Análise | Distópica e hipnotizante, ‘O Homem do Castelo Alto’ ainda vale o comentário

Atenção! Contém spoilers!

Em 2015, O Homem do Castelo Alto (The Man In The High Castle) se tornou um dos maiores sucessos, se não o maior sucesso do Amazon Prime Video. Baseada no livro homônimo de Philip K. Dick, a trama distópica da série encantou os espectadores, atraídos por uma visão bastante crível do que o mundo teria se tornado se as potências do Eixo tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial e Alemanha e Japão, ascendido como as duas grandes potências globais.

Infelizmente, a obra não é das mais conhecidas do grande público, apesar do imenso sucesso de crítica (chegou a ter taxa de aprovação de 95% no Rotten Tomatoes), notadamente em suas primeiras temporadas (são quatro). Chego atrasada nessa história totalmente hipnotizante do-que-poderia-ter-sido-e-graças-a-Deus-não-foi, mas sempre é tempo de falar do que é bom.

E O Homem do Castelo Alto é muito bom, mesmo que tenha entrado para aquela longa lista de seriados que chegam arrebatando mentes e corações e terminam decepcionando… um pouco.

Uma Nova York bem diferente é mostrada em The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)

O Homem do Castelo Alto e o mundo dividido

Como dito, na realidade alternativa criada por Philip K. Dick e trazida para as telas da TV por Frank Spotnitz, o Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial. Nela, o que aconteceu foi que, em 1933, o atentado que, na vida real, quase matou Franklin D. Roosevelt – à época presidente dos Estados Unidos – foi bem sucedido e ele acabou assassinado por Giuseppe Zangara. Como consequência, a América nunca se reergueu realmente da depressão de 1929. Assim enfraquecidos, os americanos não foram de grande ajuda para o Aliados, que sucumbiram à Hitler e às outras potências do Eixo. O mundo foi então dividido entre o Reich alemão e o império japonês (a Itália foi ignorada).

Na série, o foco está nos EUA, cujo leste coube aos nazistas, o oeste aos japoneses (tornando-se os Estados Japoneses do Pacífico) e o meio tornou-se uma zona neutra, terra sem ordem ou lei. Essa divisão, não só da América do Norte, como do mundo inteiro, é sem dúvida um dos pontos mais interessantes de se observar – um neocolonialismo muito mais próximo de nós do que aquela decorrente das longínquas grandes navegações. Meu Deus! Assistir à América que conhecemos desde o final da Segunda Guerra totalmente destruída em sua ideologia chega a ser insano. Americanos convertendo-se ao nazismo ou se submetendo aos japoneses (não menos implacáveis) é de uma subversão que somente uma mente como a de Dick pode conceber.

Notem, no entanto, que me refiro aos EUA porque é essa a nação que desde então e ainda hoje domina o mundo, símbolo maior do capitalismo e da liberdade. Mas em O Homem do Castelo Alto o planeta inteiro foi dividido entre Alemanha e Japão. O Brasil ficou com o Reich. Estaríamos todos gritando Heil Hitler com o braço direito estendido a frente – e o sol da liberdade em raios fúlgidos teria se eclipsado atrás do horizonte vermelho do nazismo.

Rufus Sewell na primeira temporada de The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)
Rufus Sewell em The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)

O peso do símbolo

O simbolismo da série, um dos pontos altos de toda a produção, é forte. Para falar dele, podemos começar por essa saudação a que acabei de me referir: o braço direito estendido à frente do corpo, gesto que até hoje nos causa ojeriza e até um frio na barriga, uma vez que remete a um dos piores episódios da história humana. A ele podemos fazer o paralelo com a polidez dos japoneses, que não imitavam a saudação nazista, mas sim se curvavam em sinal de reverência e respeito (mas nunca de submissão perante os alemães).

Assim, a suástica é presença constante e quase onipresente – é vista desde a faixa que os nazistas usam no braço até os móveis nas casas opulentas. Fora isso, tem certa frequência a estrela de Davi (símbolo judaico), além de outros ícones que representam a resistência ao sistema dominante – há sempre uma resistência, e quem pode julgar?

Tudo isso ganha um peso muito maior na realidade que é apresentada, uma vez que agora representam uma ordem consolidada e não mais idealizada.

