Análise | ‘O Quarto de Jack’: a relação alienada de mãe e filho em um cativeiro

O Quarto de Jack apresenta ao telespectador uma situação inusitada e trágica, a de Joy (Brie Larson) e seu filho Jack (Jacob Tremblay), presos dentro de um quarto por anos. Para aumentar a claustrofobia, não há janelas no ambiente, a porta permanece fechada quase o tempo todo. Há apenas uma claraboia, da qual conseguem ter um contato mínimo com o externo e manter uma noção de dia e noite. Joy e Jack na verdade são reféns de um homem, o velho Nick, que os mantém presos graças a uma senha na porta. Apesar de algumas tentativas, Joy não obteve êxito em fugir e se conformou em permanecer no cativeiro. Um grande problema é de que nada adiantaria matar Nick, pois somente ele sabe a senha da porta.

No decorrer do filme, acompanha-se o cotidiano da mãe e de seu filho. Durante 5 anos, Joy criou um mundo paralelo para Jack, na concepção dela havia apenas o quarto e do outro lado da parede, o espaço sideral. É nítido o esforço dela em criar um ambiente acolhedor e seguro ao filho. Ela propõe várias atividades lúdicas e educativas para Jack, desde desenhos a cozinhar um bolo. Um dos elementos mais chamativos de O Quarto de Jack é a forma como o garoto percebe o mundo. Para ele, os programas de televisão são ilusórios, assim como os elementos externos ao quarto. A comida esquentada no micro-ondas é magicamente materializada, tal qual os mantimentos que Nick traz para eles.

Ao completar 5 anos, Joy lhe revelou como de fato é o mundo. Ela tentou explicar como era o ambiente além do quarto, no sentido dele estarem em uma rua, dentro de um bairro e assim por diante. Em seguida, o menino rechaça prontamente essa realidade, pois dentro daquela cúpula criada por Joy, não havia nenhuma ameaça externa e nem o desconhecido. Talvez o único elemento atemorizante era Nick. Ela não permitia que o garoto tivesse o menor contato com o sequestrador. Um dia, Jack saiu do armário e Joy, como uma leoa atacou Nick, que rapidamente a imobilizou.

Pouco tempo depois, Joy bolou um novo plano de fuga, simulando que Jack estava doente e que ele precisaria ser levado ao pronto-socorro. Nick não concordou em levar o garoto, disse que compraria um antibiótico. No dia seguinte, Joy precisou apelar e armou com o garoto para ele se fingir de morto. Após uma certa resistência, ele concordou e seguiu as instruções da mãe. Nick chegou no quarto e o garoto estava enrolado dentro do tapete, ele queria ver Jack, mas Joy o impediu. Enquanto estava sendo levado pelo sequestrador dentro da van, Jack saiu do tapete, quando o carro parou no semáforo ele pulou do carro.

Nick percebeu a movimentação, correu atrás do garoto, mas Jack conseguiu pedir ajuda a um estranho. Nick tentou levá-lo de volta ao quarto, mas o estranho ameaçou chamar a polícia. Rapidamente o sequestrador largou o menino e fugiu. Depois de ser acolhido pela polícia, Jack passou por um rápido inquérito para encontrarem a localização do cativeiro. Apesar da imprecisão das informações, os policiais conseguiram resgatar sua mãe. Após o resgate, foram para o hospital e os pais de Joy reencontraram a filha. Desde o desaparecimento dela, havia passado longos 7 anos.

Brie Larson e Jacob Tremblay em O Quarto de Jack
O Quarto de Jack (2015)

O  ESTRANHO MUNDO DE JACK

A partir desse momento, O Quarto de Jack, dirigido por Leny Abrahamson, faz uma virada importante. Apesar do alívio do término do sequestro, os protagonistas passaram por novos desafios e readaptações. A primeira dificuldade foi restabelecer os vínculos com as pessoas, começando pela família de Joy. Após o resgate, a moça desenvolveu a ideia de que estava atrapalhando a vida de todos ao seu redor. Seu pai, não conseguia sequer encarar o neto, talvez por saber que ele era fruto de um abuso. Jack precisou aprender a se relacionar com a sua nova família e com os objetos exteriores que ao da sua “nave”. O que não parece ter lhe causado um grande sofrimento, mas pelo contrário, foi bem enriquecedor para o seu desenvolvimento psicológico.

