Crítica | Com um elenco de peso, ‘Hollywood’ subverte expectativas com otimismo e representatividade

O revisionismo da história de Hollywood sempre esteve em alta, mas desde o lançamento do último trabalho de Quentin TarantinoEra Uma Vez em… Hollywood (2019), o assunto começou a ser ainda mais comentado. No filme, foi possível acompanhar a evolução da indústria pelos olhos de um ator que não conseguia se encaixar nas constantes mudanças que batiam em sua porta diariamente, além da representação de um dos maiores horrores já vistos por ela: a seita de Charles Manson e o assassinato de Sharon Tate.  

Tarantino procurou contar esse período da história com sua própria visão, modificando alguns fatos que desencadearam em uma diferente realidade a qual desejávamos que fosse a verdadeira. Na nova minissérie de Ryan Murphy Ian BrennanHollywood, é feito algo parecido, mas colocando o foco em outras problemáticas da época, inserindo um olhar próprio e revigorante dos reais acontecimentos da era de ouro pós-Segunda Guerra Mundial. 

Murphy, por si só, é um showrunner divisivo e extremamente popular com a crítica e público. Seus trabalhos não passam despercebidos, e, na maioria das vezes, conseguem ser bem recebidos por esses dois grupos. Mas, em outros casos, é comum encontrá-lo perdendo a mão em cima de algo que possuía uma excelente ideia, mas que peca na falta de autocontrole e planejamento prévio, como pode ser visto em grande parte das temporadas de American Horror Story. Em Hollywood, ele ameaça sofrer do mesmo mal, mas acaba surpreendendo e entregando algo acima da média do esperado. 

Sua intenção aqui, indo na contramão das expectativas, não era entregar algo fiel aos fatos históricos, trazendo paras as telas os reais destinos de algumas personalidades representadas, além da podridão em níveis extremos da antiga Hollywood. Por mais que, em alguns momentos, ele beire à veracidade dos mesmos – principalmente quando se trata em criticar a indústria – é claro o sentimento que ele procurava trazer para a minissérie: reconforto e esperança.  

Alguns podem concluir que Murphy Brennan estão desrespeitando as conquistas e as lutas dos verdadeiros nomes em que o projeto se baseia. E, deve-se dizer, essa conclusão é extremamente válida e deve ser discutida. Mas, tendo outra interpretação, encontrar um produto que entregue otimismo ao espectador pode ser reconfortante, principalmente se levarmos em conta o atual momento da indústria, que ainda mostra não ter superado diversas problemáticas da época.  

Hollywood (2020) – Netflix

 

Os personagens em Hollywood

O carisma dos personagens é o principal fator que faz a minissérie funcionar. Eles movem a trama mesmo quando ela parece estagnada em mostrar descontroladamente o lado sexual da história. Os primeiros 3 episódios parecem muito mais preocupados em esbanjar o lado descontrolado e bem humorado dos criadores, do que entregar um desenvolvimento propício do roteiro. É divertido, claro, mas não traz aquele sentimento de que estamos vendo aonde o roteiro realmente quer chegar. 

É impossível dizer que a era de ouro de Hollywood não era rodeada e não funcionava a base de interesses sexuais. O roteiro se preocupa em deixar isso claro, mesmo que a abordagem possa parecer um pouco romantizada em alguns momentos, até mesmo quando são escancarados os abusos presentes na indústria – que ainda são comuns, infelizmente.  

O protagonista, Jack Castello (David Corenswet), inspirado em Jimmy Stewart Marlon Brando, é o nosso pontapé inicial para adentrar nesse universo, e que se faz presente em momentos chaves para que possamos entender alguns dos pontos que a minissérie se propõe a abordar. Porém, com o desenrolar da trama, ele se torna quase um coadjuvante dando mais espaço para que outros personagens possam brilhar. 

A partir do 4º episódio, o roteiro deslancha e deixa um pouco de lado toda a parte de exploração sexual que se mantinha focado, dando espaço aos bastidores de Hollywood, que é onde mais se sai bem. Com essa mudança, Murphy e Brennan permitem criticar todo o racismo, homofobia, machismo e assédio que aconteciam nesse meio, e mostram todas as dificuldades que lançar um filme escrito por um roteirista homossexual e estrelado por uma atriz negra possuía. 

Hollywood (2020) – Netflix

Por mais que, se analisarmos o período retratado, e ainda pesquisar sobre a verdadeira história de algumas personalidades retratadas, as dificuldades daquela época e todas as tentativas de mudar a indústria não foram bem sucedidas como a minissérie mostra terem sido. Mas, como dito, é preciso sempre lembrar que a intenção aqui não era trazer uma representação fiel dos fatos históricos, e sim um olhar diferenciado e mais esperançoso dos mesmos. 

Rock Hudson (Jake Picking), por exemplo, representa perfeitamente isso. Na vida real, ele possuía as mesmas características que o personagem mostra ter: a má atuação, o nervosismo, e a inocência, mas que acabou escondendo sua verdadeira sexualidade para conseguir se encaixar na Hollywood da época. Ele se assumiu publicamente somente em 1985, quando descobriu que estava com AIDS, que, infelizmente, foi a causa da sua morte.  

Em todas as suas séries, Murphy sempre procura mostrar o quanto a representatividade importa, e agora, ainda mais pautada, essa representação nos faz sentir uma esperança muito maior na indústria do que realmente sentimos – quase – todos os anos ao acompanhar à temporada de premiações, por exemplo. O episódio final com a cerimônia do Oscar de 1948, além de ser um deleite visual e criado com atenção aos mínimos detalhes de cenário, é o ápice da minissérie e desse sentimento.  

Hollywood (2020) – Netflix

Hollywood não é o melhor trabalho de Ryan Murphymas é o melhor entre sua parceria com Ian Brennan. Não é isento de defeitos, principalmente ao se tratar da primeira metade de episódios, mas é refrescante, revigorante, esperançoso e com um elenco espetacular. Se atentar aos detalhes das personalidades reais pode prejudicar a experiência, por isso, o melhor a se fazer é se deixar levar. 

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.