A Resistência

Como já mencionado, em cada temporada uma parte da sociedade nos é apresentada como resistência ao Reich e ao império japonês. Na primeira, não se dá ênfase a nenhum grupo étnico específico, os revoltosos são simplesmente os americanos nativos, os  que perderam a guerra e agora são subjugados pelos vencedores. Há pessoas de todo o tipo e cor lutando pelo mundo terrível em que agora se vivia, o que é exacerbado pela fotografia incrível, quase em preto e branco, representando a treva social existente. O vermelho do nazismo, por outro lado, salta aos olhos quase que dolorosamente, calando fundo no coração do espectador.

Porém, mesmo que a Resistência possua uma redenção intrínseca, seus atos nem sempre são heroicos ou sublimes – o terrorismo, por exemplo, pode se se justificar de alguma forma? Não é de admirar que a protagonista, Juliana (Alexa Davalos), não seja fã do movimento, mesmo sendo totalmente contra o sistema também.

Ao longo das temporadas, no entanto, a oposição começa a ficar mais específica, com a introdução do núcleo judeu e finalmente dos negros. Não obstante, eles são mostrados de forma tão pobre e “jogada” que se tornam até mesmo desagradáveis, quando levamos em conta a narrativa. Já estando representados desde o começo, a trama poderia ter seguido de forma melhor com essa parte tão importante da sociedade em questão.

Alexa Davalos na primeira temporada de The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)
Alexa Davalos em The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)

Personagens de O Homem do Castelo Alto

Juliana

Interpretada pela ótima, mas pouco conhecida Alexa Davalos, Juliana é uma personagem muito rica, mas incompreendida pelo público da série. Muito bonita e desejada pelos homens, ela tem uma personalidade mais introspectiva e dificilmente mostra afeto (principalmente com o sexo oposto). Apesar de ter todos os trejeitos da mocinha, muitas vezes toma atitudes pouco virtuosas e é fácil começar a julgá-la. O que é difícil é saber o que ela está pensando ou intuir o que ela vai fazer em seguida, o que a torna extremamente interessante. Uma pena que seu espaço é reduzido drasticamente na última temporada.

John

Membro da alta sociedade do Reich alemão, John Smith (Rufus Sewell, dando um show de interpretação) começa como o Obergruppenführer do governo dos Estados Unidos, apesar de ser americano. É difícil defender qualquer um que compactue com o nazismo, mas John desafia esse sentimento em vários momentos, principalmente no que toca sua família perfeita – Helen, sua esposa e seus três filhos. Sem dúvida, o arco dele é o mais interessante de toda a história. Mas aquele desfecho na última temporada…

– Frank

Namorado de Juliana, Frank (Rupert Evans) é o personagem mais chato da série, mesmo levando em consideração todo o sofrimento por que ele passa. Frank é chato. Bem chato. Não preciso falar mais nada.

Joe

Joe (Luke Kleintank) foi um ponto de interrogação durante todo o tempo em tela – nazista ou não? Controverso, porém. Muitos o consideram sem sal, mas ele sem dúvida é bem menos chato do que Frank.

O Homem do Castelo Alto é cheio desses personagens interessantes que amamos odiar, como o inspetor-chefe Kido (Joel de la Fuente) e o comerciante dono de antiquário Robert Childan (Brennan Brown). E também há aqueles fofinhos que dão vontade de abraçar, como o ministro do comércio Nobusuke Tagomi (Cary-Hiroyuki Tagawa) e o melhor amigo de Frank, Ed (DJ Qualls). Uma pena que a partir de determinado momento alguns sumam sem qualquer justificação satisfatória.

Cary-Hiroyuki Tagawa na segunda temporada de The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)
Cary-Hiroyuki Tagawa em The Man in the High Castle (Amazon Prime Video)

O Homem do Castelo Alto: o veredito

Assim, apesar dos baixos, que belíssima produção foi O Homem do Castelo Alto, de qualidade técnica inquestionável, cheio de silêncios significativos e sofrimentos reprimidos. Impecável, a trilha sonora deixa o som do rolo de filme antigo em movimento para sempre em nossa memória auditiva.

Só queria que o final tivesse feito algum sentido lógico. Alguém sabe me explicar? Essa subversão que impuseram – principalmente no último episódio – não foi legal e fez o seriado cair algumas posições no meu ranking, mas ainda sim não apagou a boa série que existiu: o hipnotizante o-que-poderia-ter-sido-e-graças-a-Deus-não-foi.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.