Joy, por outro lado, precisou administrar o assédio da mídia, desde a chegada deles na casa de seus pais, até com a entrevistadora invasiva e perversa. Durante o programa, a apresentadora lhe perguntou se talvez não teria sido melhor se Joy tivesse pedido para o sequestrador ter levado Jack embora. Afinal assim, o garoto poderia ter escapado do cativeiro e sofrido menos. Essa questão foi um gatilho importante para Joy se sentir uma péssima mãe. Por não deixar que Jack fosse embora, ela se sentiu egoísta em não ter feito que era melhor para ele (teoricamente). Na mesma noite, Joy tentou se suicidar no banheiro, foi salva pelo filho e ficou internada no hospital por alguns dias.

No período em que Joy ficou internada, Jack pode se aproximar de seus avós, principalmente de sua avó e de seu namorado, além de poder brincar com novos brinquedos e explorar um novo mundo. Com a intenção de ajudar a sua mãe, Jack quis cortar o cabelo e mandar para ela, para que assim, ela pudesse ter força novamente, em referência ao mito de Sansão. No final do filme, o garoto, assim como Robson Crusoé, quis retornar para a sua “ilha” e se despedir dela. Ainda que para Joy, o quarto representasse um ambiente aterrorizante, para Jack era um lugar com boas lembranças e fantasias.

O ponto mais interessante a ser analisado de O Quarto de Jack é o desenvolvimento do menino em uma perspectiva psicanalítica. Joy é o elemento chave na narrativa, pois representa a única referência de realidade de seu filho. Na tentativa de protegê-lo da angústia frente ao cativeiro, ela se esforçou em tornar aquele ambiente um lugar mágico e fantasioso. Ao invés de revelar que eles eram mantidos em cárcere, tornou o quarto uma nave espacial e fora dela havia apenas o espaço sideral. Atitude semelhante a de Guido (Roberto Benigni) com o seu filho em A Vida é Bela, que transformou o campo de concentração nazista em um grande jogo em que o vencedor ganharia um tanque de guerra.

Brie Larson e Jacob Tremblay em O Quarto de Jack
O Quarto de Jack (2015)

Apesar da boa intenção, tentar encobrir a realidade externa é uma atitude  psicotisante, principalmente no caso de Jack, que por estar em isolamento total desde o nascimento, o prejuízo é ainda maior. Joy ainda que tenha apresentado ao filho um universo simbólico considerável, deu uma maior ênfase ao imaginário. Um dos seus poucos atos castradores foi o de contar a verdade para Jack a respeito do mundo exterior, ainda que de uma maneira brutal e impaciente.

Uma outra questão complexa foi a de Joy negar a existência do pai de Jack, que não requer uma grande dedução para o telespectador perceber que se trata de Nick. No meio da desagradável entrevista, ela se recusa a dizer que Nick é o pai biológico do garoto, alegando que pai é aquele que cria o filho. Existe uma certa verdade nessa afirmação, porém pode ser bem duro para Jack crescer sem saber ao menos quem é o seu pai. Ao mesmo tempo em que Joy se coloca em uma posição de virgem Maria, como se tivesse concebido o filho sozinha. Além disso, esse discurso tende a ser bem alienante para o menino. Crescer sem ter ao menos uma referência de uma figura paterna pode ser muito danoso também. Talvez o namorado de sua avó possa ocupar esse lugar.

Próximo do fim de O Quarto de Jack, o garoto, ao conviver a avó e seu namorado, ganhou uma oportunidade de sair da simbiose com a sua mãe, podendo assim desenvolver novos vínculos e novas referências da realidade. Mas o fator mais importante é de poder sair da alienação do desejo de sua mãe, sendo apresentado assim para um Outro (representante da norma e da linguagem) e barrado da onipresença do desejo da mãe. O que permite retirar a criança da condição de objeto de gozo (satisfação destrutiva) dela. Ainda que Joy tenha castrado Jack em alguns momentos, (a mãe pode também realizar uma função paterna) esse ato foi incipiente.

Comparar a experiência de isolamento que estamos vivendo hoje graças a quarentena, com a de Jack e Toy, não é nada complicado. Entretanto há uma diferença essencial, Jack nasceu e viveu no isolamento por cinco anos. Além de ter uma noção da realidade prejudicada, sua mãe contribuiu para distanciá-lo ainda mais do mundo externo. Nossa situação se assemelha um pouco com a de Joy, mas em uma proporção bem menor. O garoto talvez é o que menos tenha sofrido com o sequestro, pois ele sequer conhecia o exterior da casa. Por algum tempo, precisaremos nos refugiar como Jack, mas com ajuda do simbólico, da arte e com uma parte menor do imaginário, caso contrário, enlouqueceremos.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.