimam em querer separá-los. Que venha esse embate, porque eu quero assistir!

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.